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A Mão Que Afaga.

31 out

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Quando eu era pequena, falava que ia ser bióloga. Daí descobri que biólogo estuda muito, e como eu só queria “ajudar os bichinhos” resolvi que seria veterinária. Mais pra frente, descobri que seria quase inevitável fazer veterinária e não utilizar animais como cobaias (posso estar errada, mas foi a informação que tive), então desisti e voltei pra biologia.
Não curto essa ideia de que para ser alguém ou fazer algo eu precise entrar para a academia. Tenho infinitas críticas a este modelo de educação, sobre os quais pretendo dissertar eventualmente. Mas enfim, entrei.

E me fodi, é claro.

Mas claro, há quem se foda muito mais.

Pra começo de conversa, assim como a esmagadora maioria dos meus coleguinhas de classe, eu não consegui passar na USP (nem na Unesp, nem nada que exija esses conhecimentos que eu não tive na escola).
Daí finalmente chegando na universidade particular, descobri que mesmo lá, o diploma superior, o discurso acadêmico ou científico tem todos aquele status que eu tanto desprezo de superioridade.
Ah, o templo do conhecimento! Acessível somente para aqueles que tiveram acesso a uma educação de qualidade durante a vida, ou que podem pagar por uma alternativa. Que lindo!
Me deparei com quem ache que ensinar evolução nas escolas seja um crime, mas também conheci – e em quantidade incrivelmente maior – quem ache que a ciência legitime tudo.
Aliás, minto, nem tudo: alguns são contra aborto ou violação de alguns direitos humanos.
Mas com animais não-humanos a história fica bem diferente.

Vale a pena, sempre vale a pena, né?

Meu ponto não é dizer que zoólogos e componentes de comitês de bioética sejam, de forma geral, carniceiros especistas inescrupulosos.
Na realidade, o único termo acima que realmente parece se aplicar a todos os que conheci até o momento seja “apenas” especista.
Muita gente já tinha me dito que eu teria que lidar com isso, que se trata de um status quo científico, mas por algum motivo – ingenuidade? esperança? – eu não acreditei.
Infelizmente, o que se observa é de fato isso: os componentes de comitês de ética e experimentação animal são, comumente, veterinários, biólogos e profissionais dos quais se espera algum entendimento entomológico. De quem se supõe algum respeito pelas vidas das quais eles são os juízes de decisão.
A realidade, entretanto, é que a mão que afaga é a mesma que apedreja.

Matar dez para salvar vinte. Mutilar cem para “ter uma média de resultados”. Torturar, enclausurar e utilizar de diversos modos de contenção estressantes e desgastantes: tudo se justifica em prol do avanço científico.
A pior parte, é que quando se tenta debater entre alunos ou mesmo com os tais profissionais sobre a questionabilidade ética desdes procedimentos, é que a impressão que os mesmos tem sobre o assunto é a de que um grupo resistente e sofredor de cientistas se degladia diariamente para produzir conhecimento e curas mirabolantes, se esgueirando das “duras punições” do movimento ambiental.

Movimento? Somos uns poucos gatos pingados. Tomamos surras diárias com diversas desculpas: progresso científico, econômico e humano.
Aqueles pelos quais lutamos não tem voz. São capturados e utilizados da forma que melhor nos convir. Aqueles que mais conhecem seu funcionamento – capacidades, potencialidades, desejos, instintos e que, esperava-se, fossem seus defensores, são os que legitimam sua tortura com um vocabulário rebuscado cujo objetivo é um só: ajudar sua própria espécie. Quando muito isso.
Sem mencionar xs que militam por diversos outros movimentos, mas acreditam no utilitarismo animal e no especismo como verdades inquestionáveis.

Ainda tento digerir o enjôo que me causa notar o quanto o conhecimento acadêmico e o progresso científico legitimam interesses egoístas.
Dia a dia acredito que não há limites para a traição humana.


Trabalho Abstrato: O Caminho, A Verdade e a Vida.

24 out

Não é novidade nenhuma.

Meu pai, moleque de tudo, devia ter cerca de doze ou treze anos quando ouviu do ricasso – cliente do clube pro qual ele trampava – que o garçom (meu pai) era um animal por ter servido o pedaço de melancia sem garfos.
Isso foi no mínimo a uns 30 anos atrás. Mas não é novidade que ainda hoje esse tipo de comportamento é padrão entre a alta escala empresarial.

Perdi meu emprego. Encontrei uma ocupação.

Quando eu escrevi o Alguém na Vida, vomitei meio que aos soluços os sustos que ainda hoje tomo com o mercado de trabalho.

Não sou de me prender em valores familiares (do modo com o qual elas são concebidas), mas me orgulho muito dos meus pais por serem quem são. Também não costumo me prender a origens, mas, genealogicamente falando, venho de uma longa linhagem de gente pobre e fodida, que aos poucos tem ascendido na nova classe média. Agora temos computadores e vamos em manifestações promovidas pelo Facebook.
Alguns de nós já até estamos conquistando diplomas universitários (parabéns, mãe!).
Talvez esse tipo de “ascendência” econômica seja o responsável pela minha ilusão. Acreditando que os padrões atingidos por uma grande parcela social tenha subido, acabo me surpreendendo com a falta de ética daqueles que eu acreditava serem os responsáveis por essa inclusão: as diretorias.

