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Faltam 43 Dias.

23 fev

No cansativo zapear da TV, observo um rapaz branco, no auge seus vinte e poucos anos.

Ele entra no escritório e, ao desembalar-se do terno que trouxe da rua, também desembrulha um picolé. Na primeira mordida, um teatral sol de cartolina nasce, e o chão do escritório se transforma na morna areia da praia. Uma música feliz incendeia o ambiente de trabalho, sob olhares de questionamento dos companheiros de classe.

O lema do que vi não deixa dúvidas, ao que anuncia o narrador: “clima de férias até no escritório”. Algo como “desfrute o prazer” também devia estar associado.

Fui dormir, porque no dia seguinte, o dever chamava.
Às vezes eu penso que escritório é o novo chão de fábrica. Telemarketing, é o novo lixeiro (estuda, senão vai virar atendente!). É pra esses lugares que todo mundo vai agora, saindo pelas manhãs que sobem no horizonte das cidades-dormitório, rumo ao que é importante na vida.

No trajeto, deslocando-me pelas propagandas estampadas no cinza da cidade (umas das poucas cores que nos permitem contemplar, claro, graças à função pedagogicamente consumista, e ao não-vandalismo incluído), mais uma vez, a tal mensagem do picolé aparece. Dessa vez, vendendo um capuccino em pó. Frondosas palmeiras e guarda-sóis estão representados na espuma da bebida vendida. Um momento de relaxamento em meio à enchente de caos, carros e gente.

Parei pra ver a cara de quem passava. Nas saídas dos metrôs, várias faces bronzeadas, de quem foi salgar o pé no mar durante os poucos dias sequenciais de descanso que terá no ano. Na mão, uma mala de viagem, cheia de amargura. Um rancor do patrão estampado na cara, que não há fitinha de nosso-senhor-do-Bonfim que desamarre.

Em São Paulo, capital, não tem mar, (você sabe), mas tem picolé e capuccino, pra lembrar que mesmo o mar sendo de graça (e ele é), o mais perto que você pode aproveitar dele agora é durante uma pausa na labuta: e pagando por isso.

Se ganhar na loteria, comemora. Se pisarem no seu pé, lá no busão socado, enfia a cotovelada no desgraçado. O carro da sua frente tá lento? Buzina, repreende o filho da puta. Não é seu companheiro se te atrasa pro trabalho, e pode te queimar com o patrão.

Se quiser reclamar por alguma coisa, que seja pela desclassificação da sua escola de samba. Mas não do progresso, essa benevolente entidade que te tirou o sol na cara, o mar no pé, a água de coco na mão, e te trouxe aqui, pra beijar o rosto da gerente, e xingar a garçonete do restaurante.
Feliz 23 de Fevereiro de 2012. Agora você já pode voltar a juntar moeda, pra comemorar a próxima seqüência de dias em que vai pagar pra fazer o que sua natureza realmente classifica como felicidade.

Esther Sá tem 19 anos, trabalha desde os 16, e desde lá não sabe o que é férias. Passou o feriado dando conta dos clientes incrivelmente ofensivos do telemarketing, que têm plena convicção de que todos os problemas do mundo são culpa dela e da raça escrota a qual ela pertence. Recentemente, desaprendeu a fingir que consegue sorrir ao patrão.

Trabalho Abstrato: O Caminho, A Verdade e a Vida.

24 out

Não é novidade nenhuma.

Meu pai, moleque de tudo, devia ter cerca de doze ou treze anos quando ouviu do ricasso – cliente do clube pro qual ele trampava – que o garçom (meu pai) era um animal por ter servido o pedaço de melancia sem garfos.
Isso foi no mínimo a uns 30 anos atrás. Mas não é novidade que ainda hoje esse tipo de comportamento é padrão entre a alta escala empresarial.

Perdi meu emprego. Encontrei uma ocupação.

Quando eu escrevi o Alguém na Vida, vomitei meio que aos soluços os sustos que ainda hoje tomo com o mercado de trabalho.

Não sou de me prender em valores familiares (do modo com o qual elas são concebidas), mas me orgulho muito dos meus pais por serem quem são. Também não costumo me prender a origens, mas, genealogicamente falando, venho de uma longa linhagem de gente pobre e fodida, que aos poucos tem ascendido na nova classe média. Agora temos computadores e vamos em manifestações promovidas pelo Facebook.
Alguns de nós já até estamos conquistando diplomas universitários (parabéns, mãe!).
Talvez esse tipo de “ascendência” econômica seja o responsável pela minha ilusão. Acreditando que os padrões atingidos por uma grande parcela social tenha subido, acabo me surpreendendo com a falta de ética daqueles que eu acreditava serem os responsáveis por essa inclusão: as diretorias.

