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Reconsiderações Acerca da Slutwalk.

16 maio

Yep. Aquilo é um "cafetão" na Slutwalk.

Comecei uma discussão no post anterior, e procurei ouvir ao máximo todas as opiniões que chegaram até a mim pelos comentários, ou pelo meu Facebook. Nesse meio tempo, alguns posts de mulheres mais informadas sobre o movimento apareceram, bem como de outras mulheres que como eu, não sabiam exatamente o que pensar.
Estes dois que eu linkei ali em cima me ajudaram a, decididamente, repudiar a chamada Caminhada das Vagabundas. Convido a todxs que se aventuram um pouco pela língua inglesa e querem entender mais sobre o assunto ler os dois na íntegra.

As autoras tiveram conclusões que eu não seria capaz de reconsiderar, portanto, traduzo algum dos pontos principais.

Meghan Murphy no – tapa na cara –We’re Sluts, Not Feminists. Wherein my relationship with Slutwalk gets rocky. (Nós somos Putas, Não Feministas. Onde a minha relação com a Slutwalk fica difícil) sintetiza:

“Essa noção de re-apropriar o termo “vagabunda” sugere que as mulheres, possivelmente em algum tempo mais feliz, utilizassem o termo de forma apropriada para seu próprio benefício. Mas é sabido que nunca existiu uma cultura em que a solidariedade das mulheres nos obrigou a nos definir pelo o número de homens que tivemos ou quão proximamente estivéssemos quanto as condutas de vestimenta pornográficas. Quando você está protestando contra a sua própria opressão como um membro da classe do sexo, é problemático e de eficácia revolucionária questionável estampar você e seus companheiros de luta com a marca do opressor.

Figura que representa a página em construção da Femen. Uma mulher magra, loira, ideal, com seios fartos e empinados...

Vi muitos homens apoiando a Slutwalk. A maioria, porque sabia que mulheres estariam com pouca roupa. Mulheres bonitas, eles esperavam. As gordas e peludas que ficassem em casa. Afinal, mulher feia que é estuprada deveria é agradecer, não é Sr. Rafinha Bastos?
As mulheres apoiavam a Caminhada porque acreditam em algo que todas nós compartilhamos: mulher nenhuma é estuprável. Não importa o que vista, que horas sejam, ou quão bêbada esteja. Isso, não tenham dúvidas, não é alvo de críticas por nenhuma das mulheres que se opõem ao Slutwalk.
O debate aqui é sobre o viés que foi usado. O viés foi parecido com o do grupo ucranino Femen: mulheres com pouca roupa e corpos ideais chamando atenção para tal causa.
(A comparação entre a Slutwalk e o Femen foi feito pela Lola, aqui)
No Femen, assim como na Slutwalk, ganham destaque as mais bonitas. A mídia explora as curvas e a exposição, e blogs masculinos aprovam. Reforçam em coro que esse deveria ser o único tipo de protesto feminista existente. Não acredita em mim? Procure a opinião daquele (que eu não vou linkar aqui) que é um dos maiores sites do gênero, cujo nome remete ao idolatrado hormônio macho.
E aí temos dois grandes problemas.
O primeiro, é o já citado aqui: Mulheres prostituídas se sentem profundamente ofendidas ao verem pessoas privilegiadas tomando um termo tão ofensivo para si, sem nunca terem vivenciado a silenciadora opressão das reais escravas do comércio sexual. Estimular o estereotipo de “puta” nada trás de revolucionador, especialmente quando você brinca de fazê-lo por uma tarde, cercada de segurança policial (aquela mesma segurança que acusou vocês de serem as responsáveis pelos casos de violência).

Segundo: o que se muda de fato? O que temos é uma horda de machos punhetando as imagens de mulheres que se consideram libertárias sexuais, e um grupo de mulheres que consideram o estereótipo do burlesco, do prostituído, do pornográfico, algo revolucionário.

Mulheres adoram pornô etcZZzzZzzzZZZz.