Recentemente, migrei por entre restaurantes com filosofia zen e naturalista, cujo renomado chef grita, esperneia, empurra com violência e solicita serviço através de gritos: “Vai rápido, corre e entrega tudo sem derrubar nada, porra!” para os garçons.
E acredite: eu bem que gostaria de estar sendo metafórica.
Também transitei por pequenas mídias alienatórias, onde eventuais expedientes eram salpicados de berros esbravejantes da sala da presidência. O motivo? As vendas não estavam satisfatórias.
Alguns vendedores precisavam sustentar filhos pequenos, outros possuiam dívidas enormes. A marmita, preparada com esforço, sacolejava por muitos quilômetros dentro do transporte público.

A presidência? BMW e Hayabusa na garagem.
Pausa para ir ao banheiro era um privilégio constantemente reafirmado como um ato supremo de benevolência, apesar dos funcionários passarem praticamente dez horas trancados na caixa cinzenta.
Ainda assim, a equipe é constantemente humilhada por não encher os bolsos da alta direção da forma esperada.

Já faz quase 30 anos que meu pai foi chamado de animal por não levar garfos para um engravatado sorver seu pedaço de melancia. Entretanto, há cerca de três dias atrás ouvi um discurso que quase me fez procurar por talheres em meus bolsos para fornecê-los a minha senhoria. O fato de não enviar relatórios acerca de todos os meus movimentos (se possível incluir os fisiológicos – atualizados de 3 em 3 minutos) me fez entender que ainda hoje, mesmo nos trabalhos mais abstratos, somos obrigadxs a desempenhar funções vazias de sentido, ignorar nossos ímpetos mais básicos de entretenimento mental e felicidade simples.
Durante este tempo, abandonei a escrita. Meus textos, minhxs amigxs, leituras e músicas. Mesmo meus estudos universitários e minhas horas de sono foram considerados luxos aos quais não pude prestar atenção.

O que mais me entristece é notar que nivelemos tudo por baixo. “Meu emprego é ruim, mas pelo menos paga em dia”. “Meu patrão me oprime, mas pelo menos não me assedia sexualmente”. “Saio mais tarde todo dia e não vejo meus filhos acordados, pelo menos recebo hora extra”.
É nivelando por baixo que nos mantemos escravos do trabalho abstrato e do vício empregatício em explorar toda a força produtiva que nos resta. Tenho grandes dificuldades em imaginar a mudança acontecendo inserida neste contexto de medo, com o qual ainda me identifico.
Eu mesma tenho medo de passar fome, quem dirá aqueles que com muito menos precisam fazer muito mais.

Mas ai de mim! Ousando discordar do fato de que pessoas que moram a mais de 25 km de distância do emprego e chegam até ele através da superlotação dos trens e ônibus paulistanos, talvez, quem sabe, só supondo, não merecessem esporros e advertências pelos cinco minutos de atraso.
Talvez o Krasis volte a ser atualizado com maior frequência…E também estou aceitando o e-mail de RH’s para envio de curriculuns vitae.
E apesar de eu soar classe-média-sofrista, esse vídeo explica muito melhor tudo o que poderia ser dito sobre o assunto.

Toda Mulher Tem Uma História de Horror Para Contar & O Santo Culto da Disciplina Estética. Parte I.

28 fev

Sempre tive a necessidade de discorrer sobre aceitação física, pois quando mais jovem (e ainda hoje) tive muitos problemas com isso. Costumo dizer que no patriarcado, mulher nenhuma tem o direito de se sentir bem consigo mesma.

Primeiro, nos jogam um padrão absolutamente inatingível, e dizem que aquilo deverá ser a prioridade da sua vida, caso contrário nunca será feliz. Depois botam um preço nele, que dificilmente você poderá pagar. E se conseguir, é claro que será chamada de imbecil-fútil. Mas eu já falei sobre isso naquele post, não foi?

E provavelmente falarei mais algumas vezes. Isso porque realmente, para mim, a aceitação física teve um peso grande na construção do meu caráter.

No meio feminista, é comum dizer que “toda mulher tem uma história de horror pra contar”. Uma das minhas piores, inclui uma tentativa de suicídio aos doze anos de idade.

Desde criança, eu nunca fui exatamente bonita. Não que houvesse realmente algo de errado comigo. Eu só não me adequava ao padrão de pequena Miss. Para as demais crianças, era bastante estranha (minha família era religiosa na época, e apesar de desde aquela idade eu já não acreditar em nenhuma baboseira dita nos templos sagrados, o cabelo comprido e cacheado combinado com as roupas folgadas, escolhidas pelos adultos, me renderam uns bons anos de bullying).

Nunca vi graça em ser ultra-feminina. Cresci sendo rotulada de “Maria-macho” por causa das roupas ou do comportamento, e ao longo dos anos, passei de crente-estranha para sapatão-satanista-que-ouve-metal.

