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O Mito do Feminismo Conveniente e as Cômicas Piadas de Estupro.

18 abr

“É muito fácil ser feminista na hora de chegar no cara na balada e ser machista na hora de pagar a conta.”

Essa frase foi retirada da descrição de um dos vídeos mais asquerosos que eu já vi na minha vida inteira. ( não recomendo assistir se estiver almoçando, ou se tiver o mínimo apreço pela integridade da sua mucosa estomacal). O escolhi para começar o post porque já resume bem em alguns minutos o universo de quem a-do-ra opinar acerca de um movimento social sobre o qual desconhece em absoluto (se é o seu caso – assim como é o da autora do vídeo – recomendo fortemente que leia isso, talvez algum livro feminista, ou pelo menos CONHEÇA alguma militante do movimento antes de basear todo e completamente cada um dos seus argumentos em “Vai dizer que você não / Aposto que vocês blablablá”).

Pra ser sincera, uma leve busca na Wikipédia já faria você parecer bem menos ignorante.

"Olha gatinha, eu não dou a mínima pra o que você pensa. Se eu digo que eu sou um feminista então POR DEUS, EU SOU UM!"

Ainda acha que está com a razão, que tudo é uma grande piada (cordei kd graça)  e que feministas são esquizofrênicas? Então vamos lá, com a definição resumida de “O que é um Machista”, via Clube do Macho. Vou deixar tudo sic, como na original:

 “Acima de tudo, ser machista significa que você não faz coisas q considera atitudes ou atribuições de heteroboiolas (Segundos os mesmos, isso seria um homem hétero com atribuições “delicadas”, já que, como é comprovado cientificamente, um homem que cruza as pernas ao sentar e não fala gritando como um mamute no cio vai pro inferno) e de mulheres. Apenas isso! (sim, apenas isso. Apenas subjugar e explorar as classes “inferiores” – homens homossexuais e mulheres – o que tem de errado nisso?!)

O machista acha que lugar de mulher é na cozinha, lavando, passando, limpando etc. Pq? Simplesmente pq ele não faria isso, mesmo morando sozinho! Se ele não faz isso, quem vai fazer??? (me pergunto se eles já aprenderam a limpar a própria bunda.) Ou a esposa do cara ou a empregada doméstica dele. E feministas, acreditem, essas duas figuras não precisam ser necessariamente a mesma pessoa! Não é incrível??!?!Claro! Mais incrível ainda é que você acredite que sua esposa ou qualquer outra mulher sejam responsáveis por limpar a sua merda, e não você! Mas não que nada disso esteja relacionado a gênero, IMAGINA.

Eles só crêem que homens precisam ser estúpidos, violentos, enfim, inumanos…os que não são assim são fracos, “boiolas” (nãão que isso tenha algo a ver com homofobia, jamais!) e que a obrigação de limpar a bunda peluda alheia pertença a outras mulheres: como mães, esposas, e/ou empregadas. Mas repito: nada a ver com dicotomia de gênero, homofobia ou sexismo.

Qualquer semelhança entre este raciocínio e o do “Homem incompetente VS. A eterna mãe” (sobre o qual a Lola retratou belissimamente nesse post sobre a nova e escrotíssima campanha da Bombril) não é mera coincidência.

Imagem de macho ideal segundo o Clube do Macho. Opa, piercing igual o meu. Significa?

Eu poderia rebater cada parágrafo desse amontoado fecal do Clube do Macho, mas vou me restringir a apenas mais um parágrafo, que é onde mais uma vez eles ensinam com o que a gente deve ou não se importar, como deve ou não agir e etc.:

 “Se um machista diz “que mulher só serve para cozinhar” e ela fica PUTA com isso, é porque ela ACREDITA que aquilo tenha um fundo de verdade. E acha um absurdo que isso seja a realidade.

Pois é, e se alguém alegar para umx negrx que elx só serve pra ficar na senzala, elx provavelmente vai ficar ofendidx. E isso não significa que elx concorda com isso. Significa que você tá falando bosta.

