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Rascunhos Sobre a Lucidez

22 ago

Abiguinhxs, vida tá conturbada. Aguardem posts com detalhes sobre desemprego e tretas na faculdde bem-estarista. Por enquanto, fica o rascunho sobre um universo que só tive coragem de adentrar agora.

Idéias inesperadas são aquelas que mais me incomodam. Quando toda a ordem ideológica está estabelecida, e nada parece questionável, aquela maldita dúvida surge e corrói até o limite.

Atualmente, alguns pensamentos me atingiram, e por mais que eu tentasse relutar, aquilo já tinha me afetado.

Quando entrei na adolescência, aceitei a tarefa que foi designada para mim: sociabilizar. Já que fui uma criança fracassada, me certifiquei de não desperdiçar as chances apresentadas na juventude.
Onde xs coleguinhas fossem, eu deveria ir. O que eles fizessem eu deveria fazer. O que eles ouvissem eu deveria ouvir. E principalmente: o que eles bebessem, eu deveria beber.

Então, quando eu estava no ensino médio comecei a sair pra beber, e de dose em dose, descobri uma das minhas poucas habilidades na vida: encher a cara. Sim amigos, eu sou – sem a menor modéstia – a bêbada perfeita.
Por muito tempo enchi a boca pra dizer o quanto era capaz de beber quase uma garrafa de vodka inteira sem perder a consciência. E passei mal apenas uma única vez, devido a um combo infalível de momento fisiológico ruim + má combinação de elementos entorpecentes e etílicos.

Foi assim que eu conquistei uns colegas (eventualmente, perdi o contato com praticamente todos) e dei algumas risadas. Bêbada.
Em retrospectiva, me pergunto se realmente tais eventos eram tão divertidos assim, ou se minha sanidade diluída em álcool inseriu esse sentimento em minhas memórias sem se basear em nada além da embriaguez.
Por exemplo, o ato de sentar-se um bancos plásticos e ingerir uma variedade de líquidos cujo paladar sequer seja interessante (falarei sobre paladar mais adiante) apenas para garantir que sua consciência se dissipe é mesmo tão divertido? Ao mesmo tempo, conversar enquanto se toma um suco tem carga moral “careta” e “antiquada”. Por quê?
Experimente afirmar para um cidadão comum que você não consume álcool. Possivelmente, será questionado:
A) Você é crente?
B) Você é louco?

Ousaria dizer que nem água potável é tão idolatrada pela publicidade.

A bebida é a grande válvula de escape e o maior instrumento de socialização ao qual fui apresentada. Jovens ou adultos se reúnem com maior ou menor freqüência sempre sob a presença sagrada da alteração etílica. Festas, almoços, reuniões, encontros, baladas: Tudo é sempre pretexto para se intoxicar, e isso é o natural, o divertido, o são a ser feito.

O mais engraçado é como isso se tornou natural e inquestionável entre nós, que sempre engolimos a “loira gelada” sem ousar duvidar de seu delicioso sabor refrescante. Quase todxs xs consumidorxs de cerveja que conheço precisaram se adaptar ao sabor da bebida em um período introdutório. Mulheres tendem a assumir sua preferência e optam pelas mais doces (e sim, eu sei que existem exceções). Para os homens, seria uma ofensa a sua masculinidade, portanto engolem a mais forte e amarga das bebidas evitando demonstrar uma repulsão natural por tal sabor.

Exceções existem, e estou ciente delas. O fato principal no entanto é pouco variante: muda-se o teor alcóolico e a intensidade do sabor, mas o consumo sempre deverá existir para todxs.

Lembram do traço físico característico que se segue ao “virar” uma dose de destilado? Careta. Repulsão involuntária. Então olhamos para os lados e nos certificamos de dizer algo como “Essa sim é das boas!”, e todos comemoram nossa admirável habilidade.

Assim, temos o álcool como parte fundamental da essência do indivíduo. Não desejá-lo é absurdo, inconcebível. É como se houvesse um instinto incontrolável que busca a felicidade e o bem-estar, que só poderão ser garantidos com goles de um amargo e nocivo líquido.

