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Slutwalk, Prostitutas e Nossas Apropriações.

11 maio

Dia 24 de Janeiro de 2011, um representante da polícia de Toronto afirma que “Mulheres deveriam evitar se vestir como putas (sluts), de modo que não sejam vitimizadas”.

Em abril, 3 mil pessoas, homens e mulheres, saíram pelas ruas de Toronto em protesto ao contexto de “puta” e “mulher estuprável”. É a Slutwalk (Caminhada das Vagabundas).

Com a repercussão dos primeiros protestos, o movimento já se espalhou para outras cidades do Canadá e para cidades de Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Grã-Bretanha, Holanda, Suécia e até mesmo da Argentina.

No último sábado, cerca de 2 mil pessoas participaram de uma SlutWalk em Boston, nos Estados Unidos, sob gritos de guerra como “Nós amamos as vagabundas” e “Jesus ama as vagabundas”.

Outros eventos semelhantes estão sendo programados em outras cidades da Inglaterra, da Escócia e do País de Gales.

Tudo me soava brilhante. Quase toda mulher já foi chamada de puta, vadia, rodada. Pode ser por seu comportamento, sua roupa, ou simplesmente por portar uma vagina. A maioria de nós já ouviu que não deveria sair tarde, sozinha ou com aquele tamanho de saia se quiséssemos voltar invioladas.

Não nos diga o que vestir. Diga aos homens para não estuprarem.

Vivemos em uma sociedade que ensina “Não Seja Estuprada”, ao invés de “Não Estupre”.

Portanto, a Slutwalk e seu espírito de protesto me cativaram. A princípio.

Eventualmente, surgiu no Facebook uma nota de uma moça chamada Rebecca Mott, entitulada “Razões Pelas Quais Eu Não Irei Na Slutwalk”. Resumidamente (e numa versão traduzida por mim), Rebecca diz que como mulher ex-prostutída, se sente profundamente ofendida com a Marcha das Vagabundas.

 “Eu não acredito que reclamar a palavra “Puta” faça algo para dizer aos homens violentos que seu comportamento está fora de controle (…) Reivindicar a palavra “Puta” não faz com que a história suma num passe de mágica.

(…) A Marcha das Vagabundas é do interesse de mulheres privilegiadas, que podem brincar com o papel da Puta. Se vestirem como prostitutas, carregarem placas com dizeres como “Vagabundas Dizem Sim”, e imaginar que mulheres dentro do comércio sexual são empoderadas, conforme nos chamam de Irmãs.

A Marcha das Vagabundas é sobre dizer que o estupro é ruim quando feito para mulheres e garotas “reais”, não importa o que elas vistam ou aonde vão. Mas ignorar ferozmente os estupros diários e a tortura sexual das mulheres e garotas dentro do comércio sexual. Isso é ignorado porque para as pessoas do Slutwalk, a prostituição é só um trabalho – então nós não devemos julgar ou mesmo questionar isso muito profundamente.

Algumas mulheres no Slutwalk acham que é radical se vestir como uma visão estereotipada da vagabunda, ou a versão cartunesca da puta. Podem chamar isso de burlesco, mas para as mulheres que saíram da prostituição é um insulto.

Vestir-se como uma prostituta por uma noite é muitas vezes feito a partir de uma posição de profundo privilégio. Você pode fazer isso porque supõe que estará segura, e que se você fosse estuprada haveria indignação. (…) Enquanto mulheres e meninas prostituídas não possuem a menor proteção contra estupros (…)”

Putas dizem sim / Orgulhosa de ser Puta. Cartazes da Slutwalk.

Rebecca diz que “brincar de puta não é ser uma puta”. E sinceramente, não me considero qualificada para discordar dela.

Se mulheres saem na rua protestando pela liberdade de seus corpos, é sempre preciso fazê-lo em quantidades massivas, preferencialmente acompanhadas e apoiadas por homens. Assim, deixam de ser “propriedade pública” e passam a ser “propriedade privada” (o que obviamente é uma merda).

Mas nas noites, nos becos e nas esquinas, não se vê liberdade corporal. Se vê comércio, venda, exploração. E estas mulheres não tem de fato tamanho privilégio.