Se você disser para umx judeu que elx deveria ser queimado num forninho a lenha nazista, x mesmx tampouco dará risada e interpretará como uma brincadeira, mesmo que elx seja “superior” a isso. Há uma grande possibilidade de que talvez os seus antepassados tenham sido, de fato, queimados e torturados alguns anos atrás, precisamente por serem judeus.

O mesmo se repete com as mulheres, e qualquer outra classe que tenha sido (e/ou ainda é) prejudicada ao longo de tantas eras.

Não dá pra rir quando eles defendem o uso de “porrada” pra levar alguma fêmea para o “abate”, quando você conhece tantas mulheres que foram estupradas, espancadas e/ou mortas para o mesmo objetivo.

Este cômodo está cheio de pessoas que acham que você é engraçado.

Assim como em plena Virada Cultural (um evento enorme que ocorre uma vez por ano em São Paulo para uma platéia imensa) ouvir piadas do tipo “Daí ela pediu pra eu bater nela e chamar de puta. Eu falei “opa, jamais”, mas ela insistiu, gente, eu juro! – risos gerais – . Como ela pediu muito, eu bati né. Tá desmaiada até hoje, tadinha – risos gerais –“ [1] sendo que eu conheço mulheres próximas a mim que apanharam durante anos do marido, a ponto de perder o bebê que carregavam, ou desenvolverem distúrbios psicológicos graves e internarem-se em hospícios. Não tem a menor graça.

Nesse mesmo evento (Virada), soube de pérolas como “depois que inventaram o mertiolate que não arde, surgiu um monte de veadinho”. O que também não me causou risos. Primeiro porque não é o ardor de um ralado no joelho que transforma alguém em heterossexual. Segundo, que o fato de tantxs homossexuais morrerem e apanharem diariamente só por sua orientação sexual me causa pouca vontade de gargalhar.

Ainda tive que conviver com o fato de que neste mês, a Sexy – revista masculina que promove estereótipos e objetificação da beleza feminina, etiqueta comportamental para ambos os gêneros e enfim…mais um desses manuais vendidos as pencas para formar indivíduos alienados – com ampla distribuição, publicou uma matéria do colunista e famoso blogueiro Edu Testosterona, que tem como único objetivo (de vida?) esculachar o movimento feminista. [2]

Porque afinal, depois de dar duro o dia inteiro no trabalho, o maridão merece mesmo uma refeição quente!

Através de argumentos muito bem fundamentados e de profunda originalidade, como “Querem ter direitos, mas não querem deveres!” e “Por que vocês não lutam pro Alistamento Militar ser obrigatório para ambos os sexos?”, Edu invoca todos os Grandes Argumentos Anti-Feministas usados desde que a humanidade percebeu o potencial revolucionário do movimento. Afinal, se estiverem todas nas ruas, quem limpará nossa cozinha? Já sei! Vamos chamá-las de feias (afinal, somos LINDOS! e tudo que mais importa para o sucesso de uma mulher é a sua beleza!) e mau comidas, alegando em seguida que o único jeito delas serem legais e superiores seria…bem…limpando nossa bunda, chupando nosso pau e cortando o próprio torso para enfiar próteses de silicone cada vez maiores!

Parece pavoroso para os masculinistas que o movimento feminista não se resuma a lutar por eles.

Mas olha, vou confessar uma coisinha entre dentes muito assustadora: a gente luta por direitos masculinos, sim. CALMA. RESPIRA. Já tá acabando!:

Sabe a Licença Paternidade?Pois é, feministas são a favor de licença paternidade de tempo equivalente a maternal. Chocante, eu suponho.

Nós também não gostamos e não apoiamos, por exemplo, que vocês precisem ser machos caricatos, que não choram, não amam, não sentem e vivem a vida em “stand by”, como um amontoado de minerais desgastados pelo vento.

