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Menos o Krasis, que estava na suruba.

20 jan

IT’S ALIVE! O blog não morreu. Tampouco eu ou Jo deixamos de nos amar intensamente (own!).
O que há, pra variar, é que o capitalismo corporativo anda comendo nossos cus, de modo que quase não há tempo para nos dedicarmos a algo que senão ao trabalho.

Mas não vim só pra dar oi. É que hoje, sexta-feira, dia oficial de se empolgar com o oásis sexual do final de semana, mais uma polêmica chega até a interwebz. E aí, o tema que já martelava na minha cabeça por semanas, precisou se desenvolver em texto o quanto antes.

"Ah, mas no meu tempo não tinha dessas putaria não!". Aham, senta aqui.

Pelo que pude observar, uma moça participou de uma suruba. Coisa muito comum no reino animal, há mais tempo do que eu saberia precisar (abraços, literatura erótica dos séculos passados!). A novidade (?) é que as fotos do tal evento foram parar no Facebook. Não se sabe se por hackeio (bem mais provável) ou vontade própria.

Ah, mas aí é abuso demais! É contar com a sorte! Putaria já é pecado. Registrar tudo então? E a mina? Uma vagabunda! Puta! Vaca!
Obviamente, eu não entendo essa linha de raciocínio. Já dizia o velho meme: the internet is for porn.
Mesmo não gostando, ou militando contra, é difícil que alguém que nunca tenha parado pra ver (me refiro ao pornô, é claro). E se, por falta de interesse, vontade ou o que seja, você nunca contemplou conteúdo erótico/pornográfico, decerto, amigx, você é humano, e algumas vezes na sua vida, vai precisar ficar peladx.

Deixa eu te lembrar que você nasceu peladx, e, saindo de uma vagina. Não tem nada de muito etéreo nisso.
Depois, a descoberta da sexualidade, e você se tocando mesmo sem saber o que estava fazendo. A curiosidade com o próprio corpo e os alheios também não é nada incomum. Creio até que seja considerado um indicativo de saúde, mas, não vamos nos fixar ao normatismo.
Fato é que tendemos a ter contato (e muitas vezes, apreciar) a sexualidade: Não necessariamente a padrão, mas, sim, é comum que busquemos o gozo, de um jeito, ou de outro. Assexuados, suponho, provavelmente não sentirão-se contemplados no discurso, embora não haja nada de anormal nisto: estamos apenas generalizando o macro-caso.
E quanto ao caso de ficar pelado, é claro que não se trata de um ato sexualizado. É só natural, e óbvio. A nudez é o estado mais simplista da existência. Você está sem roupa, maquiagem, e não tem nem onde guardar dinheiro.

Mas, aí, se a situação – seja da nudez, ou do sexo – se torna pública, a coisa muda de figura.
O simples fato de ter uma foto sua com uma parte “pudica” exposta (pra quê pudor com algo que todxs temos em comum, é um mistério) já pode destruir toda uma vida.
Seus familiares, amigxs e chefes pensarão mil vezes antes de te levar a sério. Tal pessoa, disposta a se exTenha tanto sexo consensual quanto você estiver afim, porra!por de modo tão intenso em público, só pode ser louca, ou – na melhor das hipóteses – completamente indigna de confiança. Além, é claro, de um óbvio indício de promiscuidade: uma praga, um horror!
É possível ter a vida inteira destruída, se seus genitais forem expostos para alguém, senão seu/sua parcerix sexual, ou médico da família.

A cultura monogâmica, que soa tão absurda para a comunidade do Admirável Mundo Novo, de Huxley, parece ter enraizada em si o mesmo tipo de aversão crônica a qualquer subversão de seus princípios.

Plenamente convictos de nosso julgamento, vamos para as casas, camas, esquinas, ou computadores. Amando, ou comprando, quase todo mundo busca por sexo, indiferentemente da modalidade praticada.
A real, amigxs, é que ninguém consegue descrever o por que de tanto incômodo, e tanto julgamento, só se sabe que é errado, sujo, e vil, como um mantra que ecoa e dispara a qualquer fuga do socialmente-bem-visto.

O fato do ato sexual ser comum, não o torna menos criminalizado. A imagem de uma mulher, contemplando, gozando e se satisfazendo, tende a remeter ao ódio e a punição alheia, e veja: estamos há pelo menos algumas décadas falando sobre liberdade sexual e igualdade de gênero.
Haviam, pelo menos, mais dois ou três guris figurando a cena. Os amigos se orgulhariam. Ele meteu na mina, e isso é louvável.
Já a guria? Porra, taca bosta na Geni!

Recomendo: http://sexisnottheenemy.tumblr.com/

Mulher. Objetivo: Coroa.

26 jul

Sorria, princesa!

Incrível o status que um simples enfeite de cabeça ou uma faixa nos ombros podem carregar. Pode ser uma coroa de rainha e um cetro. Uma faixa presidencial. Uma premiação de Miss. Qual você prefere?
Desde que sou criança, convivo com a imagem de mulheres coroadas. Como nasci nos anos 90, acho que minha lembrança mais forte é a de Lady Diana. Loura, magra, branca e coroada. Nobre, cercada de luxo e detentora do status de boa samaritana. Meninas da minha geração esperavam se desenvolver nesses moldes, naturalmente.

Ainda na infância, as coroas de cristais e brilhantes das

Relaxa querida. Um dia você vai achar quem te sustente e vai sobrar bastante tempo pra se cuidar e ser linda, apesar das mulheres invejosas que querem te destruir.

princesas dos contos infantis enfatizavam a pureza caucasiana, nobre e delicada, como toda garotinha deveria ser. Mas isso nunca me remeteu ao comando de uma rainha, por exemplo. Sempre vi como a subserviência de uma princesa, no máximo.
Recordo de ver nos seriados americanos a obsessão feminina pela coroação de Rainha do Baile de Debutantes. As garotas, pelo que eu observava, resumiam sua existência ao êxito de serem coroadas na noite que perpetuaria o símbolo de popularidade superior entre os colegas de estudo.

Perto da puberdade, comecei a reparar nas Misses. Miss bairro, município, cidade, país, universo, Miss Tudo. Na televisão, corpos esculpidos no bisturi, restrição e esforço eram avaliados duramente e premiados com um desespero que parecia se afogar em lágrimas: julgo que seja um sonho conquistado, um objetivo de vida cumprido. Sempre tive a impressão de que ser coroada Miss fosse o ato supremo de aceitação, já que a meta principal de uma mulher no patriarcado capitalista é ser linda e dócil, aquele sorriso e aquele aceno seriam um passaporte para as doçuras que as demais mortais jamais sonhariam conhecer.
Suponho que a parte mais difícil seja entrar na fôrma de onde todas as Misses saem. Mesmo porte físico, mesmo cabelo, mesmos seios, barrigas, bundas, coxas, pernas, vulvas (suponho). Um instinto me leva a crer que todas cheiram á baunilha também, mesmo nos dias mais quentes (seriam compostas por látex perfumado?).

