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International No Diet Day & Adivinha? Eu não sou um robô.

6 maio

No dia 6 de maio, comemora-se o No Diet Day . O movimento teve início na Inglaterra em 1992, a partir das reflexões de Mary Evans Young em conjunto com movimentos feministas britânicos, que exigiam:

– Questionar a idéia de uma forma do corpo “certo”.
– Sensibilizar para a discriminação de peso, tamanho e gordofobia
– Declarar um dia livre de dietas e obsessões com o peso corporal.
– Apresentar os fatos sobre a indústria da dieta, ressaltando a ineficácia das dietas comerciais.
– Mostrar como as dietas perpetuam a violência contra as mulheres.
– Honrar as vítimas de distúrbios alimentares

Preciso dizer o quanto simpatizo e incentivo o Fat Feminism, porque assim como toda mulher, conheço vívidamente esse tipo de opressão.

I was born this way, heeey!

Nasci um bebê grande, rosado e saudável (na verdade, eu era como uma uva rubi de quase quatro quilos). Meus pais foram informados no berçário que eu nem precisaria de uma identificação no punho enrugado, já que eu era o bebê mais rosado e gorducho daquelas bandas.
Desde essa época sempre tive um apetite destruidor. Minha mãe era sugada pelos seios até sua pressão cair. Os anos passaram, eu desmamei (com quase três anos, diga-se de passagem) e o apetite continuou firme e muito forte, assim como a minha saúde.

Aos 15 me tornei vegetariana, e agora os dezoito, vegana.

Sempre tive uma fome maior do que a maioria das meninas ao meu redor, e nunca fui obesa. Já pesei pouco e fui chamada de saco de ossos, e também já tive/tenho gordurinhas pulando pelas calças, sob protestos de “esconde isso, gorda sem noção!”. De forma geral, me encaram como “normal” (termo odioso). Não sou acima nem abaixo do peso considerado “saudável”, nem nunca fui.
Mas se eu afirmar que eu sempre fui Positive-Fat, podem me chamar de mentirosa, porque eu seria. Pois é, I Am Not a Robot!

Quando eu tinha cerca de treze anos, alguém mencionou que gordinhas eram mais sensuais, e que como eu tinha poucas curvas  (apesar de não ser exatamente magra) talvez engordando ficasse mais atraente.

Mulheres magras "não-curvilíneas" também sofrem com diversos preconceitos. Às vezes, elas comem mais que você. So stop it.

Foi pouco depois da minha tentativa de suicídio  motivada justamente por insatisfações físicas, e meu estômago estava em condições precárias. Mesmo assim, eu me forçava a comer o máximo possível para ganhar massa. Qualquer que fosse.
Alguns meses depois, ganhei algo como três ou quatro quilos, que não mudaram em nada minha completa falta de “contornos sensuais ultra-femininos” ausentes desde sempre.
Desencanei.

Depois, por volta dos 16, começaram entre amigas e parceiros afetivos a conversa de que eu tinha mesmo algumas carninhas extras, e “olha só como a modelo tal ou tal é bonita”. Na mesma época, adquiri um vício enorme em programas de cirurgia plástica, filmes e ensaios pornográficos, sites de moda e beleza…enfim, qualquer coisa que me ditasse o que é esperado e adequado para o meu corpo.
Decidi que ia abaixar meu IMC até que ele me definisse como subnutrida, a qualquer custo.
Lembro de compartilhar dietas e tabelas de calorias com amigas próximas, que também embarcaram na minha.
Nunca tive nada contra pessoas gordas. Homens ou mulheres.

É incrível como admiramos e reconhecemos beleza nos outros, mas não nos permitimos enxergar em nós mesmas.

Sempre achei pessoas de todos os gêneros, pesos e cores atraentes. Mas pra mim, aquilo não poderia acontecer. Eu precisava ser magra.

