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Rasgando o R.G

13 abr

Desde que criei este blog, tinha a pretensão de escrever um post sobre arte corporal, sua relação com a sexualidade, o preconceito existente com a mesma e o mercado de trabalho.

Assim como muitas crianças, sempre achei tatuagens extremamente curiosas e interessantes – afinal, cores fascinam a qualquer umx, especialmente se elas não “deveriam” estar ali – , enquanto modificações “extremas”, como bifurcação da língua e implantes subcutâneos me causavam um misto de susto e divertimento.

Aos dezesseis anos, juntei dinheiro o suficiente e fiz o meu primeiro piercing. Medo de agulhas nunca foi algo que me perturbou. Dizem meus familiares que no meu primeiro hemograma – eu devia ter algo como dois anos – resolvi encarar a agulha, e quando vi o sangue sair de mim, desatinei a rir, achando tudo divertido e incompreensível.

Voltando aos dezesseis, lembro que o piercer que me atendeu era bastante profissional e cuidadoso. Fez questão que a minha mãe subisse para conferir a integridade do estúdio (ela me acompanhou sob protesto, já que eu era menor de idade) e observar o processo, todo esterilizado e cuidadoso.

Fiz meu nostril. Aquele na aba do nariz.

Lembro que minha melhor amiga estava comigo, e eu me senti extremamente feliz, e de certa forma vitoriosa por enfrentar a dor (que não é grande de forma nenhuma, nem insuportável), o medo, a incerteza…por ter ornado meu corpo com algo que eu escolhi usar.

Como mulher, sempre fui encorajada a me acovardar. Ter pavor de dor, de cair, de me machucar. Ter aversão ao meu sangue – menstrual ou não. Ser frágil, ser quebradiça. Eu havia superado algo que eu escolhi. Eu havia superado a dor. Eu havia acrescentado em mim algo de minha opção, e não havia pedido a opinião de ninguém.

Foi o começo de uma filosofia de vida que moldou meu corpo, e minha relação com ele e com o mundo. Proporcionalmente, uma escolha que me afeta todos os dias da minha vida.

“A Igreja diz: o corpo é pecado. A ciência diz: o corpo é uma máquina. A propaganda diz: o corpo é um comércio. O corpo diz: eu sou uma festa!”

Não pretendo entrar no mérito da discussão acerca da arte corporal e suas origens em tribos indígenas. Primeiro, porque o a postagem ficaria imensa. Segundo, pois o meu intuito aqui não é dar uma aula: é esclarecer e rebater críticas que ouço constantemente, por pessoas que nunca vivenciaram ou buscaram entender o movimento, ou o dia a dia de alguém que optou por ter sua imagem transformada.

Masoquismo, Comportamentos Anti-Éticos no Meio e Exploração do Feminino Sob Pretextos Artísticos.

Como modificações corporais implicam comumente em dor (não é permitido o uso de anestesia para piercings, tatuagens, implantes, micro-cirurgias e etc., pois body piercers, tatuadores e artistas do ramo em geral precisam de licença médica para administrar sedativos), é de senso comum associar a modificação ao masoquismo e muitas vezes, ao sadismo.

O mais comum entre os adeptos, no entanto, é que a dor seja vista como um processo: uma reação natural do seu corpo. Vencê-la é vencer um obstáculo em nome de manipular sua própria imagem da forma que bem entender.

Não é mentira que alguns praticantes de BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo)  sejam também possuidores de modificações corporais, ou usem seus procedimentos como parte dos rituais (por exemplo, bloodplay – que consiste literalmente em brincar com sangue próprio ou de terceiros, de forma sexual ou não).

É mentira, no entanto, que todx modificadx seja fetichista e encare as relações sexuais como um instrumento de controle e poder.

Também não é verdade que todo ritual envolvendo perfurações ou sangue seja sádico ou fruto de um delírio religioso.

A suspensão corporal, por exemplo, é descrita muitas vezes como uma “metáfora corporal” para a transcendência (não necessariamente religiosa). Uma vez que depois de superar o medo e a dor, o relaxamento e a liberação de endorfina proporcionam um prazer incomparável, que não tem nada de sádico ou danoso para nenhuma das partes envolvidas.

E aí, sádico o suficiente pra você?

Conheço pessoas praticamente lacradas de tatuagem, que confessam odiar a dor das sessões, e que têm ficado cada vez mais intolerantes com a mesma.

Também conheço pessoas com orelhas alargadas que morrem de pavor de agulha, e que viram o rosto e fazem caretas quando incluem um novo adorno.

Conheço modificadxs que são veganxs, resgatam e tratam de animais de rua, que simpatizam com a causa feminista, libertárixs, sóbrixs e livres de drogas.