O conceito de coroar e tornar nobre – ainda que metaforicamente, claro – uma mulher de acordo com a sua beleza se expandiu de forma a dominar quase todos os âmbitos de convívio social que já percorri.
Na escola da periferia, a garota que menos parecesse ter nascido ali ganhava centenas de admiradores. Quanto mais se assemelhasse ao que aparece na TV, mais sucesso obtinha nas relações sociais.

Lembro que no ensino médio fui estudar em uma escola (também pública) no centro da cidade. Uma das Misses de lá era uma colombiana. Para quem não sabe, em São Paulo existe um preconceito terrível contra chilenos, bolivianos, paraguaios e qualquer pessoa com a pele mais avermelhada (índios inclusos) do que se espera. Mas essa garota era especial, porque seus traços eram mais finos que o tradicional, mantendo apenas os cabelos pretos e lisos e a pele avermelhada que sua genética carregou. Daí o sotaque passou a ser charme – pelo menos para ela. Outrxs imigrantes continuaram apanhando e sofrendo bullying diário por não serem brasileiros.

Nas empresas, Misses de Departamentos são avaliadas pelas costas, que é justamente o ângulo pelo qual melhor pode-se observar a bunda enclausurada nas roupas formais.
Assédio? Aceite tudo como elogio se não quiser ser demitida ou acusada de histérica-frígida.

E exércitos de Miss Empregada Doméstica, Miss Passageira do Busão, Miss Garçonete, Miss Gari, Miss Motogirl…o importante é botar a fantasia e não se parecer em nada com quem veio “de baixo”.

Sou lembrada ainda de que o consciente coletivo (e eletivo) da produção em massa de Misses ainda não acabou. Obviamente somos moldadas para crer que nosso sucesso na vida depende da aparência, de forma que nos mutilamos para caber nas fôrmas impostas e almejamos de coração um lugar no pódio da ditadura de beleza. Isso não torna mulher nenhuma burra, fútil ou ignorante. Responder ao estímulo pelo qual se foi coagida durante toda a vida não merece julgamento.

Mas sim, nós tentamos, e agora existe uma data e um motivo para brilhar, e todas as mulheres que ocupam algum espaço virtual estão convidadas!
Sobre o exaustivo discurso da liberdade corporal e sexual feminina, (emancipação através da aprovação masculina, yeeeeey!) temos o Lingerie Day.

Uma datinha marcada no calendário (28/07, se quer saber) e tudo, patrocinada por empresas, blogues e sites masculinos que te dão a chance única de viver a emoção de ser uma Miss. Você só precisa exibir fotos de si mesma usando roupa íntima e ganha inteiramente de graça tropas de punheteiros te avaliando! Não é maravilhoso? Ah, mas por favor, seja magra e convencionalmente gostosa, afinal, gordas e magrelas-secas não têm direito nenhum a essa tal “liberdade sexual” conquistada através de insultos que beiram ameaças de estupro.

Você não pode ser humana. Mas fique a vontade pra ser linda, meu bem.

Se preencher todos os requisitos, você pode até ganhar prêmios das empresas patrocinadoras, e quem sabe, um status de Miss Lingerie Day, com sua coroa virtual, indicadora de ser humano realizado, nobre, digno e completo!

Objetificação, obsessão, racismo e opressão se mesclam, mas é por uma boa razão: o que resta da vida de uma mulher se ela não for bonita? Ou a gente de repente vai ser premiada por alguma outra coisa que senão os números de uma fita métrica?
Sorria e acene.

Onívoros: A Minha Empatia Caga Na Sua.

12 jul

"Ah, você não liga". Porque a falta de empatia é muito descolada.

Se você defende alguma causa (animais não-humanos, mulheres, LGBTTT, negrxs, liberdade, fraternidade, igualdade ou o fim da ditadura do automóvel) você com certeza já foi chamadx de radical.

Não quis comer o torresmo com a galera? Xiita.

Não gosta da cruz dentro do ambiente de trabalho? Intolerante.

Acha que homofobia deveria ser crime? Tá impondo seu modo de vida pros outros, terrorista? Vá pra Cuba!

Enquanto isso, uma corrente de pensamento ganha força, especialmente no ciberespaço. Um backlash declarado e seboso. O culto de ódio à empatia.

Se posicionar contra algum tipo de exploração e abuso, ou adotar novas posturas políticas e de conduta são motivos de piada.

Legal mesmo é ser “anti-politicamente-correto” (leia-se, direitóide gorfador de opiniões conservadoras e que pretende manter seus privilégios no topo da sociedade, como sempre foi) e ofender quem dá a mínima sobre qualquer coisa. Bom mesmo é quem é macho e bate punheta com um bacon enrolado no pau, que é pra dar destaque na virilidade onívora.

Sim, prezadxs, virilidade onívora. Já repararam na quantidade massiva e crescente de canais, blogs, vídeos e artigos enaltecendo a carne como instrumento de empoderamento másculo? Não que seja novidade, Carol J. Adams já falava sobre essa relação no seu Sexual Politics of Meat: A Feminist-Vegetarian Critical Theory (Políticas Sexuais da Carne: Uma Crítica Teórica Feminista-Vegetariana) e eu não estou aqui para repetir tudo que foi dito por ela.
Dia desses estava trabalhando, quando o meu digníssimo me manda um vídeo de fazer retornar ao colo a refeição ingerida a pouco.

O título da belezinha é “Carnívoros Song” , e claro que é um ode a todos os grandes clichêZZzzzzZZZzzs anti-veganos. O autor é um macho branco classe média revoltz pra caralho. Ele não liga pra nada, ele não tem empatia, “ele come picanha porque acha bom”, e não tá nem aí! Não é empolgante?

Não é porque eu sou um homem branco que eu tenho privilégios, ora essa!

Na letra, temos maravilhas como “quem não gosta de chuleta não deve gostar de buceta”, “enfia o seu hommus bem no meio do rabo” e claro “minha comida caga na sua”, a máxima preferida de 9 entre 10 pessoas que tem orgulho de comer coisas que cagam – e também fazem tanta noção dos meios de produção do seu “alimento” que possuem convicção na teoria de que o pasto e a horta são a mesma coisa, confinamento de animais não existe, e os bois na verdade cagam nas alfaces. Oi?.

 Seria apenas mais um grande “ZZzzZZZz” reacionário da Interwebz, mas o que incomoda são os seguidores. Legiões de desinformadxs aplaudem o discurso de ódio e apatia pregado. É muito descolado ser macho, tr00hardcore e entupir as artérias de bacon, porque animais são burros e feitos pra nos servir. Nós sim somos superiores, e é nosso direito explorá-los até o tutano.