Nos estereotiparmos por algumas horas e chamarmos a essas mulheres de irmãs chega a ser de fato ofensivo. Não porque elas sejam inferiores a nós. Mas porque somos privilegiadas em relação a elas. Não somos nós que estamos sendo violentadas e espancadas diariamente nas esquinas. Claro, pode acontecer conosco, afinal temos uma vagina. Mas são elas quem correm o maior risco.

Ao mesmo tempo em que acho importante defendermos nossa liberdade corporal e sexual até o fim, questiono se o método eficaz para isso seria nos transformando naquilo que nos objetifica e sexualiza de forma heteronormativa e comercial desde sempre.

O comercio sexual não é glamouroso ou libertador em nenhum aspecto. Por que de repente chamamos a essas mulheres de “irmãs”, como se conhecessemos seu real drama diário, e nos consideramos em pé de igualdade de luta?

Precisamos defender sim a liberdade das putas e das demais mulheres. Irem, virem, gozarem e vestirem o que bem entenderem. Mas o viés é mesmo nos apropriarmos dos termos e caricaturas, como se a partir disso toda a história de opressão desaparecesse sob um novo rótulo libertário?

Algumas outras mulheres ex-prostituídas comentaram que se identificaram com o escrito pela Rebecca. Novamente eu questiono: se elas que são oprimidas se sentem ofendidas, quem somos nós, mulheres privilegiadas, para dizer que isso é exagero?

Por outro lado, quem sou eu para julgar apropriações? O movimento negro, por exemplo, reivindicou a palavra “pretx” para si, e vai muito bem com isso, obrigada.

É fato que somos coagidas e ameaçadas por sermos mulheres. Nos tornamos gradativamente mais estupráveis conforme a situação em que estamos (desacompanhadas, com roupas mais curtas ou chamativas). Por isso, não poderiamos reclamar para nós o título de putas?

E a subversão que há em um homem se vestir estereotipadamente como mulher? Pode ser ofensiva para nós, uma vez que eles não vivenciam realmente a opressão patriarcal no seu dia a dia, além de “brincarem” justamente com um modelo ofensivo para nós. Mas seria uma transgressão invalidada por isso?

Rebecca é uma ex-prostituta. Sua opinião importa muito para mim e deverá ser ouvida pelas demais mulheres, penso. A discussão vai longe, e eu ainda não decidi muita coisa sobre ela, além do fato de que isso precisa acontecer.

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Atualizado: Após muita discussão, fiz algumas reconsiderações acerca do movimento.

Segunda Feira Vermelha, Pêlos e outras Vergonhas.

2 maio

Se você é familiarizado com o maravilhoso mundinho roxo dos blogs feministas, já deve ter percebido que hoje é a Segunda Vermelha. O que significa que coletivamente, estamos discutindo e pondo em foco algo tão óbvio, mas tão velado: a menstruação.

É notável que a maioria das mulheres saudáveis na idade “reprodutiva” menstrua naturalmente.

Comigo, começou há nove anos atrás. Não lembro a data, porque não foi tão significativo assim. Eu com onze anos na época, já estava na expectativa. A maioria das meninas que eu conhecia falava nisso regularmente, e eu queria que fosse logo a minha vez.

Então um dia, fazendo algo rotineiro, senti dores nas costas. Depois, no útero. Fui ao banheiro, constatei uma manchinha amarronzada, peguei um absorvente no armário e avisei ao meu pai: “Menstruei”. Ele sorriu e disse algo como “Que bom filhota, já é uma mocinha” ou algo do tipo.

Como eu tenho uma irmã mais velha nada daquilo foi muito novo ou surpreendente pra ninguém. Encarei como um processo natural do meu corpo.

Meu fluxo nunca foi muito forte. Já tive alguns atrasos, alguns adiantamentos e alguns prolongamentos chatinhos.

Já tive que trocar de pílula, e provavelmente terei que trocar de novo em breve (a gastrite me manda lembranças todo mês antes de menstruar).

E já tive muita, mas muita vergonha do meu sangue.

Parece ser um terror psicológico inserido pelos comerciais repletos de mulheres que vestem branco e sangram azul a suposição de que descubram que estamos menstruadas.

A minha nunca sai nesse tom azul celeste. Qual o meu problema, doutora?

A maioria das mulheres que conheço já evitou sair com determinada roupa, ou praticar alguns exercícios (especialmente sexuais). Há até um jeito correto de dormir para minimizar incômodas manchas de sangue. Não nego que já me inclui em todas as acima, mas graças ao meu querido Coletor Menstrual essa vida não me pertence mais (amém, irmãs!).