Conheço modificadxs homossexuais, bissexuais, transexuais, heterossexuais, militantes do movimento LGBTT, e sei até mesmo de racistas, neonazistas e reacionários de merda (por mais paradoxal que pareça, já que se subentende que alguém disposto a fugir por própria escolha do que é considerado “aceitável” para o seu corpo, também seja disposto a aceitar as diferenças do mundo).

O meu ponto é: nem todx modificadx é um(a) ogrx sem coração e comedor de criancinhas no café. Assim como nem toda modificação ou ritual é de cunho sexual (na verdade, poucas são), como já vi teóricxs criticarem.

É sim verdade que existem pessoas antiéticas no meio. Que existe sim exploração do corpo feminino enquanto “objeto artístico” em muitos zines sobre o assunto (embora a proporção entre a nudez feminina e masculina seja bastante equilibrada – e isso não invalida a crítica de forma alguma, é apenas uma observação – , de modo que o foco seja sempre, supostamente, a modificação, e não o sexo ou o gênero). E também que algumas pessoas apreciam a dor de forma sexual. Porém isso não é de forma alguma uma regra.

Se quiser investigar por si, recomendo conhecer o IAM, a rede social do BMEzine – o maior ezine sobre modificação corporal do mundo. Lá você definitivamente vai ver gente de todos os tipos – que vão desde feministas radicais, até homens e mulheres presos no mito da beleza e pornificação de si mesmos, entre diversas preferências políticas – adeptos de uma mesma arte, e com infinitas teses sobre o assunto.

Rasgando a Carteira de Trabalho.

Não precisa ser o Pauly Unstoppable para ser discriminado, confie em mim. Se você tem dois piercings ou mais (em locais incomuns ou visíveis), um cabelo um pouco diferente, ou prefere se vestir com algo que não seja um conjunto de terno ou de saia, blazer e salto alto: você é inadequado para o mercado de trabalho.

Esse é o Pauly. Ele é homossexual, straight edge, aprecia comida vegan crua e gosta de coelhinhos.

Por um golpe de sorte, quando consegui meu primeiro emprego, aos dezessete, conheci meu chefe já com bochechas furadas, orelhas alargadas e tênis, sem que houvesse nenhum protesto da parte empresarial. Você e eu sabemos que não faz sentido atravessar a cidade em ônibus superlotados em cima de saltos de quinze centímetros – muito respeito pelas mulheres que passam por isso, já que por algum motivo sórdido, o capitalismo só as “respeita” quando estão se equilibrando em hastes finas ao andar por calçadas esburacadas.

A realidade é que os empregos médios (escritórios convencionais e instituições “sérias”) pedem uniformes e condutas dignas de riso.

Apesar de andar de busão, você precisa de vestir como um(a) chefe, que chega com o carro do ano. Apesar da marmita, sua mala precisa estar em condições adequadas para combinar o seu “terno de impressionar clientes”. Apesar do motorista de ônibus parar justamente em frente uma calçada quebrada, você deve aterrissar como uma princesa, no alto de seu scarpin parcelado em 17 vezes.

Funcionária ideal, hein? (sim, sou eu)

Pode estar com a pior dor de cabeça da sua vida: o sorriso para o cliente e para seus superiores deve estar em dia. Cólica menstrual? Vá até a farmácia no horário de almoço e cure isso logo. Você não tem tempo para estar doente e o trânsito que você pega não interessa. Precisa engolir a droga entorpecente e sorrir, sorrir, sorrir…

O que hoje meu chefe e algumas outras pessoas sabem, é que o fato de ter buracos na minha orelha não me faz menos competente do que o advogado engravatado. Meu tênis não me torna displicente, assim como um salto alto não me transforma em heroína da pátria.

Aos finais de semana, feriados ou happy hours, todos bebem (cervejas importadas ou populares), e saem de bermuda (com a logomarca cara ou da loja de departamentos) para relaxar do stress semanal. A gerente e a empregada, cada uma a seu modo e dentro de suas possibilidades, se cobram esteticamente e se punem: uma, malhando diariamente para cumprir sua penitência por ser mulher. A outra: se servindo de menos feijoada.

Todxs somos afetadxs por questões relativas ao status, e de forma geral, somos induzidxs a nos vestir e comportar de forma que não nos pertencem, sobretudo para agradar a terceiros (clientes, patrões…) e que por sua vez, também escondem suas verdadeiras vontades e preferências atrás de comportamentos que não lhes representam.

O que difere uma pessoa modificada das demais no mercado de trabalho tradicional, é que por maiores e mais ortodoxas que as exigências estéticas sejam feitas, ela dificilmente conseguirá esconder todas as evidências de sua singularidade, expressa em processos físicos que adornam seu corpo.