Jamais conseguiria desenvolver bulimia (sou emetofóbica. Qualquer dia falarei sobre isso por aqui) então o caminho foi algo como um princípio de anorexia.

Aprendi a contar calorias de forma surpreendente para alguém tão ruim em matemática. A meta eram 600 kcal. por dia. Para uma adolescente de 1,75m e praticante de artes marciais, digamos que não era tão pouco, mas não era exatamente suficiente pra me manter de pé.
Sempre tive pressão baixa, e ela se manifestava praticamente todos os dias. Descobri os energéticos sem açúcar, e me viciei neles.
Lembro que o dia em que me senti mais feliz foi quando consegui passar 30 horas sem comer. Foi em um final de semana. Eu estava fora de casa, e quando me ofereciam comida eu alegava já ter comido, ou que meu estômago doia (e doia, mesmo).

O pior dia foi quando precisei sair do escritório direto para o pronto-socorro. Tomar soro e adquirir alguma cor na minha cara mais pálida do que o comum.
Me pesava constantemente, e tinha medo de comida. Sentia fome, como sempre senti, e me sentia vitoriosa por resistir. Como um religioso se sente quando se esquiva dos prazeres da carne e trascende um pouco mais ao sublime.
Cheguei aos 57 kg. Fiquei doente algumas vezes, o que ajudou no “resultado”.  Tomei anorexígenos escondida. Meu sistema imunológico era um lixo, e minha estrutura corporal sempre ossuda e pontiaguda denunciava com o contar das costelas que eu estava abaixo do meu peso normal.

Como eu nunca tive um corpo exatamente feminino e delineado, começaram as reações negativas. Estava estranha, sem formas.
Percebi que era oficial: não importava se eu engordasse ou emagrecia. Eu jamais seria “bonita” o suficiente.
Desencanei. De novo.

É importante pensar que nosso comportamento se reflete também em nossas companheiras, amigas, filhas, irmãs...quando nos massacramos, ensinamos às outras que "Olha, é impossível ser feliz assim". Tiramos a inspiração de meninas que não tem a ninguém, a não ser atrizes pornôs e supermodelos para contemplar.

Sempre fui bastante interessada em atividades físicas. Fiz de Yoga a Wing Chun, e infelizmente minha rotina de trabalho me fez largar tudo. Ainda iniciei uma academia que também tive que largar, já que a faculdade começará logo. No final das contas, me sinto bastante saudável (meu hemograma confirma esta impressão) com meu peso.

Me preocupo em me manter ativa fisicamente o quanto for possível, e ainda quero voltar a lutar quando puder. Mas comida já não me assusta. Minha fome não é mais reprimida. Aprecio com satisfação minhas vontades gastronômicas e compartilho-as com felicidade.
Tento balancear alimentos de valor nutricional elevado com as besteirinhas pós-almoço. E quando a vontade vem, eu me divirto com os brigadeiros de leite condensado de soja na caneca.
Venho de uma família de gordinhxs. Alguns mais saudáveis, outros menos. A alimentação e os exercícios físicos determinam os níveis de saúde deles, e não o número das calças.
Já convivi com pessoas de manequim 38 e saúde péssima. Conheço mulheres tamanho 50 que correm, sobem escadas, gozam, vivem e dançam a noite inteira.

Ressalto as mulheres com ênfase, pois a cobrança sobre elas é quase sempre maior. O patriarcado nos ensinou que o maior objetivo de nossa vida é sermos belos acessórios de decoração, e que gordas não são atraentes. Logo, ser mulher e gorda é como assinar um atestado de “inaptidão” em nossa sociedade obcecada.

Um rapaz que come muito na juventude é viril, mesmo que ele não seja exatamente pequeno. Uma menina que coma muito, mesmo que não-gorda, é uma descontrolada, que ficará doente e não achará marido (oi heteronormativismo!). Sacaram?

