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Você não está preso no trânsito, você é o trânsito!

4 mar

De manhã, papeávamos sobre a próxima bicicletada pelada. Entre um pão francês e outro, ríamos adoidadas, entre olhadas e alarmantes exclamações daqueles que ainda não compreendem a “organicidade” do bicicletar nu. Normal, até engraçado. Foi uma boa e quente manhã de pedal. No caminho, vi um rapaz descendo a Haddock Lobo de patins, mais rápido do que eu. Trocamos um sorriso de admiração recíproca.

Em minutos, a notícia. Uma de nós havia perdido a vida. Alguém a fechou com algumas toneladas, jogando os 60-e-poucos-kg em cima de outras toneladas, em mais avançada velocidade. Uma vida ceifada a troco de nada.

Abraçamo-nos em desespero, choro e choque. O mesmo caminho que eu, que ela, que tantas de nós. O mesmo destino possível com a maior porção de minhas amigas, amigos, amores e mesmo meu próprio pai.
Ali acabou uma vida, e não foi por uma fatalidade ou acidente. Foi por uma epidemia cada vez maior e escrota de pressa e auto-relevância. Só o que eu faço é importante, justo, necessário e urgente. O resto das pessoas são obstáculos, desagradáveis incidentes que atrapalham meu importante caminho.

Você não está preso no trânsito. Você É o trânsito.

A noite, quando caminhamos embaixo de o que pareceu ser um oceano suspenso, despencando em chuva e se fundindo a tantas lágrimas, comecei a ter noção de que perderia o chão. Empurrava a bicicleta com pesar. Ao meu lado, centenas que pensavam exatamente o mesmo. Grande parte das pessoas que eu amo estavam lá. Era impossível não abraçá-lxs e morrer um pouco por dentro. O frio maior não era do vento, era do estômago e da espinha. Mais do que nunca, foi preciso parar, gritar, sacudir, travar essa porra dessa avenida já travada todos os dias, e implorar por mais respeito.

Foi preciso olhar nos olhos de cada motorista do caminho e explicar o que acontecia. Tentar demonstrar que, se ele sair do mini-sofá em que está, também será pedestre e vulnerável. Que uma vida não pode ser avaliada em R$1.500,00 de fiança.

Até agora, organizar o pensamento está quase impossível. Fora de algumas mentes esclarecidas, ainda sou obrigada a ler que ela era culpada. Se tinha dinheiro, por que não comprou um carro? Morreu porque merecia, então!
A pior violência que me acomete ainda é a verbal. Da ignorância coletiva de quem se ensurdece como uma criança gritando “lalalalala-não-estou-te-ouvindo-o-motor-fala-mais-alto!”.

Uma certeza que tenho é que, mais do que nunca, agora é hora de luta. Cada pedalada é um silencioso protesto, que subverte, na simplicidade do giro, a lógica da pressa, da manutenção do status quo, do consumismo, da falsa liberdade vendida pelo capital e pela indústria petroleira.

Não estou só. Não vou aumentar a velocidade porque você está com pressa. Não vou para o parque, a calçada ou sumir ao som da sua buzina. Eu estou aqui, e vou para todos os locais que você julga cabíveis somente ao seu nível de egoísmo acelerado.
Lutemos contra quem multa trabalhadores pobres se eles não atingirem uma meta irreal de horários na afogada turba de ferro do asfalto. Lutemos pelo respeito, pelo compartilhamento, pela prioridade da vida, e não da urgência banal.

Mas você acha que a Avenida Paulista não é lugar de bike? Lê aqui. 

Hoje eu não quero falar sobre desafogar o trânsito para quem realmente precisa do carro. De liberar o transporte público pra quem vem de mais longe. Das lutas pela justiça e qualidade no transporte público. Dos motoristas bacanas que dão passagem. Da sempre eterna discussão sobre classismo, sexismo e outras doenças no cicloativismo. Hoje, eu só preciso chorar o nosso luto.