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Querem Atropelar Minha Paixão.

13 jun

No ano passado, eu participei de um evento que unia hardcore, SxE e veganismo, a Verdurada de São Paulo. Fui pela comida, pela música e pelos amigos, e qual foi a minha felicidade quando soube que uma das próximas atrações seria um grupo de mulheres (exclusivamente mulheres!) ciclistas.

Precisamos começar a usar essas plaquinhas...

Minha relação com o ciclismo começou muitos anos atrás. Meus pais me deram a primeira bicicleta com sei lá…7, 8 anos. Na periferia, todas as crianças brincavam na rua, andavam de bicicleta e disputavam corrida. Eu, perdedora desde o útero, quase nunca interagi, e fui tentar pedalar numa idade considerada ultrapassada por elas.

Quando desci para a rua, lembro da visão das mães das crianças se esgueirando pelas portas e comentando com o meu pai ou uma tia que tentavam me ensinar “Mas minha nossa, ela tá com quantos anos? A minha filha aprendeu com cinco!”. Numa dessas tardes de treino, eu ousei uma tímida curva. Caí. Haviam crianças presentes. Elas riram por um tempo que, hoje, pra mim, parecem horas.

Desisti. Já me chegava o bullying, as surras e os xingamentos que ouvia na escola. Não precisava ser ridicularizada também na minha própria rua.

Dez ou onze anos depois, eu estava lá na Verdurada, vendo aquelas moças lindas falarem sobre autonomia, liberdade, sustentabilidade e superação.

Elas eram as Pedalinas, e eu era tímida e traumatizada. Quando elas terminaram de falar, eu me levantei e perguntei se havia alguma chance de elas ensinarem alguém a pedalar, mesmo depois de “crescida”. “Claro que sim, vamos programar isso aí!”.

Eu me empolguei, e elas cumpriram com a promessa.

Dia 7 de Maio de 2011, eu me encontrei com elas na Praça do Ciclista, próxima da Avenida Paulista.  Aprendi sobre a relação entre ciclismo e feminismo. A autonomia que esse meio de transporte deu às mulheres muitas gerações atrás de mim.

Eu jamais imaginaria que não era permitido que mulheres pedalassem. As justificativas eram infinitas: “É coisa de homem, viril demais”, “A saúde delas é frágil, não aguentaria”, ou até “O sangue agitado pelo exercício as deixaria com traços masculinos!”. Depois, fui saber dos obstáculos que existem até hoje. O assédio, comum a nós mulheres pedestres, toma níveis ainda mais desprezíveis quando estamos na posição de pedalada. 
Isso sem mencionar, é claro, a sensação de ser engolida por um estouro de boiada mecânica, composta por toneladas de aço e fumaça que compõem a experiência de pedalar por São Paulo.

Naquele 7 de Maio, a minha professora foi a Jeanne, alguém que vai carregar minha eterna gratidão por ter me ensinado algo que me mudou tanto. Ela correu, me equilibrou, e do nada, eu senti vontade de falar aquele “Pode soltar!” que as crianças de poucos anos dizem aos seus pais. E ela soltou. E eu deslizei.

Segundo maior amor da minha vida. ❤

Comecei a acompanhar as Pedalindas em todas as voltas. No meu aniversário, ganhei uma Blitz Fast linda e amável do meu companheiro, que agora é companheiro também de pedaladas. Subi a Augusta com a Carina, corri pela Paulista com a Bia, desci a Consolação com o meu querido, pegamos a Vergueiro, Liberdade, Ipiranga, Ibirapuera…ganhei um mundo novo.

Como eu avisei no último post, Jo e eu estamos correndo muito (infelizmente não é sempre de bike, a maior correria é de segunda a sexta, tem horário pra começar mas não tem hora pra acabar, e está localizada dentro de cubos cinzas chamados ‘escritórios’), mas sempre que temos um tempinho, tentamos nadar, pedalar, ver uma peça ou algo que nos faça ganhar o dia além da companhia um do outro. Nesse último domingo, fomos ao PicNic Pelo Mesmo Amor, no Parque do Ibirapuera. Em meio a amor, bandeiras coloridas, e comida vegana, pedalamos muito.