Sabe, na história a gente já viu muito esse discurso. “Preto não tem alma, então vamos explorar para o nosso benefício”. “Mulheres são irracionais e histéricas, logo só podem ter utilidade enquanto nos servem”. “Homossexuais são anti-naturais, vamos queimá-lxs e estuprá-lxs”.
Eu realmente não vejo diferença nenhuma. Quando você incentiva o consumo de derivados de exploração, está defendendo a tortura, exploração, humilhação, privação, estupro  e morte de bilhares de vidas.

Homofobia e misoginia são mascaradas pelo sagrado humor, então nada pode ser questionado. Nos primeiros cinqüenta segundos de um outro vídeo – também com a participação do indivíduo citado anteriormente – vemos uma pilha de carne de embrulhar o estômago. Uma voz máscula sugere “tratar a carne como trata a sua noiva”, e segue golpeando com socos o montinho de matéria morta.

Que engraçado. Enquanto mulheres e homossexuais morrem diariamente graças a esse tipo de cultura e bilhões de animais são torturados até o fim para engordar o colesterol do sangue humano, eu sou obrigada a rir de quem incentiva isso, senão a problemática serei eu.

Tá certinho! Bebe ae!

Empatia é a capacidade de solidarizar com aquele que não você. A compaixão de não desejar sofrimento e tortura para seres sencientes, humanos ou não. A vontade de transformar o mundo em um ambiente melhor em todos os aspectos possíveis é de intrínseca relação com a solidariedade.
Tais sentimentos são menosprezados por quem escolhe se trancar em um carro, entupir o mundo de monóxido de carbono e congestionamento, suas artérias com gordura animal, ignorar as lutas daqueles que são historicamente oprimidos e se isolar em seus privilégios. Chamar a todxs aquelxs que apresentam alternativas de vida positivas de “chatos, broxas e radicais” é muito cômodo para quem não quer perder seu topo na “cadeia alimentar”. Para essa gente que usa ambientes como a selva, o sertão e a miséria como justificativa para seus hábitos alimentares de supermercado e condomínio de luxo, a vida anda muito fácil e engraçadinha, e toda essa militância é um grande e chato exagero.

Incrível perceber a reação violenta dessas pessoas quando diante do discurso vegetariano. Se sentem ameaçadas, apesar de serem as maiorias no mundo, e vêem uma necessidade épica de confronto e ridicularização, já que são incapazes de compreender uma luta por aqueles que não podem se defender.

 Entristece saber também que mesmo x mais engajadx de determinado movimento possa não enxergar a relação entre sexismo, racismo, especismo e homofobia. Ou então perdoar determinadas condutas. Por exemplo, não admitimos racismo, mas toleramos xs milhares de especistas com quem convivemos.
E meu ponto não é dizer que militantes da causa animal sejam perfeitos, pois não são. Conheço boas dezenas de veg’s sexistas e homofóbicos. E isso me incomoda. Incomoda relativizar e menosprezar as lutas dos movimentos só porque você “não liga”, porque “tem coisa mais importante” pra se preocupar enquanto vidas são ceifadas.
Porém, de todas as formas de opressão e violência, a mais relativizada ainda é a cometida contra os não-humanos.
Abandonar uma criança é de infinita importância, porém abandonar ou matar ninhadas inteiras de filhotes é só um ato.

Fazer piada com o sofrimento de uma vaca é um clássico, assim como comparar o Reino animalia com o Reino plantae, jurando que são todos iguais, e que os “ecochatos” estão errados.

A vida humana é sempre infinitamente valorizada, sobretudo se for uma vida branca, masculina, bem sucedida financeiramente, heterossexual, cristã, onívora e motorizada. Essa é a vida com maior poder de consumo, de giro de capital. O resto? O resto é produto, prezadxs, usem como quiserem. Quando cansarem, joguem fora no lixo orgânico.

O que tem no seu leite, além de estupro e sofrimento? Pûs, colesterol, hormônios...

Se quer se informar mais sobre os muitos mitos anti-veganos, ou para parar de emitir opiniões que fariam corar de vergonha a uma criança de quatro anos de idade, recomendo os seguintes artigos:

F.A.Q Vegan.

Não Quero ser Uma Ativista Limpinha e Cheirosa, guest-post também da Deborah, na Lola

Documentário Terráqueos. A verdade documentada sobre as indústrias da exploração animal.

Deu fome? Não tá afim de beber pus com antibiótico e comer sangue? Vem!

Entenda mais sobre Creofilia e Sociopatia.

Querem Atropelar Minha Paixão.

13 jun

No ano passado, eu participei de um evento que unia hardcore, SxE e veganismo, a Verdurada de São Paulo. Fui pela comida, pela música e pelos amigos, e qual foi a minha felicidade quando soube que uma das próximas atrações seria um grupo de mulheres (exclusivamente mulheres!) ciclistas.

Precisamos começar a usar essas plaquinhas...

Minha relação com o ciclismo começou muitos anos atrás. Meus pais me deram a primeira bicicleta com sei lá…7, 8 anos. Na periferia, todas as crianças brincavam na rua, andavam de bicicleta e disputavam corrida. Eu, perdedora desde o útero, quase nunca interagi, e fui tentar pedalar numa idade considerada ultrapassada por elas.

Quando desci para a rua, lembro da visão das mães das crianças se esgueirando pelas portas e comentando com o meu pai ou uma tia que tentavam me ensinar “Mas minha nossa, ela tá com quantos anos? A minha filha aprendeu com cinco!”. Numa dessas tardes de treino, eu ousei uma tímida curva. Caí. Haviam crianças presentes. Elas riram por um tempo que, hoje, pra mim, parecem horas.

Desisti. Já me chegava o bullying, as surras e os xingamentos que ouvia na escola. Não precisava ser ridicularizada também na minha própria rua.

Dez ou onze anos depois, eu estava lá na Verdurada, vendo aquelas moças lindas falarem sobre autonomia, liberdade, sustentabilidade e superação.

Elas eram as Pedalinas, e eu era tímida e traumatizada. Quando elas terminaram de falar, eu me levantei e perguntei se havia alguma chance de elas ensinarem alguém a pedalar, mesmo depois de “crescida”. “Claro que sim, vamos programar isso aí!”.

Eu me empolguei, e elas cumpriram com a promessa.

Dia 7 de Maio de 2011, eu me encontrei com elas na Praça do Ciclista, próxima da Avenida Paulista.  Aprendi sobre a relação entre ciclismo e feminismo. A autonomia que esse meio de transporte deu às mulheres muitas gerações atrás de mim.

Eu jamais imaginaria que não era permitido que mulheres pedalassem. As justificativas eram infinitas: “É coisa de homem, viril demais”, “A saúde delas é frágil, não aguentaria”, ou até “O sangue agitado pelo exercício as deixaria com traços masculinos!”. Depois, fui saber dos obstáculos que existem até hoje. O assédio, comum a nós mulheres pedestres, toma níveis ainda mais desprezíveis quando estamos na posição de pedalada. 
Isso sem mencionar, é claro, a sensação de ser engolida por um estouro de boiada mecânica, composta por toneladas de aço e fumaça que compõem a experiência de pedalar por São Paulo.