Amigxs, namoradxs…quase todxs ao meu redor diziam o tempo todo o que eu deveria ou não deveria fazer comigo mesma. Era “escrachada” demais, boca suja demais, alta demais (era considerado vergonhoso ser mais alta do que todos os meninos da classe), delineada e delicada de menos. Que se fosse mais assim e menos assado seria melhor…

Pra completar, descobri que era traída pela pessoa com quem me relacionava na época.

Entrei numa depressão colossal. Quando estava acordada, só chorava. Mas dormia a maior parte do tempo.

Meu pai e irmã foram as pessoas que mais me apoiaram nesse período.

Minha irmã, a esquerda, e eu, na fase em que era motivo de piadas e chacotas diversas.

Mas nem com o apoio deles foi possível resistir. Em um domingo de fevereiro, aos doze anos de idade, eu me tranquei em um banheiro, com todos os remédios que haviam em casa (inclusive alguns veterinários), uma garrafa de água, e engoli um a um.

Lembro até hoje do som compulsivo do alumínio estralando. Plec, plec, plec. Pílulas de todas as cores e tamanhos. Mais um gole de água. Plec, plec, plec…Não sei quantas foram. Eram mais de trinta, com certeza.

Joguei as embalagens fora. Saí do banheiro.

Subi as escadas e fui me despedir do meu pai. Abracei-o, disse que estava com sono, e que iria deitar no quarto dele. Ele disse que me amava, e perguntou se eu estava bem. Afirmei positivamente com a cabeça.

Deitada, pensava na minha família. Nos meus cachorros. No quanto eu os amava. Repetia mentalmente que não valia a pena viver daquele jeito, e que tinha feito uma boa escolha. Eu nunca seria amada, e ser amada era tudo o que importava. Eu jamais seria bonita. Eu era horrível. Sempre fui, sempre seria. Ninguém nunca vai gostar de mim.

Taquicardia. Sonolência.

Meu pai. Minha irmã. Eu nunca contei para eles, mas foram as pessoas que me ocorreram naquele momento que me fez voltar atrás.

Com as pernas trêmulas e o coração disparado, levantei da cama e procurei o meu pai pela casa.

Ele estava revirando o lixo. Tinha achado as embalagens de alumínio. Quando eu comecei a dizer que tinha feito algo, ele já tinha me pego pela mão, perguntando o que eu estava sentindo, e se agüentaria o trajeto até o hospital.

Minha irmã quis me socar, falando que não me perdoaria.

Meu velho foi comigo até a emergência, fazendo cafuné e falando que eu era linda, que cuidaria de mim.

O médico que me atendeu sentou na beira na minha maca, e conversava comigo, que me esforcei pra responder do melhor modo possível, já que um cano atravessava meu nariz até o meu estômago. Você está grávida? Não. Brigou com o namorado? Não. Foi abusada sexualmente? Não! Quer conversar? Não.

Eu me sentia uma merda. Tinha uma família ótima, uma vida inteira pela frente, era privilegiada de diversas maneiras, e não me sentia digna de respirar, simplesmente porque não era boa o bastante. Não era bonita. Não merecia.

Após algumas horas de lavagem estomacal e soro, recebi alta com um papel que me encaminhava ao psiquiatra, e uma advertência de que provavelmente meu estômago nunca seria o mesmo (minha gastrite e refluxo crônicos estão aí para provar que é verdade).

Confesso que a idéia do suicídio ainda me ocorreu muitas vezes pelo mesmo motivo. Eventualmente, era substituído pelo desejo de enriquecer para realizar infinitas cirurgias plásticas que finalmente me colocariam nos eixos. Antes de dormir, imaginava mentalmente meu corpo sendo modificado pelos procedimentos. Pesquisava sobre isso o dia inteiro. Sabia o custo, procedimento e risco de cada cirurgia, e estava completamente disposta a passar por tudo, pois acreditava em uma recompensa maior.

A brincadeira doentia ensaiada na mente de muitas mulheres: O jogo de somar e diminuir medidas.

Eventualmente, me aprofundei nos estudos feministas, e passei a encarar a questão de forma racional. A compreensão de que o problema não era eu, e sim a opressão patriarcalista, me empoderou, e me permitiu conhecer dezenas de mulheres que se sentiam exatamente da mesma forma. Sempre somos gordas ou magras demais. Nossos seios são muito pequenos, muito grandes, muito separados, muito caídos. Nosso cabelo é ruim (ruim para quem?). Nossa vagina é estranha. Somos ossudas ou nossa distribuição de gordura é “mal localizada”. Nosso cheiro, nossos pêlos, nossos fluídos vaginais, nossa menstruação…tudo é digno de vergonha. É preciso reformar. É preciso disciplinar.

Como não se sentir oprimida? Como vivenciar e experimentar a vida e o mundo, sendo que o seu veículo para isso, o seu corpo, é algo condenável?

Na segunda parte deste post (porque eu sei que não é fácil ficar horas lendo no PC), eu falo sobre disciplina e aceitação corporal.

Obrigada a todxs que lêem!

Comece uma revolução. Pare de odiar o seu corpo!