Aprendi que definitivamente meu peso não me define. Nem pra mais, nem pra menos. E não deveria definir a você também.
É preciso repensar os hábitos alimentares e de vida de forma geral. Não só da população “obesa” ou com “sobrepeso”. Mas de todxs nós. Saúde importa sim, mas não se resume a manequim.
É preciso educar. Piadas e comportamentos gordofóbicos só levam a atos destrutivos e incentivam distúrbios psicológicos, físicos e emocionais em terceiros. Quem não conhece alguém que adora menosprezar com quem está “acima” do peso ditado como correto? Podem ser médicos, amigos, parentes…sempre há alguém pra vigiar o que x gordx come. Se fosse uma pessoa magra comendo lixo, ninguém se importaria.
A discriminação vai desde o menosprezo e agressividade verbais, até a exclusão social das pessoas com sobrepeso.
Não tem nada de errado, doentio ou mórbido em ser gord@. Pode-se ser saudável e feliz vestindo mais que 40. Se você afirma que nunca conheceu uma (um) gordx nessas condições é porque provavelmente não seria capaz de se aceitar caso possuísse alguma forma além da ditada como ideal pela mídia, ou, foi tão oprimidx pelo seu peso que começa a achar que a culpa de toda essa discriminação sejam mesmo dos furos no seu cinto, e não dessa sociedade estúpida e ditatorial.
Vamos celebrar uma vida com menos sabor de aspartame hoje?

Feminismo Radical: Esse Movimento Frígido Anti-Orgasmo

30 mar

Vou contar uma coisa pra vocês:  às vezes, apesar da imensa correria, acontecem umas coisas na minha vida que me levam á necessidade urgente do desabafo. Do tipo: ou escrevo, ou morro de câncer/úlcera/vomitarei meu intestino.

Hoje foi mais um desses dias. Topei, através do twitter da querida @fadamariposa, com a seguinte “notícia”: Movimento feminista pede para mulheres não mais transarem ‘de quatro’.

Claro que diante de uma chamada dessa minha reação foi um claro “MAS QUE PORRA…?!”, mas né, já que vamos sofrer, vamos sofrer informadas. Resolvi ler a tal “notícia” da página entitulada Tramado por Mulheres (abreviado como TPM, aquele período onde as mulheres viram – um pouco mais – bestas demoníacas e irracionais descontroladas, oh nooes!). Aliás, tem um “Por Mulheres” no título da página, mas opa, o post foi escrito por um tal Fabio Flores, é isso mesmo Evaristo? Enfim, coerência não parece ser muito o forte de lá mesmo, então relevemos.

Nesta pérola, descobrimos que uma tal de Helena Ramirez (boa sorte pra saber quem é, nem Google foi capaz), suposta “líder do movimento feminista no Brasil” foi entrevistada (boa sorte pra achar provas disso também) no programa do Jô, na Rede Globo (datas? Também vamos ficar devendo, viu?), e nele “afirmou” uma série de loucuras, como: “‘homem que busca sexo anal em relação hétero está fazendo estágio pra virar veado”. Porque né, claro que homofobia e feminismo caminham lado a lado! Ah, o feminismo, esse movimento que luta pela legislação sexual rígida e padronizada…not.

Claro, nós feministas somos estritas defensoras da Família, Tradição e Propriedade. Nosso Presidente do movimento tem como sobrenome Bolsonaro né amiguës?

Pra quem ainda não sacou, esse post foi publicado vinculado a tag “Jornalismo Mentira”, e NENHUM dos fatos narrados aconteceu. Ou seja, um hoax, propagado na velocidade da luz graças ao incentivo de famosos e queridos blogs como o desprezível Testosterona e afins.

Se trata apenas da 563.746.687.637.654 piadinha anti-feminista feita desde que o movimento existe, e do 784.526.894 autor que se acha MUITO inovador e crítico por vomitar os mesmos gorfos que são vomitados há séculos por quem manja nequinhas flácidas do Movimento das Mulheres.

Troféu Bolsonaro da Criatividade Jornalística pra eles!