Naquele 7 de Maio, a minha professora foi a Jeanne, alguém que vai carregar minha eterna gratidão por ter me ensinado algo que me mudou tanto. Ela correu, me equilibrou, e do nada, eu senti vontade de falar aquele “Pode soltar!” que as crianças de poucos anos dizem aos seus pais. E ela soltou. E eu deslizei.

Segundo maior amor da minha vida. ❤

Comecei a acompanhar as Pedalindas em todas as voltas. No meu aniversário, ganhei uma Blitz Fast linda e amável do meu companheiro, que agora é companheiro também de pedaladas. Subi a Augusta com a Carina, corri pela Paulista com a Bia, desci a Consolação com o meu querido, pegamos a Vergueiro, Liberdade, Ipiranga, Ibirapuera…ganhei um mundo novo.

Como eu avisei no último post, Jo e eu estamos correndo muito (infelizmente não é sempre de bike, a maior correria é de segunda a sexta, tem horário pra começar mas não tem hora pra acabar, e está localizada dentro de cubos cinzas chamados ‘escritórios’), mas sempre que temos um tempinho, tentamos nadar, pedalar, ver uma peça ou algo que nos faça ganhar o dia além da companhia um do outro. Nesse último domingo, fomos ao PicNic Pelo Mesmo Amor, no Parque do Ibirapuera. Em meio a amor, bandeiras coloridas, e comida vegana, pedalamos muito.

Estradinhas do Parque, muito amor.

Na segunda-feira, pela manhã, ainda em êxtase pelo maravilhoso final de semana, recebi uma notícia capaz de azedar qualquer dia.

Um ciclista de 68 anos foi atropelado, e assassinado morto na Av. Sumaré. Ele era experiente, costumava fazer cicloviagens, trajava capacete e possuía 15 bicicletas. Uma delas, agora será uma Ghost Bike.
Quando eu aprendi a andar de bici, deixei claro: meu objetivo era e ainda é abandonar o transporte coletivo na medida do possível, e usá-la como principal meio de transporte.
Meu caminho para o serviço é bastante complicado, cheio de grandes avenidas e stress. A vantagem é que com a bici eu posso escolher ruas menos motorizadas e mais tranquilas. Porém, como ainda sou bastante iniciante não me arrisco. Já pedalei pela rua algumas vezes e sei o quanto, mesmo sinalizando, alguns maus motoristas parecem ter prazer em passar “lambendo” por você.  

Creiam-me, qualquer pedalante urbano tem o dever (normalmente muito bem cumprido) de saber se fazer visível às boiadas metálicas, sinalizar caso vá mudar de rumo, priorizar o pedestre e passar uma boa imagem, a de que :“você não precisa dessa tonelada de aço poluente e congestionante pra ser feliz. Na verdade, nós estamos até andando mais rápido que os carros, viu? *trim trim!* faz a buzininha, e o sorriso no rosto decola!”

Respeite.

Por frustração contida ou desinformação, muitos motoristas dirigem agressivamente, e não respeitam a distância de 1,5 metro estipulada no Código Brasileiro de Trânsito para que a ultrapassagem seja feita. De tombos a mortes, ciclistas sofrem agressões diárias. Quando se é mulher, ainda tem o assédio.
Isso gera medo e estimula mais ainda a cultura que mais afunda a cidade: a Motorcracia.

Propagandas de veículos motorizados sob a voz suave de um narrador te dizem o quanto é másculo, sensual e viril correr por uma pista vazia em meio a campos de milho. Cidades normalmente não são assim (garanto que a Avenida Sumaré não é). Ou então, um chefe grita com seu motoboy ou caminhoneiro, para que cumpra prazos absurdos num local de tráfego tão intenso. Todos correm, se atropelam, se fecham, brigam e disputam uma vaga perto do próximo sinal vermelho, ou do estacionamento superlotado.
O senhor de 68 anos que se atreveu a não entrar nessa disputa enlouquecida perdeu sua vida hoje.
Márcia Regina de Andrade Prado  também, e eu não quero nem lembrar do que aconteceu em Porto Alegre.

Quando eu afirmo  que quero andar de bici para todos os lugares, muitxs me lembram que eu posso ser a próxima. Se quero sair a noite, me lembram que posso ser assaltada. Se meu short está mais curto, avisam que eu posso ser estuprada.
Essa cultura do “não seja atropelado”, “não seja roubado”, “não seja estuprada”, “não dê mole!” já não me convence.
Lutarei e me unirei a todos os grupos que promovem a ética, a paz e por que não o amor (menos motor!) sem a menor vergonha de ser chamada de radical ou bicho grilo.
A minha luta é todo o dia. Pelo fim do patriarcado, do Estado dominador, da Motorcracia, do ódio, do racismo. Não nos silenciarão. Seu medo não atropela nossa paixão. 

Foto por Elaine Campos


Adendo:
eu vi a Slutwalk de perto, pois o passeio mensal das Pedalinas ocorreu no mesmo local e hora. Fico feliz que a execução tenha mais foco na luta feminista do que na Testeronísse pregada por idealizadoras do evento. Tenho cansaço, preguiça e pressa demais para responder a todos os comentários me chamando de retrógadaconservadorafrígida, mas agradeço a divulgação da idéia inicial de qualquer forma.
Sigamos em luta.

Pro-Vida? De Quem?

27 abr

Nesta tarde, tive uma notícia extremamente desagradável. O projeto de descriminalização do aborto foi arquivado, e a “Frente em Defesa da Vida – Contra o Aborto” comemorou.

Claro que eu quase morri de tanto desgosto. Mais uma vez, uma massa estúpida ordenou o que eu devo ou não fazer com o meu corpo. Nisso, quis saber de imediato quem, além do DeputadO Salvador Zimbaldi (PDT-SP) participava desse lixo de “Frente”, e quais eram seus objetivos.

Republicanos vão proteger seus direitos se você for: ( ) uma mulher ( ) um professor ( ) glbt ( ) imigrante ( x ) um feto.

Achei uma carta a respeito do Primeiro Seminário Nacional em Defesa da “Vida”. Vou resumir algumas das melhores metas do evento pra vocês, porque vale muito a pena:

 8.1. Formular cartas e documentos, em linguagem popular, para distribuição nas igrejas e como subsídio para os professores nas escolas;

8.2. Incluir, nos programas de catequese de Crisma da Igreja Católica, de palestras sobre reprodução humana e direito à vida;

8.5. A Frente Parlamentar em Defesa da Vida deverá fomentar a produção de vinhetas e programas para as emissoras de rádio etc., educando e difundindo as razões em prol da vida;

8.6. Levantar fundos nas Dioceses, Igrejas Evangélicas, Centros Espíritas etc., para possibilitar a vinda de caravanas a Brasília, em momentos em que se fizer necessária a pressão social sobre o Congresso Nacional;

8.7. Enviar emails, cartas etc. às lideranças dos partidos, exigindo delas um posicionamento público sobre o aborto;

A carta inteira vocês conferem no link, se ainda tiverem forças suficientes para ler tamanha ofensa.

