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Besouro Verde, absurdos que a gente assiste, lê e vive.

24 fev
Hoje foi um dia difícil, como os dias são às vezes, especialmente nas últimas semanas (por diversos motivos pessoais). Meu nível de stress estava nas alturas, minha imunidade foi pra manga, fiquei doente e minha vontade de escrever tinha sumido completamente, junto com a vontade de viver, acordar, etc.

Já que o fluxo no meu serviço estava tranquilo, resolvi ler para passar o tempo. E como acontece com certa frequência na minha vida, trombei com dois textos de dar arrepios. (aqui e aqui)

Um separa as mulheres entre putas, putas interesseiras, velhas-ressecadas, infanto-fetiches e etc. de forma a ajudar você, homem, a escolher qual a mais adequada, no melhor estilo self-service.

O outro, é uma carta escrita por uma mulher de bem, defensora da Família, Tradição & Propriedade, que culpa o feminismo pelo extermínio de tudo que há de bom no mundo, em especial o fim (?!) da família nuclear, uma geração de mulheres infelizes e mau-trepadas e “BLABLABLÁ os homens é que são vítimas, pobres deles, suas feminazis cruéis, por isso que eu sou feliz com meu marido, ahá” (sim, lésbicas do meu Brasil, a autora não sabe nem que vocês existem.  A única saída para a felicidade é viver realizando e defendendo um macho. E se ele te espancar, acredite que não tem nada a ver com o fato de você ter uma vagina).

Lembrem-se: admirar sempre! Questionar nunca!

Ambos recebendo cotas (absurdas) de aprovação entre o público leitor.

Você já deve ter concluído que meu dia estava foda de aguentar. E estava, deveras. Difícil também estava o dia do meu companheiro, que em outro canto da cidade, era sobrecarregado durante o seu expediente.

Normalmente, ele e eu saímos do serviço e vamos pra a academia -descarregar um pouco do ódio- para não perder totalmente o nosso ritmo de ex-alunos-de-kung-fu (ele, uma mistura doida de Punhos do Norte + Jeet Kune Do, eu, Wing Chun), já que não é mais possível treinar devido ao nosso confinamento em escritórios por 9 horas diárias (sem contar as horas no transporte público).

Normalmente.

Mas o nível de stress do dia pedia algo mais banal. Após algumas sugestões declinadas devido ao trânsito de São Paulo, – que requer horas para se deslocar até dentro da sua própria casa após às 18:00h – decidimos ver algo que já pretendíamos, e estava passando num cinema perto da minha casa:  Besouro Verde.

Pra quem não é familiarizado, aqui vão palavras da Wikipedia: “O Besouro Verde (The Green Hornet, no original) é um famoso herói fictício do rádio, cinema e televisão. Trata-se de Britt Reid, milionário dono do jornal O Sentinela Diária que se transforma num vingador encapotado no estilo do Sombra. Ele é ajudado por Kato, seu mordomo de origem oriental mestre em artes marciais.”

Mas o que mais me fez querer assistir O Besouro, é que, como eu mencionei ali atrás, eu era praticante de Wing Chun. Então, normalmente filmes que envolvem artes marciais me atraem. Também ajuda o fato de que Bruce Lee era quem interpretava o personagem Kato na série, em alguma parte dos anos 80. Some ainda que eu sempre curti HQ’s, e filmes com essa tendência também têm apelo sobre mim…

Nada mais justo do que assistí-lo!

Corremos e chegamos ao fim dos trailers.

Cerca de 20 minutos depois, eu suspirava, bufava, me desesperava, e cutucava meu querido alegando que queria demais ver o merda do Britt, personagem principal, O Besouro Verde, tomando a surra do século (e preferencialmente, entrar em óbito após o espancamento).

Britt é a caricatura do masculinista asqueroso que eu mencionei no meu primeiro post, aquele sobre os donos e entusiastas de blogs misóginos. Além de racista, ególatra, manipulador, porco-capitalista, mimado e a lista se extende…

Seth Rogen, o protagonista Britt, com sua máquina de poder.