Explico: pra começar, o movimento feminista não é feito por/para líderes. Claro, temos muitas referências, muitas mesmo, mas o movimento é plural. Recomendo imploro que você leia o F.A.Q Feminista para entender melhor alguns desses aspectos.

Apesar do que todos insistem em acreditar, o feminismo também NÃO é um movimento frígido ou anti-sexo, apesar de muitas de nós sermos anti-PORNOGRAFIA (se você sabe ler, vai descobrir que isso não é ser anti-relações-sexuais). A maioria de nós gosta, e muito, de sexo. Algumas até são pró-porn se você quer saber, porque não, não há uma catraca com uma senhora falando “você é feminista o suficiente, pode passar”. Somos plurais, e podemos discordar umas das outras em alguns aspectos. Inclusive, acho pessoalmente um lixo esse conceito de que todxs temos que ser super sensuais e tesantes o tempo inteiro. Acho a assexualidade perfeitamente normal, mais até do que essa uber-pornificação. Mas isso sou eu, e enfim, voltemos ao feminismo.

Não há liberdade política se não há liberdade sexual.

O que nós queremos é que as mulheres possam gozar sim, e muito. Dando a elas a liberdade de se sentirem confortáveis nos próprios corpos, e que possam escolher suas/seus parceirxs sem restrições desnecessárias. Queremos o direito ao orgasmo livre de performances, de amarras normativas. Que usemos chinelos, pés descalços, saltos altos, água corrente ou blush azul em mousse: tudo quando e se nos der vontade. Apenas isso.

Você dificilmente (nunca?) verá uma feminista apontado para a cara das pessoas sobre o que elas devem ou não fazer na cama, com os corpos, com os cabelos, com o demônio que o parta: nós queremos liberdade. Para nós e para os homens, que também são sempre enlatados em estereótipos ultra-masculinos, sem oportunidade de vivências e práticas sexuais que podem ser interessantes para todos os envolvidos, que deixam de ser realizados em nome de uma masculinidade padrão.

Homens: o prazer anal os transformaria em homossexuais tanto quanto o sexo oral transformaria as mulheres em lésbicas. São apenas partes do seu corpo, creia-me. Viva, experimente, mande pro inferno todas as regras que foram postas ao longo da sua vida sobre o que você deve ou não fazer para te conduzir ao prazer.

Não há um número correto ou inadequado a ser estipulado para parceiros sexuais, e se estereótipos negativos foram criados acerca disso, posso te garantir com toda a certeza do mundo que não foi o feminismo que os criou.

Nosso foco nunca foi o castramento, o encarceramento do prazer. Lutamos precisa e massivamente para que isto seja natural e livre, que haja vontade de fato, que haja desejo genuíno. Se duvida do que digo, pode pesquisar qualquer obra literarária feminista e verá o quanto desta foi dedicado ao descobrimento e exploração do clitóris, por exemplo.

Ainda assim, existem autores com grande visibilidade que insistem em disseminar tantas “brincadeirinhas inocentes” e preconceitos explícitos sobre um assunto que desconhecem por absoluto, e, no entanto, insistem em massacrar de acordo com o que ouviram por aí, sem nunca terem se aprofundado na história, no movimento, na vivência…

"Mamãe, quando eu crescer eu quero ajudar a esmagar os paradigmas branco-racistas, homofóbicos e patriarcais de merda também!"

O feminismo, assim como o movimento anti-rascista e anti-homofóbico, não prega a supremacia das mulheres, dxs negrxs ou dxs homossexuais. É tão e somente CONTRA a opressão dos mesmos.

Aparentemente, dá muito mais ibope (vide o tanto de “curtir” no facebook que esse hoax nojento vem agregando) fingir notícias que exploram mais ainda um conceito absurdo de movimentos anti-violência e opressão, enquanto a ignorância é disseminada, porque isso pode te conferir o sagrado posto de “crítico” e “anti-politicamente-correto”.