O mais chocante é que esse movimento de cunho extremamente religioso e que fere brutalmente o estado laico tenha como presidenta uma professora no Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília, Lenise Garcia.

Uma mulher. Com conhecimentos não só fundamentados em religião. E que mesmo assim, não possui a menor empatia pelas demais ou sequer reconhece seus privilégios sociais.

Basta de rosários nos nossos ovários.

É fato que apesar de ilegal (exceto em casos de estupro ou em que a mãe corra risco de vida) as estimativas do Ministério da Saúde apontam a ocorrência entre 729 mil e 1,25 milhão de abortos feitos por ano no país, embora essa estimativa seja altamente especulativa, pois os abortos são clandestinos, e há divergência com diversas outras fontes não-governamentais, que estimam números entre 500 mil e 800 mil.

O que fazer com estas mulheres, que, cada uma por seu motivo, precisou interromper a gravidez? Para a Dra. Lenise, o Senador Zimbaldi e o movimento pró-vida, a solução é fácil: marginalizar e jogar em uma cadeia.

Mas se mesmo sob esse risco penal o aborto continua acontecendo, quais são as conseqüências para as que não são pegas pelo sistema judiciário? Morte. Infertilidade. Lesões. Infecções…

Em 2008, só no Estado do Rio de Janeiro, somaram-se 15.868 internações motivadas por aborto inseguro – a terceira causa de morte materna.

Ainda assim, a defesa da “vida” é suprema, e seu direito a ela precisa ser garantido. Mas…qual vida mesmo? Aquele amontoado de células que até a 24ª semana não é capaz de sentir dor? Ou aquela já formada, em más condições emocionais, financeiras e psicológicas, que engravidou por falha ou mal uso dos métodos contraceptivos? Talvez possamos considerar também aquela vida animal que alimenta tantos pró-vidas comedores de cadáveres. Esses animais, por sua vez, eram conscientes, ativos, e se tornaram assustados, acuados e mortos. Agora jazem em pratos de jantar.

Mas opa, como assim comparar a vida de um bicho com a vida de um feto humano?

Ah sim, como eu ouso comparar dois animais [1] e duas formas de vida diferentes, que absurdo!

Vida é vida. Ponto.

Vocês já viram um cachorro ou gato assustados? Com dor? Felizes?

Qualquer um que já tenha convivido com algum animal doméstico não pode negar que sim, eles possuem feições e comportamentos que denotam sentimentos. Também possuem sistema nervoso central. Ou seja, podem sentir dor.

Portanto, quando você mata um bovino, – que também é um animal, e que também tem sistema nervoso central – ele sente dor. E também se sente assustado. Duvida? Assista no documentário Terráqueos e veja como se comportam os animais “de abate” no corredor da morte.

O que vacas e fetos têm em comum? São organismos. São seres vivos.

A vaca, tem uma vida formada. Ela come, caga, respira, sente medo, sente dor devida a sua complexidade neural desenvolvida, tem instintos de sobrevivência, é torturada diariamente nos abatedouros, estuprada [2], e por fim, abatida. E vem acompanhada de molhos no seu jantar.

Um feto, é similar a um parasita. É um organismo, é claro, um amontoado de células vivas (e não um bebê ou uma criança), mas depende de seu hospedeiro pra viver até que esteja “maduro” o suficiente para poder viver “sozinho”. Antes disso, ele continuará sendo um organismo. Um organismo que até as 24 semanas de vida não é capaz de cagar, respirar, sentir medo ou sentir dor, e que depende de seu hospedeiro para comer e sobreviver.

O seu hospedeiro, por sua vez, é uma mulher. Sempre.

Pode ser negra, parda, amarela, vermelha, branca, pobre, rica, doente, saudável, capaz emocionalmente e psicologicamente de criar uma criança…ou não. Mas nada disso importa, o que importa é que ela ponha esta cria no mundo, independente de suas condições. Pode estar deprimida, pensando em suicídio, abandonada pela família e parceiro (afinal, parece que as mulheres engravidam sozinhas sempre, já que a “culpa” por ter engravidado é sempre DELAS, jamais do fertilizador e sua ausência de preservativo ou mau uso do mesmo).

Ela precisa parir e ser punida por isso. Precisa ouvir que “na hora de fazer foi bom, então não reclama” quando tiver suas contrações. Precisa carregar a trancos e barrancos uma vida indesejada e não planejada. É sua punição, e não sua benção. Ela não escolhe isso, mas não há escolha alguma. Era a cadeia e tortura ou a prisão perpétua de se amarrar a uma vida indesejada.

Nada disso é regra, e uma mulher pode mudar de opinião quando parir sua cria. Ou pode decidir jogá-la em um lixão e tirar sua própria vida.

São infinitas possibilidades, e ninguém consegue intervir em todas elas, a não ser a hospedeira desta vida.

A situação emocional, financeira e psicológica varia imensamente de caso para caso, porém, nada disso importa. A não ser que foi o caso de estupro, ou se você pode morrer.

Pergunto-me se os frutos de um estupro são menos “vida” do que os demais? Por que então esses são permitidos? Pela obviedade das seqüelas emocionais que isso causaria a mãe? Concordo! Mas, oras, só esse viés causa seqüela emocional? Que tipo de critério é este?

E quanto às outras vidas animais exterminadas aos montes diariamente ao redor do mundo todo? Por que essas vidas valem tão menos, apesar da dor sentida em escala muito maior?

Por que a religião ainda pauta a ética, e por que pessoas que jamais ficarão grávidas pautam o direito sobre o corpo de terceiras?

77% dos líderes anti-aborto são homens. 100% deles jamais ficarão grávidos.

Por que mulheres ricas têm acesso a clínicas de aborto de nível hospitalar satisfatório, e mulheres negras e pobres morrem em decorrência da clandestinidade do processo?

Por que fecham-se olhos, como se o fato de proibir algo extinguisse sua prática?

Por que você manda no meu útero?

Por que você decide quem vive, quem morre, quem serve pra comer, quem serve pra defender, quem precisa ser punido…e no final, nunca adotou ou salvou vida nenhuma?

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[1] Classificação taxonômica do gado: Reino: Animalia, Filo: Chordata, Classe: Mammalia, Ordem: Artiodactyla, Família: Bovidae, Subfamília: Bovinae.

Classificação taxonômica humana: Reino: Animalia, Filo: Chordata, Classe: Mammalia, Ordem: Primata, Família: Hominidae, Género: Homo, Espécie: Homo sapiens, Subespécie: Homo sapiens sapiens.

Não me venha dizer que somos completamente diferentes.