Eu uso o Green Donna há cerca de um ano, e minha visão sobre esse período do mês mudou MUITO.

O contato com o sangue se torna muito mais evidente. Você analisa de fato a quantidade e qualidade do que expele. E eu garanto que não há nada de bizarro, anormal ou doentio nisso. Aliás, doentio é que se tenha feito tamanha lavagem cerebral de forma que jovens mulheres achem-se adoentadas e asquerosas quando vivenciam seu ciclo menstrual.

Menstrual Cup: todas ama!

Não nego que algumas mulheres sintam sim dores ou sintomas muito desconfortáveis que antecipam o período menstrual. Para essas, recomendo alguns exercícios de Hatha Yóga que aprendi e procuro ensinar para quantas mulheres puder. Se quiserem saber mais, é só mandar um comentário.

Fato é que essas sensações e substâncias fazem parte de você. Seu sangue, seus cheiros…minimizá-los não te torna monstruosa ou inferior, mas anula uma parte natural de si mesma. Vê-la como antinatural e digna de censura não é algo muito coerente, entende?

O que dizer então do aumento da libido, tão característicos do período menstrual para tantas de nós? Negar o tesão em nome dessa perturbação por “limpeza”? Nosso sangue não é sujo!

Não fazemos isso só com a menstruação, mas também com os pêlos.

Há uma fobia generalizada em relação a pêlos femininos. Quanto aos homens, não há nada demais em sustentá-los. Eles crescem de forma natural e dominam em maior ou menor grau os corpos humanos, e é incentivado cultivá-los se você for um homem humano heterossexual preso em papéis impostos de gênero que não gosta de ter questionada sua sexualidade.

Mas para uma mulher, exibir uma axila não depilada, ou mostrar suas pernas sem que elas brilhem como a de uma criança pré-pubere é uma afronta. Os comerciais de cremes e ceras depilatórias nos ensinaram que só estamos prontas e confiantes quando estamos despidas de pêlos…que crescem naturalmente em nossos corpos.

Chamam isso de higiênico. De “se cuidar”. Por que só os nossos são nojentos, ou por que a natureza nos deu tamanha e “inútil” “aberração” nunca se soube. Só se sabe que precisamos esconder nossas vergonhas. Nossos cheiros, nossa umidade, nossa vitalidade.

Beleza: mutilando aos poucos o estado natural do seu corpo para ser considerado aceitável.

O que dizer da campanha anti-cheiro-vaginal então? Basta ligar a TV e musas do momento informam que meu pH está descontrolado, minha flora me matará, e que o bom mesmo é ter cheiro de morangos silvestres em meu órgão sexual. Não mencionam porém o quanto esses sabonetes, talcos, desodorantes, lencinhos e demais apagadores de identidade podem influenciar no desencadeamento de candidíases e proliferações fúngicas.

Querem que eu não sangre naturalmente, que seja depilada apesar dos pêlos que crescem sem o menor esforço, que tenha cheiro de frutinhas embora seu cheiro original sempre me pareça tão mais saboroso.

Querem que haja vergonha. Que haja insegurança. E que o lucro das indústrias depiladas, azuis, brancas e com odor de lírios cresça sempre.

 Isso aqui é uma vagina, meu bem. Não um vidrinho de purificador de ambientes em spray.

Rasgando o R.G

13 abr

Desde que criei este blog, tinha a pretensão de escrever um post sobre arte corporal, sua relação com a sexualidade, o preconceito existente com a mesma e o mercado de trabalho.

Assim como muitas crianças, sempre achei tatuagens extremamente curiosas e interessantes – afinal, cores fascinam a qualquer umx, especialmente se elas não “deveriam” estar ali – , enquanto modificações “extremas”, como bifurcação da língua e implantes subcutâneos me causavam um misto de susto e divertimento.

Aos dezesseis anos, juntei dinheiro o suficiente e fiz o meu primeiro piercing. Medo de agulhas nunca foi algo que me perturbou. Dizem meus familiares que no meu primeiro hemograma – eu devia ter algo como dois anos – resolvi encarar a agulha, e quando vi o sangue sair de mim, desatinei a rir, achando tudo divertido e incompreensível.