Não há do que ter orgulho no seu preconceito homofóbico / sexista / racista de merda, e tampouco há nada de crítico ou inovador nisso. Desde tempos que eu mal consigo datar o homem branco, cristão e heterossexual oprime desde os animais até os seus semelhantes. Então por favor, pense um pouquinho antes de cuspir por aí todos os vômitos que já foram expurgados antes de você, por pessoas igualmente desinformadas. A internet ta aí, amigxs, é só pesquisar um pouquinho, dói menos do que depilação com cera.

Toda Mulher Tem Uma História de Horror Para Contar & O Santo Culto da Disciplina Estética. Parte II.

15 mar

Antes de começar, eu queria pedir desculpas a qualquer um(x) que acompanhe isto aqui.

Minha vida anda misto de caos e correria, e tenho tido pouquissimo tempo para escrever. Quanto mais para escrever de forma concisa ou interessante. Ainda assim, jogo a segunda parte do post de forma quase crua, pois em verdade, este blog é muito mais sobre eu me expressar do que agradar a quem lê.

Obrigada!

A receita é simples (é?): disciplina, um alto investimento financeiro e muita força de vontade!

Disciplina na bunda.

Você, especialmente se for mulher, com certeza já ouviu esse discurso infinitas vezes.

Tudo o que você precisa na vida é de uma dedicação sobre-humana (independente do seu dia ter sido uma completa desgraça e seu estado emocional estar em frangalhos), e muita disciplina. Pronto! Será uma mulher esculpida nos moldes da realização pessoal promovidas nas revistas femininas.

Se qualquer característica física ou comportamental sua não for cuidadosamente planejada, queira acreditar que você é um desastre ambulante.

Seu cabelo está no sentido vertical quando você acorda? Dome-o!

As roupas dos seus doze anos de idade não passam mais nos seus quadris? Tome as rédeas da sua vida, mulher!

Aquilo ali na sua coxa é uma celulite, sua gorda preguiçosa?

Beth Ditto (AQUELA LINDA ♥) e eu: ligando sooo much para celuliteZZZzzzZZZzz

Não sabe como erradicar esta praga danosa do seu sistema vital? Venha conosco, temos produtos químicos e procedimentos cirúrgicos invasivos que resolvem todos esses seus pecados! Risco de alergias ou até mesmo óbito? Tem, é claro. Mas antes morrer do que viver com essa barriga, não é? Hm…nem é.

Vendem para nós o conceito de que tudo que fugir das rédeas da padronização corporal estatizada pelo patriarcalismo, deverá ser punido. E cabe a nós essa patrulha.

Não importa a circunstância, você jamais deve ultrapassar sua meta calórica do dia (sim, sua comida não deve ser medida pela sua fome ou pelos benefícios de cada alimento. Seu prato deve ser um amontoado de números). Ultrapassou? Escolha suas alternativas: Morrer de Culpa; Passar Fome Pelo Resto do Dia ; Esgotar o Resto do Dia na Academia ; Bulimia.

Simplesmente vivenciar a vida com o corpo que você possui não é uma opção. Afinal, você não pode ser feliz se for gorda, “assimétrica”, ou indisciplinada.

“Eu sou a favor de cirurgia plástica quando a mulher não se sente bem consigo (porque né, se sentir bem com TODO mundo falando que você é horrível por causa do seu nariz é super fácil!) Só sou a favor se for mesmo muito reta (no quesito seios) ou muito gorda e exercício não resolver (os exercícios já te deixariam saudável, mas “saudável” jamais será bom o bastante, né? e qual é a dos peitos, gente, sério? tamanho e formato de seio determina sucesso na vida?).”

Disciplina na bunda, parte dois. Provando que eu, você, Beth Ditto e todas as outras mulheres somos muito erradas, ok.