Quanto ao alistamento: jura MESMO que vocês acham que o problema é as MULHERES não se alistarem obrigatoriamente? Eu, assim como (suponho) qualquer anarco-feminista e tantas outras pessoas, sou contra o alistamento obrigatório, independente de gênero. Considero-o uma obrigatoriedade que viola as vontades e perspectivas de vida do ser humano, ignorando seus reais desejos, e usando-o, literalmente, como um soldadinho de chumbo para as vontades do governante superior.
Convenhamos que as nossas guerras não são motivadas por revoluções benéficas para todos. Aliás, se fossem, o alistamento não seria um problema para muitos de nós, que voluntariamente batalharíamos para um mundo mais justo.
Portanto, a obrigatoriedade em si já é algo condenável.

A solução para os problemas do mundo: mais mulheres no exército. Oi?


As mulheres não são utilizadas mandatoriamente como massa para essa manobra justamente por um conceito sexista: sexo frágil.
Para muitos, uma mulher não tem a mesma capacidade física de um homem, não importa o quão bem treinada ela seja. Portanto, ela é supostamente um peso morto no batalhão.
Uma outra observação: em guerras e ocupações (onde matam-se os homens e estupram-se as mulheres, como já foi feito tantas vezes na história), as mulheres são utilizadas como máquina reprodutiva e/ou exemplo de dominância por parte de quem ocupou o território. Portanto, não há benefício em tê-las na linha de frente, mas sim assustadas e violentadas.

Temos que considerar ainda que masculinistas e anti-feministas de forma geral, possuem essa crença absurda de que o feminismo domina o mundo, e que se as coisas estão do jeito que estão, a culpa é nossa. Um exemplo claro é cobrarem de nós o fato do alistamento obrigatório ser exclusivamente masculino, como se imediatamente compactuassemos com isso e tivéssemos o poder para mudá-lo a qualquer minuto, e não o fizéssemos por falta de vontade.

Outra dúvida que também não cala na minha mente é: quem são essas tais feministas a quem eles se referem? Quem são essas que militam pela libertação da mulher, mas querem que paguem a conta por elas? A sério, nunca conheci NENHUMA militante esclarecida que agisse dessa forma. E olha que eu conheço muitas.

Repito aqui o que disse ali em cima sobre o Clube do Macho: poderia ficar dias, semanas e meses rebatendo um por um de todos esses gorfos. Mas, como eu tenho muito, mas muito mais pra fazer do que ficar debatendo argumentos com quem senta o rabo em cima de seus privilégios e resolve que a meta de sua vida será esculachar um movimento que luta pela libertação dos indivíduos da doentia estrutura patriarcal, eu prefiro ir viver a minha vida.

Perdi muito tempo escrevendo isso aqui pra esses masculinistas de merda. Vão me fazer um sanduíche de tofu, desgraça. (Trolls me chamando de feminazi em 3...2...)

Inclusive, estou considerando escrever um post sobre sei lá, teatro albanês, física quântica, astronomia ou qualquer coisa da qual eu não faça a menor idéia. Pelo visto, dá pra ficar rica assim!

[1] Sobre a piada na Virada Cultural: eu e Jo ouvimos estes e outros absurdos, por volta das 14:30/15:00 de domingo, na região do Parque do Anhangabaú. Não sabemos ao certo o nome do palhaço, porque batemos em retirada assim que começou o festival de diarréia.

A piada homofóbica foi mencionada por muitxs outrxs presentes, mas eu não estava no momento e não sei precisar, tampouco, quem foi o autor desta belezinha.

[2] Não tenho link da tal coluna pois ainda não disponibilizaram online. Assim que rolar, posto aqui pra vocês gorfarem também. Pretendo elaborar um e-mail para a editora, já que é de extrema falta de responsabilidade publicar conteúdo de ódio e difamação irreal, ainda que sob a alegação de não-responsabilidade acerca do conteúdo criado pelos colunistas.

Não linko o site do tal indivíduo porque não me convém. Abrir aquela página me dá náuseas. Google it.