Lenore. Objeto decorativo para um filme com um casting quase inteiramente masculino.

Existem pouquíssimas mulheres que sequer abram a boca (contei 4, incluindo a coadjuvante que aparece nos jornais da TV) no filme. A única que ganha “destaque” – e bota aspas nisso – é Lenore Case, personagem de Cameron Diaz.

Lenore é secretária de Britt, e apesar de ser infinitamente mais inteligente e capacitada do que o seu chefe se submete a tratamentos misóginos e inferiorizadores, como ser avaliada e classificada como gostosa desde o primeiro instante que surge na tela, interrompida praticamente toda vez que se manifesta, ser demitida sob a alegação de ser uma ‘meretriz’ que transou com o seu “parceiro” Kato, sofrer múltiplas tentativas forçadas de aproximação sexual por parte de seu chefe, e ainda assim, sempre estar disposta a fazer seu trabalho até altas horas da noite, já que ela é solteira e não tem nenhum dono esperando seu troféu em casa.

Kato, por sua vez, é o asiático-talento.

Jay Chou, conhecido por sua música, interpretando um serviçal multitarefas.

Todo o trabalho e ação são sempre realizados por ele, que também não fica tão atrás no quesito objetificação feminina. É subjugado e maltratado por seu chefe (relação que Britt mesmo faz questão de ressaltar algumas vezes – ele é seu chefe, seu dono, e não seu parceiro) durante 90% do filme. O que resulta inclusive numa cena de luta que causa pouca emoção entre os dois, que tem como fundamento decidir quem é o mais fodão (juro, assim mesmo). Ah, Kato também não obtêm um apelido divertido, tampouco é considerado parceiro do Besouro. Mas sua ingenuidade não o permite enraivecer por esses pormenores.

Frases e comportamentos do tipo “duvido que você tenha coragem, sua vadiazinha” e “eu sou mais macho/rico/branco/norte-americano que você” são repetidos durante o tempo inteiro, e a lição que se tem no final é que: mesmo que você seja um completo imbecil repulsivo, você ainda pode ser um herói.

Enfim, sobrevivemos a essa sessão de tortura. Enquanto caminhávamos para casa, eu contava para o meu companheiro sobre aquele texto que linkei aqui no começo desse post, da mulher afirmativa sobre já termos tudo, que o mundo pra nós é muito lindo, que somos privilegiadas, ganhamos mais que os homens e tal. Mas fui interrompida por uma cena que acontecia na calçada em que estávamos.

Um homem, visivelmente alterado, gritava com duas mulheres. A uma delas, apontou o dedo no rosto, bem próximo, e declarou em alto tom “Se eu descobrir que você está me traindo, eu te mato. Eu arrebento a sua cara inteira”. 

Ambas reagiram dizendo que ele não sabia do que estava falando. A gritaria prosseguiu enquanto diminuímos os passos para garantir que caso a ameaça prosseguisse, não fosse impune. Percebemos que diversas pessoas assistiam ao show, e alguns seguranças de um estabelecimento próximo já estavam de prontidão caso algo ocorresse.

Prosseguimos para casa. Naqueles dois ou três minutos, sabemos que aquela mulher não foi espancada ou morta. Porém enquanto estou escrevendo isso, não posso garantir que se manteve assim, até porque, a cada cinco minutos, duas mulheres são espancadas.

Reconheço meus privilégios por ser branca, por ser classe-média, por não estar na rua me prostituindo pois os meus filhos tem fome. Não me admiro por isso e tampouco julgo ser uma qualidade, mas compreendo que a minha vivência não é a mesma do que a da moça que vi sendo ameaçada horas atrás. É justamente por isso que alegar que o mundo para nós é lindo, em nome de todas as mulheres que fazem parte dele, seria de uma imbecilidade tamanha de quem o afirma, ou da parte de quem gasta milhões fazendo filmes que validam essa opressão. Assim como é por parte de qualquer indivíduo que não possua empatia (ou viva em uma bolha embaçada) suficiente para se ver que não, ser mulher não é agradável no patriarcado.