 “Mas eu gosto de verdade de cerveja!”, alguém deverá responder, ou então “Não vivo sem minha caipirinha sabor pêrauvamaçãsaladamista”. Certo, isso é sua opinião. A minha, é que por mais gostosa (ou por mais que tenham nos convencido que o tal sabor é bom) seja uma cerveja, ou uma caipirinha, ela jamais será tão saborosa quanto um suco de fruta natural, por exemplo. O gostoso das caipirinhas são as frutas e os açúcares. Os drinks são incrementados para se tornarem mais palatáveis, e mesmo as cervejas são elaboradas para garantir o mínimo de aceitação palativa.
Observo que grande parte dxs jovens opta por consumir bebidas com gosto das quais se pode assimilar algum sabor e ainda assim receber a dormência do álcool, como as “não-másculas” e altamente ridicularizada por machos alfa: Ices e bebidinhas doces.
Não conheço ninguém que ateste com convicção que o sabor de álcool puro seja uma delícia a não ser aqueles que de tão viciados sequer fazem esse tipo de distinção.

Logo, devemos assumir que o principal motivo pelo qual consumimos álcool não é por seu sabor: é por seu efeito entorpecente e seu status. Caso contrário, as cervejas sem álcool e sucos de uva fermentados seriam um grande hit de vendas, e não é isso que vejo nas propagandas do horário nobre.

Trampo do Iggy, que me fez repensar o que e por que eu andava engolindo essas paradas por aí.

Confesso que o entorpecimento foi o principal motivo que me levou a descontinuar a promoção de enriquecimento destas indústrias.
Quando ouço a alegação de que Viver sem beber não dá, como eu vou passar a sexta-feira sem aquela geladinha?” percebo a que ponto de dependência a/o mais típicx dx cidadã(o) chegou. Trabalhadores, estudantes, desempregados, pobres, classe-média, ricos: grandes parcelas de todas as classes sociais bebem, o que se altera são no máximo os preços das garrafas e os locais de consumo.

Beber aos finais de expediente, por exemplo, é uma maravilhosa tática de anular o descontentamento com a exploração diária e se divertir com o entorpecimento da atividade. Afinal, se sempre há um momento onde suas preocupações não existempois você sequer consegue estar consciente delas pra quê se preocupar? Pra quê lutar? Logo passa, logo esquecemos.

Existem muitos aspectos a serem explorados, desde como isso afeta grupos de acordo com a classe social (assunto que prefiro não me estender, mas pesquisas são feitas, e recomendo que caso haja interesse, você as busque) ou até o recorte de gênero existente. E por falar em gênero, aliás, me sinto na obrigação de dissertar sobre o status.

Sexismo e álcool, dupla inseparável e caso de sucesso publicitário.

A publicidade nos dá infinitos exemplos de como a equação álcool + mulher dentro dos padrões convencionais de beleza = sucesso. Um homem que não bebe será sempre taxado de “frouxo”, pois não cumpre seu papel (cambalear e ser inconveniente?) no ambiente.

Mulheres também são encorajadas a beber (mulher que não bebe é fresca, conservadora ou pouco divertida), porém em quantidades módicas, apenas o suficiente para rirem e dançarem, já que uma das utilidades do consumo alcoólico é se portar de forma que ignore as amarras sociais que nos condicionam.
Os conceitos apresentados são todos bastante heteronormativos, é claro, bem como o é a publicidade do álcool, que define e estimula novos compradores o tempo todo, e vende não apenas uma bebidinha relaxante, mas um conceito.

Desassociar o álcool e demais formas de entorpecimento toxicológico da diversão é tarefa árdua, tamanha sua construção enraizada socialmente.

Porém, sustentar um ideal de consumo intoxicante apenas para vender uma imagem moderna e descolada entre grupinhos de indivíduos não me parece mais uma perspectiva atraente.

Obrigada a todxs que participaram no processo de me descobrir lúcida, e que me abriram os olhos para o fato de que as lutas que defendo são demasiadamente intensas para serem travadas enquanto mal consigo ficar de pé.