 

[2] Parece óbvio, mas nem todo mundo está ciente de que vacas só dão leite quando estão prenhas, assim como qualquer mamífero. E, assim como todo mamífero, elas não estão o tempo todo grávidas. Bom…pelo menos não na natureza. Na indústria do leite e da carne, bovinos fêmeas são constantemente emprenhados para permanecerem o máximo de tempo possível produzindo leite. No processo de inseminação artificial elas resistem, se debatem e rejeitam o quanto for possível a inserção deste material em seus corpos. Mas obviamente são vencidas graças à força exercida para mantê-las passivas em cubículos inibidores de movimentos. Se isto não é um estupro, eu não sei o que é um. Novamente, se não acredita, sugiro que veja o documentário citado mais cedo neste mesmo post.

Ps: Para os que acham que mulheres considerariam aborto um método contraceptivo, e que caso fosse legalizado teriamos um viral de fetos sendo jogados por latrinas: pesquisem sobre os dados pré e pós Legalização em Portugal, e comprovem por si mesmos a evolução na saúde pública da mulher, e o quanto esse mito é infundado.

O Mito do Feminismo Conveniente e as Cômicas Piadas de Estupro.

18 abr

“É muito fácil ser feminista na hora de chegar no cara na balada e ser machista na hora de pagar a conta.”

Essa frase foi retirada da descrição de um dos vídeos mais asquerosos que eu já vi na minha vida inteira. ( não recomendo assistir se estiver almoçando, ou se tiver o mínimo apreço pela integridade da sua mucosa estomacal). O escolhi para começar o post porque já resume bem em alguns minutos o universo de quem a-do-ra opinar acerca de um movimento social sobre o qual desconhece em absoluto (se é o seu caso – assim como é o da autora do vídeo – recomendo fortemente que leia isso, talvez algum livro feminista, ou pelo menos CONHEÇA alguma militante do movimento antes de basear todo e completamente cada um dos seus argumentos em “Vai dizer que você não / Aposto que vocês blablablá”).

Pra ser sincera, uma leve busca na Wikipédia já faria você parecer bem menos ignorante.

"Olha gatinha, eu não dou a mínima pra o que você pensa. Se eu digo que eu sou um feminista então POR DEUS, EU SOU UM!"

Ainda acha que está com a razão, que tudo é uma grande piada (cordei kd graça)  e que feministas são esquizofrênicas? Então vamos lá, com a definição resumida de “O que é um Machista”, via Clube do Macho. Vou deixar tudo sic, como na original:

 “Acima de tudo, ser machista significa que você não faz coisas q considera atitudes ou atribuições de heteroboiolas (Segundos os mesmos, isso seria um homem hétero com atribuições “delicadas”, já que, como é comprovado cientificamente, um homem que cruza as pernas ao sentar e não fala gritando como um mamute no cio vai pro inferno) e de mulheres. Apenas isso! (sim, apenas isso. Apenas subjugar e explorar as classes “inferiores” – homens homossexuais e mulheres – o que tem de errado nisso?!)

O machista acha que lugar de mulher é na cozinha, lavando, passando, limpando etc. Pq? Simplesmente pq ele não faria isso, mesmo morando sozinho! Se ele não faz isso, quem vai fazer??? (me pergunto se eles já aprenderam a limpar a própria bunda.) Ou a esposa do cara ou a empregada doméstica dele. E feministas, acreditem, essas duas figuras não precisam ser necessariamente a mesma pessoa! Não é incrível??!?!Claro! Mais incrível ainda é que você acredite que sua esposa ou qualquer outra mulher sejam responsáveis por limpar a sua merda, e não você! Mas não que nada disso esteja relacionado a gênero, IMAGINA.

Eles só crêem que homens precisam ser estúpidos, violentos, enfim, inumanos…os que não são assim são fracos, “boiolas” (nãão que isso tenha algo a ver com homofobia, jamais!) e que a obrigação de limpar a bunda peluda alheia pertença a outras mulheres: como mães, esposas, e/ou empregadas. Mas repito: nada a ver com dicotomia de gênero, homofobia ou sexismo.

Qualquer semelhança entre este raciocínio e o do “Homem incompetente VS. A eterna mãe” (sobre o qual a Lola retratou belissimamente nesse post sobre a nova e escrotíssima campanha da Bombril) não é mera coincidência.

Imagem de macho ideal segundo o Clube do Macho. Opa, piercing igual o meu. Significa?

Eu poderia rebater cada parágrafo desse amontoado fecal do Clube do Macho, mas vou me restringir a apenas mais um parágrafo, que é onde mais uma vez eles ensinam com o que a gente deve ou não se importar, como deve ou não agir e etc.:

 “Se um machista diz “que mulher só serve para cozinhar” e ela fica PUTA com isso, é porque ela ACREDITA que aquilo tenha um fundo de verdade. E acha um absurdo que isso seja a realidade.

Pois é, e se alguém alegar para umx negrx que elx só serve pra ficar na senzala, elx provavelmente vai ficar ofendidx. E isso não significa que elx concorda com isso. Significa que você tá falando bosta.

Se você disser para umx judeu que elx deveria ser queimado num forninho a lenha nazista, x mesmx tampouco dará risada e interpretará como uma brincadeira, mesmo que elx seja “superior” a isso. Há uma grande possibilidade de que talvez os seus antepassados tenham sido, de fato, queimados e torturados alguns anos atrás, precisamente por serem judeus.

O mesmo se repete com as mulheres, e qualquer outra classe que tenha sido (e/ou ainda é) prejudicada ao longo de tantas eras.

Não dá pra rir quando eles defendem o uso de “porrada” pra levar alguma fêmea para o “abate”, quando você conhece tantas mulheres que foram estupradas, espancadas e/ou mortas para o mesmo objetivo.

Este cômodo está cheio de pessoas que acham que você é engraçado.

Assim como em plena Virada Cultural (um evento enorme que ocorre uma vez por ano em São Paulo para uma platéia imensa) ouvir piadas do tipo “Daí ela pediu pra eu bater nela e chamar de puta. Eu falei “opa, jamais”, mas ela insistiu, gente, eu juro! – risos gerais – . Como ela pediu muito, eu bati né. Tá desmaiada até hoje, tadinha – risos gerais –“ [1] sendo que eu conheço mulheres próximas a mim que apanharam durante anos do marido, a ponto de perder o bebê que carregavam, ou desenvolverem distúrbios psicológicos graves e internarem-se em hospícios. Não tem a menor graça.

Nesse mesmo evento (Virada), soube de pérolas como “depois que inventaram o mertiolate que não arde, surgiu um monte de veadinho”. O que também não me causou risos. Primeiro porque não é o ardor de um ralado no joelho que transforma alguém em heterossexual. Segundo, que o fato de tantxs homossexuais morrerem e apanharem diariamente só por sua orientação sexual me causa pouca vontade de gargalhar.