Estradinhas do Parque, muito amor.

Na segunda-feira, pela manhã, ainda em êxtase pelo maravilhoso final de semana, recebi uma notícia capaz de azedar qualquer dia.

Um ciclista de 68 anos foi atropelado, e assassinado morto na Av. Sumaré. Ele era experiente, costumava fazer cicloviagens, trajava capacete e possuía 15 bicicletas. Uma delas, agora será uma Ghost Bike.
Quando eu aprendi a andar de bici, deixei claro: meu objetivo era e ainda é abandonar o transporte coletivo na medida do possível, e usá-la como principal meio de transporte.
Meu caminho para o serviço é bastante complicado, cheio de grandes avenidas e stress. A vantagem é que com a bici eu posso escolher ruas menos motorizadas e mais tranquilas. Porém, como ainda sou bastante iniciante não me arrisco. Já pedalei pela rua algumas vezes e sei o quanto, mesmo sinalizando, alguns maus motoristas parecem ter prazer em passar “lambendo” por você.  

Creiam-me, qualquer pedalante urbano tem o dever (normalmente muito bem cumprido) de saber se fazer visível às boiadas metálicas, sinalizar caso vá mudar de rumo, priorizar o pedestre e passar uma boa imagem, a de que :“você não precisa dessa tonelada de aço poluente e congestionante pra ser feliz. Na verdade, nós estamos até andando mais rápido que os carros, viu? *trim trim!* faz a buzininha, e o sorriso no rosto decola!”

Respeite.

Por frustração contida ou desinformação, muitos motoristas dirigem agressivamente, e não respeitam a distância de 1,5 metro estipulada no Código Brasileiro de Trânsito para que a ultrapassagem seja feita. De tombos a mortes, ciclistas sofrem agressões diárias. Quando se é mulher, ainda tem o assédio.
Isso gera medo e estimula mais ainda a cultura que mais afunda a cidade: a Motorcracia.

Propagandas de veículos motorizados sob a voz suave de um narrador te dizem o quanto é másculo, sensual e viril correr por uma pista vazia em meio a campos de milho. Cidades normalmente não são assim (garanto que a Avenida Sumaré não é). Ou então, um chefe grita com seu motoboy ou caminhoneiro, para que cumpra prazos absurdos num local de tráfego tão intenso. Todos correm, se atropelam, se fecham, brigam e disputam uma vaga perto do próximo sinal vermelho, ou do estacionamento superlotado.
O senhor de 68 anos que se atreveu a não entrar nessa disputa enlouquecida perdeu sua vida hoje.
Márcia Regina de Andrade Prado  também, e eu não quero nem lembrar do que aconteceu em Porto Alegre.

Quando eu afirmo  que quero andar de bici para todos os lugares, muitxs me lembram que eu posso ser a próxima. Se quero sair a noite, me lembram que posso ser assaltada. Se meu short está mais curto, avisam que eu posso ser estuprada.
Essa cultura do “não seja atropelado”, “não seja roubado”, “não seja estuprada”, “não dê mole!” já não me convence.
Lutarei e me unirei a todos os grupos que promovem a ética, a paz e por que não o amor (menos motor!) sem a menor vergonha de ser chamada de radical ou bicho grilo.
A minha luta é todo o dia. Pelo fim do patriarcado, do Estado dominador, da Motorcracia, do ódio, do racismo. Não nos silenciarão. Seu medo não atropela nossa paixão. 

Foto por Elaine Campos


Adendo:
eu vi a Slutwalk de perto, pois o passeio mensal das Pedalinas ocorreu no mesmo local e hora. Fico feliz que a execução tenha mais foco na luta feminista do que na Testeronísse pregada por idealizadoras do evento. Tenho cansaço, preguiça e pressa demais para responder a todos os comentários me chamando de retrógadaconservadorafrígida, mas agradeço a divulgação da idéia inicial de qualquer forma.
Sigamos em luta.