Nas palavras de Meghan:

Por que, exatamente, o feminismo tem de ser ‘sexy’ para ser apoiado? Bem, a resposta, é óbvia. É para que seja palatável aos homens e às pessoas que não fazem muita questão de desafiar a ideologia dominante ou olhar para as raízes do patriarcado. Então isso [se vestir e entitular-se assim] não causa qualquer incômodo. E agora, um espaço foi criado, onde não só é aceitável, mas encorajado que os homens chamem as mulheres de putas (!);”

Meghan investiga e explicita de fato as intenções da organização do evento, e afirma:

“Assim como Suicide Girls e pessoas do movimento neo-burlesco argumentam, a Slutwalk parece encorajar a perspectiva de que a objetivação é ‘ok’, enquanto nós estivermos objetificando as mulheres que se desviam da norma perpetuada pela mídia (ou seja, loiras, magras, brancas, convencionalmente atraentes). Fazendo lutas feministas palatáveis para homens ou mulheres antifeministas.
Esses comentários tendem a ser recebidos com louvor (porque se você está se sentindo atraído por garotas “gordinhas” é revolucionário! Que homem pensante você é!) e apoiados por argumentos como “se você está objetificando a si mesma então está permitido”.

Centenas de machos de apinham nos murais das Slutwalks para darem seu apoio. Eles AMAM as "Putas"!

O que causa aquela boa dicotomia feminista, entre feministas agradáveis e desagradáveis.
Ou seja, se você se depila, é cheirosinha, usa roupas sensuais e considera o comércio sexual empoderador, você é querida.
Se não reproduz esse tipo de comportamento, é radical, feminazi e repulsiva.
O problema não é que as mulheres façam qualquer dessas coisas, mas sim que sequer questionem os reais motivos por trás disso, ou quais mudanças possam ser de fato atingidas através desse tipo de mobilização.

Para Rebecca Mott: “Slut é um termo masculino de profundo desprezo e ódio por todas as mulheres e meninas -, para a Puta Verdadeira [aquela realmente inserida no comércio sexual], os homens estão dizendo que ela não é nada senão uma coisa que ele vai foder no lixo.

Como é possível querer redefinir/tomar posse disso [dessa palavra]?”

Por que é tão fácil apoiar falsas putas (mulheres privilegiadas em roupas sensuais de acordo com o desejo do patriarcado objetificador) mas tão difícil apoiar a causa feminista quando fora dos padrões desejáveis, mesmo que lutem pelas mesmas coisas?
Para considerações mais profundas, recomendo muito que leiam os posts de Rebecca e Meghan. Se for de interesse de alguém, posso tentar traduzí-los eventualmente.

Fato é que a Slutwalk vai ocorrer em Junho em São Paulo, próxima a minha casa. E eu me sinto finalmente decidida quando afirmo que não comparecerei.

Slutwalk, Prostitutas e Nossas Apropriações.

11 maio

Dia 24 de Janeiro de 2011, um representante da polícia de Toronto afirma que “Mulheres deveriam evitar se vestir como putas (sluts), de modo que não sejam vitimizadas”.

Em abril, 3 mil pessoas, homens e mulheres, saíram pelas ruas de Toronto em protesto ao contexto de “puta” e “mulher estuprável”. É a Slutwalk (Caminhada das Vagabundas).

Com a repercussão dos primeiros protestos, o movimento já se espalhou para outras cidades do Canadá e para cidades de Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Grã-Bretanha, Holanda, Suécia e até mesmo da Argentina.

No último sábado, cerca de 2 mil pessoas participaram de uma SlutWalk em Boston, nos Estados Unidos, sob gritos de guerra como “Nós amamos as vagabundas” e “Jesus ama as vagabundas”.

Outros eventos semelhantes estão sendo programados em outras cidades da Inglaterra, da Escócia e do País de Gales.

Tudo me soava brilhante. Quase toda mulher já foi chamada de puta, vadia, rodada. Pode ser por seu comportamento, sua roupa, ou simplesmente por portar uma vagina. A maioria de nós já ouviu que não deveria sair tarde, sozinha ou com aquele tamanho de saia se quiséssemos voltar invioladas.

Não nos diga o que vestir. Diga aos homens para não estuprarem.

Vivemos em uma sociedade que ensina “Não Seja Estuprada”, ao invés de “Não Estupre”.

Portanto, a Slutwalk e seu espírito de protesto me cativaram. A princípio.

Eventualmente, surgiu no Facebook uma nota de uma moça chamada Rebecca Mott, entitulada “Razões Pelas Quais Eu Não Irei Na Slutwalk”. Resumidamente (e numa versão traduzida por mim), Rebecca diz que como mulher ex-prostutída, se sente profundamente ofendida com a Marcha das Vagabundas.

 “Eu não acredito que reclamar a palavra “Puta” faça algo para dizer aos homens violentos que seu comportamento está fora de controle (…) Reivindicar a palavra “Puta” não faz com que a história suma num passe de mágica.