Voltando aos dezesseis, lembro que o piercer que me atendeu era bastante profissional e cuidadoso. Fez questão que a minha mãe subisse para conferir a integridade do estúdio (ela me acompanhou sob protesto, já que eu era menor de idade) e observar o processo, todo esterilizado e cuidadoso.

Fiz meu nostril. Aquele na aba do nariz.

Lembro que minha melhor amiga estava comigo, e eu me senti extremamente feliz, e de certa forma vitoriosa por enfrentar a dor (que não é grande de forma nenhuma, nem insuportável), o medo, a incerteza…por ter ornado meu corpo com algo que eu escolhi usar.

Como mulher, sempre fui encorajada a me acovardar. Ter pavor de dor, de cair, de me machucar. Ter aversão ao meu sangue – menstrual ou não. Ser frágil, ser quebradiça. Eu havia superado algo que eu escolhi. Eu havia superado a dor. Eu havia acrescentado em mim algo de minha opção, e não havia pedido a opinião de ninguém.

Foi o começo de uma filosofia de vida que moldou meu corpo, e minha relação com ele e com o mundo. Proporcionalmente, uma escolha que me afeta todos os dias da minha vida.

“A Igreja diz: o corpo é pecado. A ciência diz: o corpo é uma máquina. A propaganda diz: o corpo é um comércio. O corpo diz: eu sou uma festa!”

Não pretendo entrar no mérito da discussão acerca da arte corporal e suas origens em tribos indígenas. Primeiro, porque o a postagem ficaria imensa. Segundo, pois o meu intuito aqui não é dar uma aula: é esclarecer e rebater críticas que ouço constantemente, por pessoas que nunca vivenciaram ou buscaram entender o movimento, ou o dia a dia de alguém que optou por ter sua imagem transformada.

Masoquismo, Comportamentos Anti-Éticos no Meio e Exploração do Feminino Sob Pretextos Artísticos.

Como modificações corporais implicam comumente em dor (não é permitido o uso de anestesia para piercings, tatuagens, implantes, micro-cirurgias e etc., pois body piercers, tatuadores e artistas do ramo em geral precisam de licença médica para administrar sedativos), é de senso comum associar a modificação ao masoquismo e muitas vezes, ao sadismo.

O mais comum entre os adeptos, no entanto, é que a dor seja vista como um processo: uma reação natural do seu corpo. Vencê-la é vencer um obstáculo em nome de manipular sua própria imagem da forma que bem entender.

Não é mentira que alguns praticantes de BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo)  sejam também possuidores de modificações corporais, ou usem seus procedimentos como parte dos rituais (por exemplo, bloodplay – que consiste literalmente em brincar com sangue próprio ou de terceiros, de forma sexual ou não).

É mentira, no entanto, que todx modificadx seja fetichista e encare as relações sexuais como um instrumento de controle e poder.

Também não é verdade que todo ritual envolvendo perfurações ou sangue seja sádico ou fruto de um delírio religioso.

A suspensão corporal, por exemplo, é descrita muitas vezes como uma “metáfora corporal” para a transcendência (não necessariamente religiosa). Uma vez que depois de superar o medo e a dor, o relaxamento e a liberação de endorfina proporcionam um prazer incomparável, que não tem nada de sádico ou danoso para nenhuma das partes envolvidas.

E aí, sádico o suficiente pra você?

Conheço pessoas praticamente lacradas de tatuagem, que confessam odiar a dor das sessões, e que têm ficado cada vez mais intolerantes com a mesma.

Também conheço pessoas com orelhas alargadas que morrem de pavor de agulha, e que viram o rosto e fazem caretas quando incluem um novo adorno.

Conheço modificadxs que são veganxs, resgatam e tratam de animais de rua, que simpatizam com a causa feminista, libertárixs, sóbrixs e livres de drogas.

Conheço modificadxs homossexuais, bissexuais, transexuais, heterossexuais, militantes do movimento LGBTT, e sei até mesmo de racistas, neonazistas e reacionários de merda (por mais paradoxal que pareça, já que se subentende que alguém disposto a fugir por própria escolha do que é considerado “aceitável” para o seu corpo, também seja disposto a aceitar as diferenças do mundo).

O meu ponto é: nem todx modificadx é um(a) ogrx sem coração e comedor de criancinhas no café. Assim como nem toda modificação ou ritual é de cunho sexual (na verdade, poucas são), como já vi teóricxs criticarem.