Ainda tive que conviver com o fato de que neste mês, a Sexy – revista masculina que promove estereótipos e objetificação da beleza feminina, etiqueta comportamental para ambos os gêneros e enfim…mais um desses manuais vendidos as pencas para formar indivíduos alienados – com ampla distribuição, publicou uma matéria do colunista e famoso blogueiro Edu Testosterona, que tem como único objetivo (de vida?) esculachar o movimento feminista. [2]

Porque afinal, depois de dar duro o dia inteiro no trabalho, o maridão merece mesmo uma refeição quente!

Através de argumentos muito bem fundamentados e de profunda originalidade, como “Querem ter direitos, mas não querem deveres!” e “Por que vocês não lutam pro Alistamento Militar ser obrigatório para ambos os sexos?”, Edu invoca todos os Grandes Argumentos Anti-Feministas usados desde que a humanidade percebeu o potencial revolucionário do movimento. Afinal, se estiverem todas nas ruas, quem limpará nossa cozinha? Já sei! Vamos chamá-las de feias (afinal, somos LINDOS! e tudo que mais importa para o sucesso de uma mulher é a sua beleza!) e mau comidas, alegando em seguida que o único jeito delas serem legais e superiores seria…bem…limpando nossa bunda, chupando nosso pau e cortando o próprio torso para enfiar próteses de silicone cada vez maiores!

Parece pavoroso para os masculinistas que o movimento feminista não se resuma a lutar por eles.

Mas olha, vou confessar uma coisinha entre dentes muito assustadora: a gente luta por direitos masculinos, sim. CALMA. RESPIRA. Já tá acabando!:

Sabe a Licença Paternidade?Pois é, feministas são a favor de licença paternidade de tempo equivalente a maternal. Chocante, eu suponho.

Nós também não gostamos e não apoiamos, por exemplo, que vocês precisem ser machos caricatos, que não choram, não amam, não sentem e vivem a vida em “stand by”, como um amontoado de minerais desgastados pelo vento.

Quanto ao alistamento: jura MESMO que vocês acham que o problema é as MULHERES não se alistarem obrigatoriamente? Eu, assim como (suponho) qualquer anarco-feminista e tantas outras pessoas, sou contra o alistamento obrigatório, independente de gênero. Considero-o uma obrigatoriedade que viola as vontades e perspectivas de vida do ser humano, ignorando seus reais desejos, e usando-o, literalmente, como um soldadinho de chumbo para as vontades do governante superior.
Convenhamos que as nossas guerras não são motivadas por revoluções benéficas para todos. Aliás, se fossem, o alistamento não seria um problema para muitos de nós, que voluntariamente batalharíamos para um mundo mais justo.
Portanto, a obrigatoriedade em si já é algo condenável.

A solução para os problemas do mundo: mais mulheres no exército. Oi?


As mulheres não são utilizadas mandatoriamente como massa para essa manobra justamente por um conceito sexista: sexo frágil.
Para muitos, uma mulher não tem a mesma capacidade física de um homem, não importa o quão bem treinada ela seja. Portanto, ela é supostamente um peso morto no batalhão.
Uma outra observação: em guerras e ocupações (onde matam-se os homens e estupram-se as mulheres, como já foi feito tantas vezes na história), as mulheres são utilizadas como máquina reprodutiva e/ou exemplo de dominância por parte de quem ocupou o território. Portanto, não há benefício em tê-las na linha de frente, mas sim assustadas e violentadas.

Temos que considerar ainda que masculinistas e anti-feministas de forma geral, possuem essa crença absurda de que o feminismo domina o mundo, e que se as coisas estão do jeito que estão, a culpa é nossa. Um exemplo claro é cobrarem de nós o fato do alistamento obrigatório ser exclusivamente masculino, como se imediatamente compactuassemos com isso e tivéssemos o poder para mudá-lo a qualquer minuto, e não o fizéssemos por falta de vontade.

Outra dúvida que também não cala na minha mente é: quem são essas tais feministas a quem eles se referem? Quem são essas que militam pela libertação da mulher, mas querem que paguem a conta por elas? A sério, nunca conheci NENHUMA militante esclarecida que agisse dessa forma. E olha que eu conheço muitas.

Repito aqui o que disse ali em cima sobre o Clube do Macho: poderia ficar dias, semanas e meses rebatendo um por um de todos esses gorfos. Mas, como eu tenho muito, mas muito mais pra fazer do que ficar debatendo argumentos com quem senta o rabo em cima de seus privilégios e resolve que a meta de sua vida será esculachar um movimento que luta pela libertação dos indivíduos da doentia estrutura patriarcal, eu prefiro ir viver a minha vida.

Perdi muito tempo escrevendo isso aqui pra esses masculinistas de merda. Vão me fazer um sanduíche de tofu, desgraça. (Trolls me chamando de feminazi em 3...2...)

Inclusive, estou considerando escrever um post sobre sei lá, teatro albanês, física quântica, astronomia ou qualquer coisa da qual eu não faça a menor idéia. Pelo visto, dá pra ficar rica assim!

[1] Sobre a piada na Virada Cultural: eu e Jo ouvimos estes e outros absurdos, por volta das 14:30/15:00 de domingo, na região do Parque do Anhangabaú. Não sabemos ao certo o nome do palhaço, porque batemos em retirada assim que começou o festival de diarréia.

A piada homofóbica foi mencionada por muitxs outrxs presentes, mas eu não estava no momento e não sei precisar, tampouco, quem foi o autor desta belezinha.

[2] Não tenho link da tal coluna pois ainda não disponibilizaram online. Assim que rolar, posto aqui pra vocês gorfarem também. Pretendo elaborar um e-mail para a editora, já que é de extrema falta de responsabilidade publicar conteúdo de ódio e difamação irreal, ainda que sob a alegação de não-responsabilidade acerca do conteúdo criado pelos colunistas.

Não linko o site do tal indivíduo porque não me convém. Abrir aquela página me dá náuseas. Google it.

Besouro Verde, absurdos que a gente assiste, lê e vive.

24 fev
Hoje foi um dia difícil, como os dias são às vezes, especialmente nas últimas semanas (por diversos motivos pessoais). Meu nível de stress estava nas alturas, minha imunidade foi pra manga, fiquei doente e minha vontade de escrever tinha sumido completamente, junto com a vontade de viver, acordar, etc.

Já que o fluxo no meu serviço estava tranquilo, resolvi ler para passar o tempo. E como acontece com certa frequência na minha vida, trombei com dois textos de dar arrepios. (aqui e aqui)

Um separa as mulheres entre putas, putas interesseiras, velhas-ressecadas, infanto-fetiches e etc. de forma a ajudar você, homem, a escolher qual a mais adequada, no melhor estilo self-service.