Imagine uma recepcionista com seu uniforme tradicional, e com adornos que remetem a chifres na testa. Ou ser atendido por um balconista que entrega seu lanche com as mãos repletas de desenhos orientais? Definitivamente, uniforme nenhum será capaz de transformar tais pessoas no que a vestimenta se propõe: apenas um trabalhador. Sem causa, sem vontade, apenas sorrisos e boa serventia. Você conhecerá imediatamente mais dessa pessoa do que das demais. Sua preferência por tais desenhos e cores, ou tamanhos e formas. Possivelmente, até mesmo uma ideologia estará estampada em algum lugar, de forma orgulhosa.

Atende eu, La Negra! ♥

Não subentendam porém, que eu considero pessoas tatuadas ou implantadas melhores ou mais competentes do que as demais. O meu ponto é que elas podem ser igualmente competentes, e ainda assim, ostentarem sua individualidade de forma aberta.

Classismo.

É inegável: as modificações corporais, assim como a arte em algumas de suas manifestações, estão bastante ligadas à classe econômica.

Quem ganha um salário mínimo, por exemplo, não tem condições financeiras para se submeter a procedimentos de modificações corporais frequentes, e é notória a participação de homens e mulheres brancxs no meio da arte corporal moderna.

Descrer nisso já que as origens da arte estão em raízes africanas e indígenas seria ingênuo, uma vez que me proponho a discutir a arte corporal MODERNA e URBANA desde o princípio.

Enquanto o piche e o grafite dão voz nas periferias, a pop art serve a classe média e o Construtivismo Russo falou ao proletariado, a modificação corporal moderna ainda é vista como bizarra e intolerável para diversas pessoas de todas as classes, embora o movimento, atualmente, pertença muito mais às classes econômicas mais ricas.

O conceito de mutilação e o status de bizarro subentendem que os indivíduos são perturbados mentalmente, e que buscam atenção de um suposto público. Enquanto isso, a mutilação em mesas de cirurgias plásticas estéticas são amplamente aceitas e incentivadas.

Isso não afeta os indivíduos apenas pelo bullying sofrido nas ruas (gritos ofensivos, pregações religiosas, olhares acusadores e até agressões físicas), mas também pode ser extremamente negativo no âmbito profissional, uma vez que diversas instituições consideram o visual alternativo como extremamente indesejável e banível.

Meu protesto portanto, não é de que sejamos o grupo mais oprimido do planeta, até porque, costumamos ser brancxs e da classe-média. Mas sim de que somos discriminados de fato, e que esse fato não pode silenciar e impedir as pessoas de fazerem o que bem entenderem com seus corpos.

O julgamento social não pode valer mais do que o seu conhecimento, e se anular de forma a se adequar também não mudará os valores sociais instituídos.

RG: Rasguei

O que me motivou a escrever este post em meio a tantos temas mais interessantes a serem trabalhados, foi que neste sábado, eu tatuei os dedos.

Também me estimulou a compartilhar minha vivência o fato de existirem poucas feministas tratando do assunto. Até hoje, só li uma crítica (que não acredito estar autorizada a citar, portanto se houver interesse, é só procurarem por modificação corporal + feminismo) que trata o assunto de forma bastante negativa.

Como eu vivo sendo quem sou, sei o que é sair na rua e ouvir todo tipo de ofensa gratuita, sou uma excessão por ter um emprego que me aceita como sou, e me sinto no direito de esclarecer o preconceito existente.

Orgulho.

(:

Acho que ainda não mencionei aqui, mas a mesma dona desses dedos coloridos, passou a pouco tempo na faculdade. Serei bióloga em alguns anos, e trabalharei com algo que realmente amo. Continuarei ostentando com orgulho as ideologias que carrego marcadas na pele.

ADENDOS!: Patricia Nardelli, aquela linda *-*, me lembrou que eu não falei sobre o recorte de gênero que há na modificação corporal.

Há, e muito: mulheres com modificações que fujam da delicadeza esperada (ou seja, não-fadinhas-mini-borboletas-e-afins) são discriminadas por não terem a aparência dócil que se espera. Por remeter à dor, o visual modificado é considerado masculinizado e agressivo. Preciso falar mais nada né? Dicotomia de gênero manda abraços.

E o Jo, meu companheiro queridíssimo, mencionou também o preconceito que generaliza pessoas com modificações corporais a presidiários ou criminosos.
Enfim, tem muita coisa a se dizer ainda sobre o assunto. Os preconceitos são infinitos e…todxs nós estamos cagando para todos! ❤