Pula Catraca! – 9º Ato Contra o Aumento da Passagem de São Paulo

18 mar

Desde o dia 5 de janeiro, passageiros do transporte público de São Paulo são obrigados a pagar R$ 3,00 por um serviço que há muito (sempre?) nos deixa na mão.

Apesar do valor da passagem – que aumentou 11,11% – ser quase o dobro da inflação medida pelo índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA), – que fechou o ano em torno de 5,9%-, aparentemente para a Secretaria de Transporte ainda é uma tarifa justa a ser paga por um serviço extremamente superlotado, com intervalos enormes, e percorrendo trajetos que em dias de chuva ou muito trânsito (ou seja, todo dia) podem chegar a duas, três horas ou mais por condução. Sempre lembrando: não foi adicionado nem um ônibus sequer na frota, e nenhuma melhoria nas condições do serviço foi posta em prática.

Quem mora em São Paulo já é habituado a sair de casa com uma antecedência de no mínimo duas horas, ainda que não vá para tão longe assim. A periferia como sempre é a mais prejudicada, com poucas linhas, sempre com pessoas caindo pelas portas, e muitas vezes, servida principalmente por micro-ônibus, que transbordam aos montes em viagens longas, por ruas esburacadas e repletas de curvas fechadas.

Isso sem mencionar pessoas com deficiência física, obesos e idosos, que são praticamente vetados nos horários mais concorridos, especialmente por não serem “ágeis” o suficiente para conseguir embarcar entre a multidão.

Quanto ao metrô, alternativa para quem mora perto de alguma estação (pra quem não é da cidade, já deixo claro que regiões da periferia não são atendidas por este serviço) subiu 263% desde 1996, considerando o aumento da passagem para R$ 2,90. Nos últimos 15 anos, a inflação medida pelo IPCA da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) foi de 131%.

Ou seja: se em 1996, a tarifa era de R$ 0,80, e a inflação fosse seguida, o preço hoje estaria em R$ 1,84.

Vale lembrar também que viagens pelo metrô em horário de pico são praticamente um teste de resistência, onde  vence –  entra no trem – o mais forte – quem mais acotovelar e empurrar os demais passageiros. Desmaios e escoriações são frequentes devido à falta de circulação de ar nos vagões (existe alguma palavra “maior” que “cheio?”) claustrofóbicos e empurrões.

Mas enfim, pra quem anda de carro do ano com gasolina paga pelo Estado, nada disso é problema, e tudo parece muito justo.

No dia 12 de fevereiro, após uma série de Atos reunindo estudantes e trabalhadores, membros do Movimento Passe Livre conseguiram uma Audiência Pública com o secretário de Transportes, Marcelo Cardinale Branco, que abandonou a mesma três horas depois de não conseguir apresentar nenhum argumento válido para o aumento, e sob a justificativa de “desordem”

na Câmara Municipal por parte dos manifestantes.

(...)

O MPL seguiu em luta, e organizou nesta quinta-feira, (17) o 9º Ato Contra o Aumento da Passagem, lutando pelo direito de um transporte justo e livre.

Este, assim como já ocorreu em outros atos, terminou marcado pela violência e repressão pesada do braço armado do Estado.

Foto do sétimo ato. A história se repete.

Após o Ato percorrer e ocupar pontos estratégicos, como o Terminal Bandeira – onde houve depredação, de fato do local, por parte de poucos membros, e com desaprovação da maioria – e a região do Anhangabaú, alguns manifestantes comunicaram a intenção de, em um ato simbólico, pular-se as catracas do metrô, retornando em seguida (não pular e se dirigir aos trens, assim como vem sendo noticiado na grande mídia).

Muitos discordaram da ação do grupo dada a evidência do conflito com a segurança do local, porém a grande maioria correu para dentro da estação.

Alguns amigos meus chegaram antes de mim e do Jorge, que estávamos entre o meio e as portas da estação. O que foi narrado para nós nas regiões da catraca, provavelmente não é o que vocês irão ouvir nos noticiários.