(…) A Marcha das Vagabundas é do interesse de mulheres privilegiadas, que podem brincar com o papel da Puta. Se vestirem como prostitutas, carregarem placas com dizeres como “Vagabundas Dizem Sim”, e imaginar que mulheres dentro do comércio sexual são empoderadas, conforme nos chamam de Irmãs.

A Marcha das Vagabundas é sobre dizer que o estupro é ruim quando feito para mulheres e garotas “reais”, não importa o que elas vistam ou aonde vão. Mas ignorar ferozmente os estupros diários e a tortura sexual das mulheres e garotas dentro do comércio sexual. Isso é ignorado porque para as pessoas do Slutwalk, a prostituição é só um trabalho – então nós não devemos julgar ou mesmo questionar isso muito profundamente.

Algumas mulheres no Slutwalk acham que é radical se vestir como uma visão estereotipada da vagabunda, ou a versão cartunesca da puta. Podem chamar isso de burlesco, mas para as mulheres que saíram da prostituição é um insulto.

Vestir-se como uma prostituta por uma noite é muitas vezes feito a partir de uma posição de profundo privilégio. Você pode fazer isso porque supõe que estará segura, e que se você fosse estuprada haveria indignação. (…) Enquanto mulheres e meninas prostituídas não possuem a menor proteção contra estupros (…)”

Putas dizem sim / Orgulhosa de ser Puta. Cartazes da Slutwalk.

Rebecca diz que “brincar de puta não é ser uma puta”. E sinceramente, não me considero qualificada para discordar dela.

Se mulheres saem na rua protestando pela liberdade de seus corpos, é sempre preciso fazê-lo em quantidades massivas, preferencialmente acompanhadas e apoiadas por homens. Assim, deixam de ser “propriedade pública” e passam a ser “propriedade privada” (o que obviamente é uma merda).

Mas nas noites, nos becos e nas esquinas, não se vê liberdade corporal. Se vê comércio, venda, exploração. E estas mulheres não tem de fato tamanho privilégio.

Nos estereotiparmos por algumas horas e chamarmos a essas mulheres de irmãs chega a ser de fato ofensivo. Não porque elas sejam inferiores a nós. Mas porque somos privilegiadas em relação a elas. Não somos nós que estamos sendo violentadas e espancadas diariamente nas esquinas. Claro, pode acontecer conosco, afinal temos uma vagina. Mas são elas quem correm o maior risco.

Ao mesmo tempo em que acho importante defendermos nossa liberdade corporal e sexual até o fim, questiono se o método eficaz para isso seria nos transformando naquilo que nos objetifica e sexualiza de forma heteronormativa e comercial desde sempre.

O comercio sexual não é glamouroso ou libertador em nenhum aspecto. Por que de repente chamamos a essas mulheres de “irmãs”, como se conhecessemos seu real drama diário, e nos consideramos em pé de igualdade de luta?

Precisamos defender sim a liberdade das putas e das demais mulheres. Irem, virem, gozarem e vestirem o que bem entenderem. Mas o viés é mesmo nos apropriarmos dos termos e caricaturas, como se a partir disso toda a história de opressão desaparecesse sob um novo rótulo libertário?

Algumas outras mulheres ex-prostituídas comentaram que se identificaram com o escrito pela Rebecca. Novamente eu questiono: se elas que são oprimidas se sentem ofendidas, quem somos nós, mulheres privilegiadas, para dizer que isso é exagero?

Por outro lado, quem sou eu para julgar apropriações? O movimento negro, por exemplo, reivindicou a palavra “pretx” para si, e vai muito bem com isso, obrigada.

É fato que somos coagidas e ameaçadas por sermos mulheres. Nos tornamos gradativamente mais estupráveis conforme a situação em que estamos (desacompanhadas, com roupas mais curtas ou chamativas). Por isso, não poderiamos reclamar para nós o título de putas?

E a subversão que há em um homem se vestir estereotipadamente como mulher? Pode ser ofensiva para nós, uma vez que eles não vivenciam realmente a opressão patriarcal no seu dia a dia, além de “brincarem” justamente com um modelo ofensivo para nós. Mas seria uma transgressão invalidada por isso?

Rebecca é uma ex-prostituta. Sua opinião importa muito para mim e deverá ser ouvida pelas demais mulheres, penso. A discussão vai longe, e eu ainda não decidi muita coisa sobre ela, além do fato de que isso precisa acontecer.

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Atualizado: Após muita discussão, fiz algumas reconsiderações acerca do movimento.