É sim verdade que existem pessoas antiéticas no meio. Que existe sim exploração do corpo feminino enquanto “objeto artístico” em muitos zines sobre o assunto (embora a proporção entre a nudez feminina e masculina seja bastante equilibrada – e isso não invalida a crítica de forma alguma, é apenas uma observação – , de modo que o foco seja sempre, supostamente, a modificação, e não o sexo ou o gênero). E também que algumas pessoas apreciam a dor de forma sexual. Porém isso não é de forma alguma uma regra.

Se quiser investigar por si, recomendo conhecer o IAM, a rede social do BMEzine – o maior ezine sobre modificação corporal do mundo. Lá você definitivamente vai ver gente de todos os tipos – que vão desde feministas radicais, até homens e mulheres presos no mito da beleza e pornificação de si mesmos, entre diversas preferências políticas – adeptos de uma mesma arte, e com infinitas teses sobre o assunto.

Rasgando a Carteira de Trabalho.

Não precisa ser o Pauly Unstoppable para ser discriminado, confie em mim. Se você tem dois piercings ou mais (em locais incomuns ou visíveis), um cabelo um pouco diferente, ou prefere se vestir com algo que não seja um conjunto de terno ou de saia, blazer e salto alto: você é inadequado para o mercado de trabalho.

Esse é o Pauly. Ele é homossexual, straight edge, aprecia comida vegan crua e gosta de coelhinhos.

Por um golpe de sorte, quando consegui meu primeiro emprego, aos dezessete, conheci meu chefe já com bochechas furadas, orelhas alargadas e tênis, sem que houvesse nenhum protesto da parte empresarial. Você e eu sabemos que não faz sentido atravessar a cidade em ônibus superlotados em cima de saltos de quinze centímetros – muito respeito pelas mulheres que passam por isso, já que por algum motivo sórdido, o capitalismo só as “respeita” quando estão se equilibrando em hastes finas ao andar por calçadas esburacadas.

A realidade é que os empregos médios (escritórios convencionais e instituições “sérias”) pedem uniformes e condutas dignas de riso.

Apesar de andar de busão, você precisa de vestir como um(a) chefe, que chega com o carro do ano. Apesar da marmita, sua mala precisa estar em condições adequadas para combinar o seu “terno de impressionar clientes”. Apesar do motorista de ônibus parar justamente em frente uma calçada quebrada, você deve aterrissar como uma princesa, no alto de seu scarpin parcelado em 17 vezes.

Funcionária ideal, hein? (sim, sou eu)

Pode estar com a pior dor de cabeça da sua vida: o sorriso para o cliente e para seus superiores deve estar em dia. Cólica menstrual? Vá até a farmácia no horário de almoço e cure isso logo. Você não tem tempo para estar doente e o trânsito que você pega não interessa. Precisa engolir a droga entorpecente e sorrir, sorrir, sorrir…

O que hoje meu chefe e algumas outras pessoas sabem, é que o fato de ter buracos na minha orelha não me faz menos competente do que o advogado engravatado. Meu tênis não me torna displicente, assim como um salto alto não me transforma em heroína da pátria.

Aos finais de semana, feriados ou happy hours, todos bebem (cervejas importadas ou populares), e saem de bermuda (com a logomarca cara ou da loja de departamentos) para relaxar do stress semanal. A gerente e a empregada, cada uma a seu modo e dentro de suas possibilidades, se cobram esteticamente e se punem: uma, malhando diariamente para cumprir sua penitência por ser mulher. A outra: se servindo de menos feijoada.

Todxs somos afetadxs por questões relativas ao status, e de forma geral, somos induzidxs a nos vestir e comportar de forma que não nos pertencem, sobretudo para agradar a terceiros (clientes, patrões…) e que por sua vez, também escondem suas verdadeiras vontades e preferências atrás de comportamentos que não lhes representam.

O que difere uma pessoa modificada das demais no mercado de trabalho tradicional, é que por maiores e mais ortodoxas que as exigências estéticas sejam feitas, ela dificilmente conseguirá esconder todas as evidências de sua singularidade, expressa em processos físicos que adornam seu corpo.