Dois rapazes pularam catracas do metrô, e em incentivo aos demais, deram poucos passos para frente. O óbvio aconteceu. Apesar de “A Prefeitura de São Paulo sempre manter canais abertos de diálogo com a sociedade (…)” o que se viu mais uma vez, foi despreparo e truculência.

Canais abertos de diálogo, quebrar narizes, etc.

Em protesto, os manifestantes que estavam no local quebraram lâmpadas, e reagiram contra a situação. Neste momento, Jo e eu percebemos que policiais e funcionários fechavam as portas da estação, de modo a impedir que os manifestantes conseguissem escapar de um iminente massacre. Nós e mais algumas pessoas gritávamos e bloqueávamos um dos portões ainda abertos, para que não trancassem a todos lá dentro. Poucos segundos se passaram e houve o estouro de uma bomba de efeito moral, dentro da estação. Correria e pânico generalizados, em especial por parte de passageiros alheios a situação. Vimos senhoras idosas e crianças chorando, sem saber pra onde fugir. Os manifestantes se defendiam dos seguranças e da PM, que caçavam quem podiam sem distinção.

Portas já quase totalmente fechadas, manifestantes expulsos na porrada.

Alguns amigos nossos se feriram, e soubemos de gente que ficou muito pior graças aos estilhaços de bomba e ofensivas policiais.

Nós ficamos pela região do metrô, acompanhando a situação. Soubemos de manifestantes que foram acuados e perseguidos no Terminal Bandeira.

Algum tempo depois, o grupo se reuniu (com alguns membros faltantes) e se dirigiu novamente ao Theatro Municipal, onde havia começado o Ato, onde foi divulgado o local para a próxima manifestação e repudiado o despreparo, mais uma vez presente, da Polícia.

O meu desgosto é uma tríade: Primeiro, pelo reduzido número de participantes, que vem caindo a cada manifestação. Não nego, é difícil perder aula, ou chegar a tempo do trabalho para participar, porém a visibilidade e a força caem visivelmente em relação a um ato como o 7º por exemplo, que tomou completamente ruas e avenidas.

Segundo, pela repetição do uso da repressão por parte do Braço Armado do Estado, que parece ser composto por zumbis armados, visto que atacam como um instinto primitivo, sem distinguir atos simbólicos de violentos e por aí vai.

Manifestante ferido por estilhaço de bomba de efeito moral.

Terceiro, pelo esforço que é preciso fazer para possuir algum tipo de visibilidade no movimento. E ainda assim, ver que as únicas notícias a respeito são defendendo os policiais e repreendendo os manifestantes, como se houvesse violência gratuita por parte dos mesmos. Quem estava lá, sabe que não foi esse o motivo pelo qual tanta gente saiu sangrando de um ato que busca ser pacífico.

Não sou a favor de atos de depredação gratuitos, pois só angariam má visibilidade para os manifestantes e não resolvem nada de fato. Porém, nossos gritos e nossas marchas não despertam interesse nem do Estado, nem da mídia (que seria uma grande aliada para convocar mais participantes se estivesse do lado correto). No fim, começo a me perguntar qual será a saída.

Se gritarmos e invadirmos avenidas, atrapalhamos o trânsito de quem tenta voltar para casa. Se ameaçarmos algum local público (ainda que sem violência nenhuma, como o ato de pular e voltar de uma catraca, ou permanecer em frente ao prédio da prefeitura) já é uma ofensa mortal, pelo visto. Se nos calamos, definitivamente, nada muda.

O que fazer? Seguir em luta. Silenciar nunca fez revolução alguma.

O que estamos fazendo é defender um direito nosso, nada além disso. Se o Estado opta por não nos escutar, e a mídia faz a nossa caveira em prol de quem nos espanca gratuitamente, a nossa melhor resposta, queridxs, é que: AMANHÃ VAI SER MAIOR.

Compareça no 10º Grande Ato Contra o Aumento da Passagem.

Quinta-feira, 24 de março, a partir das 17:00 – dá tempo de chegar mais tarde e ainda encontrar o movimento. Concentração na Pça Oswaldo Cruz, Metrô Brigadeiro (em frente ao shopping paulista).