Perceba, querida, que ninguém perguntou como vão os níveis de colesterol do seu sangue, ou se aquela sua anemia de infância foi resolvida. Sua saúde só será um argumento somado aos montes de ofensas contra as suas abomináveis únicas e singulares particularidades físicas pessoais.

Pessoas magras também podem ter colesterol alto, anemia, diabetes, falta de ar, e…bom, tudo que uma pessoa gorda pode ter.

Mas ainda assim, ninguém nunca se preocupa em apontar na cara de uma pessoa magra e adequada pra falar que ela vai morrer doente em cima de uma cama. Mas a real é que todxs podemos.

Atividade física e alimentação correta são essenciais sim para o bem estar de forma geral. Porém, ter um corpo são não significa vestir manequim x ou y. Mas não é do interesse midiático passar este tipo de informação. Não importa que você esteja perfeitamente saudável. Importa que você seja magra – na barriga, braços e rosto -, obesa – nos seios, coxas e glúteos, PORÉM, com uma definição muscular digna de um eqüino -.

Disciplina no cabelo. NO CABELO, GENTE.

Não importa se você se sente bem ou mau. Se ganha pouco ou muito. Se tem tempo, prazer ou interesse em suar com os exercícios da revista feminina do mês. Não interessa se você pariu ontem, vá direto para a mesa de lipoescultura se não quiser ouvir repetidamente que famosas saem “ilesas” do pós-parto, ao contrário de você, sua porca. Resumindo: VOCÊ não interessa. Interessa o quanto você vai gastar – e se desgastar – problematizando seu único e melhor veículo para vivência: seu próprio corpo.

Ele é seu. As marcas que carrega são conseqüências da sua história. E se ninguém nunca tivesse apontado para você enumerando o porque isso ou aquilo estão errados, você jamais consideraria ferir a si mesma com fome e procedimentos cirúrgicos para finalmente ser reconhecida como bela para quem só te conhece e julga por fora.

Quer uma rotina que exige muita disciplina e esforço, mas que vai te deixar linda? HÁ!

Mas antes, mais uma dica dos nossos patrocinadores! "Lixe sua pele inteira e comece do zero!"

Exercite sua auto-estima. Olhe-se no espelho e se valorize  – sem emagrecer 7kg antes de poder fazer isso, porra -. Parece clichê, mas ninguém nunca nos ensinou a olhar no espelho com a intenção de admirar, e não brincar de jogo dos “mil” erros.

Preocupe-se com o seu corpo sim. Com a sua capacidade de se defender sozinha, por exemplo. Sabia que existe uma arte marcial focada especialmente nisso, e grupos de mulheres que a ensinam pelo mundo – e país – inteiro? Ou adquirir força o suficiente para trocar um pneu sozinha. Se sua saúde está bem e se seu corpo está bem nutrido. Não se surpreenda se mesmo em perfeita saúde e capacidade física, você não se pareça nada com as garotas dos comerciais de cerveja…

Revide quando alguém te ofender ou subjugar. Abaixar a cabeça nunca fez revolução nenhuma. Reveja os seus conceitos. Muitas vezes somos condicionadas a acreditar em um padrão único de beleza, mas admiramos diferentes características física em outros humanos. Por que não em nós mesmxs?

O que há de realmente tão errado com o seu corpo que precisa ser corrigido de forma tão feroz, se sua saúde está bem? O que há para ser tão culpado e exigido de você, sendo que nada disso atrapalha verdadeiramente o que você é, ou como age?

Não se culpe se mesmo ciente disso tudo, você ainda se sentir mal, cobrada e inadequada. É preciso muito mais força para levantar a cabeça e nos orgulharmos de nós mesmas, de nossa luta, de nossa história e de nossos corpos, do que para seguirmos em fila neste abatedouro alienador de mulheres.
Disciplina? LUGAR DE MULHER É NA REVOLUÇÃO!

Seu corpo é um campo de batalha. A luta de uma, é a luta de todas, e seguiremos unidas.