Imagine uma recepcionista com seu uniforme tradicional, e com adornos que remetem a chifres na testa. Ou ser atendido por um balconista que entrega seu lanche com as mãos repletas de desenhos orientais? Definitivamente, uniforme nenhum será capaz de transformar tais pessoas no que a vestimenta se propõe: apenas um trabalhador. Sem causa, sem vontade, apenas sorrisos e boa serventia. Você conhecerá imediatamente mais dessa pessoa do que das demais. Sua preferência por tais desenhos e cores, ou tamanhos e formas. Possivelmente, até mesmo uma ideologia estará estampada em algum lugar, de forma orgulhosa.

Atende eu, La Negra! ♥

Não subentendam porém, que eu considero pessoas tatuadas ou implantadas melhores ou mais competentes do que as demais. O meu ponto é que elas podem ser igualmente competentes, e ainda assim, ostentarem sua individualidade de forma aberta.

Classismo.

É inegável: as modificações corporais, assim como a arte em algumas de suas manifestações, estão bastante ligadas à classe econômica.

Quem ganha um salário mínimo, por exemplo, não tem condições financeiras para se submeter a procedimentos de modificações corporais frequentes, e é notória a participação de homens e mulheres brancxs no meio da arte corporal moderna.

Descrer nisso já que as origens da arte estão em raízes africanas e indígenas seria ingênuo, uma vez que me proponho a discutir a arte corporal MODERNA e URBANA desde o princípio.

Enquanto o piche e o grafite dão voz nas periferias, a pop art serve a classe média e o Construtivismo Russo falou ao proletariado, a modificação corporal moderna ainda é vista como bizarra e intolerável para diversas pessoas de todas as classes, embora o movimento, atualmente, pertença muito mais às classes econômicas mais ricas.

O conceito de mutilação e o status de bizarro subentendem que os indivíduos são perturbados mentalmente, e que buscam atenção de um suposto público. Enquanto isso, a mutilação em mesas de cirurgias plásticas estéticas são amplamente aceitas e incentivadas.

Isso não afeta os indivíduos apenas pelo bullying sofrido nas ruas (gritos ofensivos, pregações religiosas, olhares acusadores e até agressões físicas), mas também pode ser extremamente negativo no âmbito profissional, uma vez que diversas instituições consideram o visual alternativo como extremamente indesejável e banível.

Meu protesto portanto, não é de que sejamos o grupo mais oprimido do planeta, até porque, costumamos ser brancxs e da classe-média. Mas sim de que somos discriminados de fato, e que esse fato não pode silenciar e impedir as pessoas de fazerem o que bem entenderem com seus corpos.

O julgamento social não pode valer mais do que o seu conhecimento, e se anular de forma a se adequar também não mudará os valores sociais instituídos.

RG: Rasguei

O que me motivou a escrever este post em meio a tantos temas mais interessantes a serem trabalhados, foi que neste sábado, eu tatuei os dedos.

Também me estimulou a compartilhar minha vivência o fato de existirem poucas feministas tratando do assunto. Até hoje, só li uma crítica (que não acredito estar autorizada a citar, portanto se houver interesse, é só procurarem por modificação corporal + feminismo) que trata o assunto de forma bastante negativa.

Como eu vivo sendo quem sou, sei o que é sair na rua e ouvir todo tipo de ofensa gratuita, sou uma excessão por ter um emprego que me aceita como sou, e me sinto no direito de esclarecer o preconceito existente.

Orgulho.

(:

Acho que ainda não mencionei aqui, mas a mesma dona desses dedos coloridos, passou a pouco tempo na faculdade. Serei bióloga em alguns anos, e trabalharei com algo que realmente amo. Continuarei ostentando com orgulho as ideologias que carrego marcadas na pele.

ADENDOS!: Patricia Nardelli, aquela linda *-*, me lembrou que eu não falei sobre o recorte de gênero que há na modificação corporal.

Há, e muito: mulheres com modificações que fujam da delicadeza esperada (ou seja, não-fadinhas-mini-borboletas-e-afins) são discriminadas por não terem a aparência dócil que se espera. Por remeter à dor, o visual modificado é considerado masculinizado e agressivo. Preciso falar mais nada né? Dicotomia de gênero manda abraços.

E o Jo, meu companheiro queridíssimo, mencionou também o preconceito que generaliza pessoas com modificações corporais a presidiários ou criminosos.
Enfim, tem muita coisa a se dizer ainda sobre o assunto. Os preconceitos são infinitos e…todxs nós estamos cagando para todos! ❤