O outro, é uma carta escrita por uma mulher de bem, defensora da Família, Tradição & Propriedade, que culpa o feminismo pelo extermínio de tudo que há de bom no mundo, em especial o fim (?!) da família nuclear, uma geração de mulheres infelizes e mau-trepadas e “BLABLABLÁ os homens é que são vítimas, pobres deles, suas feminazis cruéis, por isso que eu sou feliz com meu marido, ahá” (sim, lésbicas do meu Brasil, a autora não sabe nem que vocês existem.  A única saída para a felicidade é viver realizando e defendendo um macho. E se ele te espancar, acredite que não tem nada a ver com o fato de você ter uma vagina).

Lembrem-se: admirar sempre! Questionar nunca!

Ambos recebendo cotas (absurdas) de aprovação entre o público leitor.

Você já deve ter concluído que meu dia estava foda de aguentar. E estava, deveras. Difícil também estava o dia do meu companheiro, que em outro canto da cidade, era sobrecarregado durante o seu expediente.

Normalmente, ele e eu saímos do serviço e vamos pra a academia -descarregar um pouco do ódio- para não perder totalmente o nosso ritmo de ex-alunos-de-kung-fu (ele, uma mistura doida de Punhos do Norte + Jeet Kune Do, eu, Wing Chun), já que não é mais possível treinar devido ao nosso confinamento em escritórios por 9 horas diárias (sem contar as horas no transporte público).

Normalmente.

Mas o nível de stress do dia pedia algo mais banal. Após algumas sugestões declinadas devido ao trânsito de São Paulo, – que requer horas para se deslocar até dentro da sua própria casa após às 18:00h – decidimos ver algo que já pretendíamos, e estava passando num cinema perto da minha casa:  Besouro Verde.

Pra quem não é familiarizado, aqui vão palavras da Wikipedia: “O Besouro Verde (The Green Hornet, no original) é um famoso herói fictício do rádio, cinema e televisão. Trata-se de Britt Reid, milionário dono do jornal O Sentinela Diária que se transforma num vingador encapotado no estilo do Sombra. Ele é ajudado por Kato, seu mordomo de origem oriental mestre em artes marciais.”

Mas o que mais me fez querer assistir O Besouro, é que, como eu mencionei ali atrás, eu era praticante de Wing Chun. Então, normalmente filmes que envolvem artes marciais me atraem. Também ajuda o fato de que Bruce Lee era quem interpretava o personagem Kato na série, em alguma parte dos anos 80. Some ainda que eu sempre curti HQ’s, e filmes com essa tendência também têm apelo sobre mim…

Nada mais justo do que assistí-lo!

Corremos e chegamos ao fim dos trailers.

Cerca de 20 minutos depois, eu suspirava, bufava, me desesperava, e cutucava meu querido alegando que queria demais ver o merda do Britt, personagem principal, O Besouro Verde, tomando a surra do século (e preferencialmente, entrar em óbito após o espancamento).

Britt é a caricatura do masculinista asqueroso que eu mencionei no meu primeiro post, aquele sobre os donos e entusiastas de blogs misóginos. Além de racista, ególatra, manipulador, porco-capitalista, mimado e a lista se extende…

Seth Rogen, o protagonista Britt, com sua máquina de poder.

Lenore. Objeto decorativo para um filme com um casting quase inteiramente masculino.

Existem pouquíssimas mulheres que sequer abram a boca (contei 4, incluindo a coadjuvante que aparece nos jornais da TV) no filme. A única que ganha “destaque” – e bota aspas nisso – é Lenore Case, personagem de Cameron Diaz.

Lenore é secretária de Britt, e apesar de ser infinitamente mais inteligente e capacitada do que o seu chefe se submete a tratamentos misóginos e inferiorizadores, como ser avaliada e classificada como gostosa desde o primeiro instante que surge na tela, interrompida praticamente toda vez que se manifesta, ser demitida sob a alegação de ser uma ‘meretriz’ que transou com o seu “parceiro” Kato, sofrer múltiplas tentativas forçadas de aproximação sexual por parte de seu chefe, e ainda assim, sempre estar disposta a fazer seu trabalho até altas horas da noite, já que ela é solteira e não tem nenhum dono esperando seu troféu em casa.

Kato, por sua vez, é o asiático-talento.

Jay Chou, conhecido por sua música, interpretando um serviçal multitarefas.

Todo o trabalho e ação são sempre realizados por ele, que também não fica tão atrás no quesito objetificação feminina. É subjugado e maltratado por seu chefe (relação que Britt mesmo faz questão de ressaltar algumas vezes – ele é seu chefe, seu dono, e não seu parceiro) durante 90% do filme. O que resulta inclusive numa cena de luta que causa pouca emoção entre os dois, que tem como fundamento decidir quem é o mais fodão (juro, assim mesmo). Ah, Kato também não obtêm um apelido divertido, tampouco é considerado parceiro do Besouro. Mas sua ingenuidade não o permite enraivecer por esses pormenores.

Frases e comportamentos do tipo “duvido que você tenha coragem, sua vadiazinha” e “eu sou mais macho/rico/branco/norte-americano que você” são repetidos durante o tempo inteiro, e a lição que se tem no final é que: mesmo que você seja um completo imbecil repulsivo, você ainda pode ser um herói.

Enfim, sobrevivemos a essa sessão de tortura. Enquanto caminhávamos para casa, eu contava para o meu companheiro sobre aquele texto que linkei aqui no começo desse post, da mulher afirmativa sobre já termos tudo, que o mundo pra nós é muito lindo, que somos privilegiadas, ganhamos mais que os homens e tal. Mas fui interrompida por uma cena que acontecia na calçada em que estávamos.

Um homem, visivelmente alterado, gritava com duas mulheres. A uma delas, apontou o dedo no rosto, bem próximo, e declarou em alto tom “Se eu descobrir que você está me traindo, eu te mato. Eu arrebento a sua cara inteira”. 

Ambas reagiram dizendo que ele não sabia do que estava falando. A gritaria prosseguiu enquanto diminuímos os passos para garantir que caso a ameaça prosseguisse, não fosse impune. Percebemos que diversas pessoas assistiam ao show, e alguns seguranças de um estabelecimento próximo já estavam de prontidão caso algo ocorresse.

Prosseguimos para casa. Naqueles dois ou três minutos, sabemos que aquela mulher não foi espancada ou morta. Porém enquanto estou escrevendo isso, não posso garantir que se manteve assim, até porque, a cada cinco minutos, duas mulheres são espancadas.

Reconheço meus privilégios por ser branca, por ser classe-média, por não estar na rua me prostituindo pois os meus filhos tem fome. Não me admiro por isso e tampouco julgo ser uma qualidade, mas compreendo que a minha vivência não é a mesma do que a da moça que vi sendo ameaçada horas atrás. É justamente por isso que alegar que o mundo para nós é lindo, em nome de todas as mulheres que fazem parte dele, seria de uma imbecilidade tamanha de quem o afirma, ou da parte de quem gasta milhões fazendo filmes que validam essa opressão. Assim como é por parte de qualquer indivíduo que não possua empatia (ou viva em uma bolha embaçada) suficiente para se ver que não, ser mulher não é agradável no patriarcado.