Recentemente, migrei por entre restaurantes com filosofia zen e naturalista, cujo renomado chef grita, esperneia, empurra com violência e solicita serviço através de gritos: “Vai rápido, corre e entrega tudo sem derrubar nada, porra!” para os garçons.
E acredite: eu bem que gostaria de estar sendo metafórica.
Também transitei por pequenas mídias alienatórias, onde eventuais expedientes eram salpicados de berros esbravejantes da sala da presidência. O motivo? As vendas não estavam satisfatórias.
Alguns vendedores precisavam sustentar filhos pequenos, outros possuiam dívidas enormes. A marmita, preparada com esforço, sacolejava por muitos quilômetros dentro do transporte público.

A presidência? BMW e Hayabusa na garagem.
Pausa para ir ao banheiro era um privilégio constantemente reafirmado como um ato supremo de benevolência, apesar dos funcionários passarem praticamente dez horas trancados na caixa cinzenta.
Ainda assim, a equipe é constantemente humilhada por não encher os bolsos da alta direção da forma esperada.

Já faz quase 30 anos que meu pai foi chamado de animal por não levar garfos para um engravatado sorver seu pedaço de melancia. Entretanto, há cerca de três dias atrás ouvi um discurso que quase me fez procurar por talheres em meus bolsos para fornecê-los a minha senhoria. O fato de não enviar relatórios acerca de todos os meus movimentos (se possível incluir os fisiológicos – atualizados de 3 em 3 minutos) me fez entender que ainda hoje, mesmo nos trabalhos mais abstratos, somos obrigadxs a desempenhar funções vazias de sentido, ignorar nossos ímpetos mais básicos de entretenimento mental e felicidade simples.
Durante este tempo, abandonei a escrita. Meus textos, minhxs amigxs, leituras e músicas. Mesmo meus estudos universitários e minhas horas de sono foram considerados luxos aos quais não pude prestar atenção.

O que mais me entristece é notar que nivelemos tudo por baixo. “Meu emprego é ruim, mas pelo menos paga em dia”. “Meu patrão me oprime, mas pelo menos não me assedia sexualmente”. “Saio mais tarde todo dia e não vejo meus filhos acordados, pelo menos recebo hora extra”.
É nivelando por baixo que nos mantemos escravos do trabalho abstrato e do vício empregatício em explorar toda a força produtiva que nos resta. Tenho grandes dificuldades em imaginar a mudança acontecendo inserida neste contexto de medo, com o qual ainda me identifico.
Eu mesma tenho medo de passar fome, quem dirá aqueles que com muito menos precisam fazer muito mais.

Mas ai de mim! Ousando discordar do fato de que pessoas que moram a mais de 25 km de distância do emprego e chegam até ele através da superlotação dos trens e ônibus paulistanos, talvez, quem sabe, só supondo, não merecessem esporros e advertências pelos cinco minutos de atraso.
Talvez o Krasis volte a ser atualizado com maior frequência…E também estou aceitando o e-mail de RH’s para envio de curriculuns vitae.
E apesar de eu soar classe-média-sofrista, esse vídeo explica muito melhor tudo o que poderia ser dito sobre o assunto.

A Exploração Enaltece

20 jul

Sempre começa com o despertador e uma esperança.
Tudo foi forçado, “determinado”  e você sequer teve escolha. A felicidade é uma ilusão que tentamos sustentar aos tropeços embriagados de sono, logo que pulamos da cama.
O café forte é um incentivo químico que corrói as paredes do estômago na promessa de expandir as pálpebras que insistem em amolecer.

Então você está pronto para mais um dia de trabalho e sai. O céu é bonito, a manhã fria e você se imagina aproveitando o dia na praia ou no parque, mas logo acorda dentro do trânsito. Convence-se de que não é tão ruim assim, afinal “quanto mais trabalhar, mais sossego terei no futuro!” ou não?
Então se conforma e aguarda, – paciente por si, tenso pela espera alheia – o coletivo que fervilha com o povo.

Moças de cabelos alinhados preocupam-se em esconder as olheiras de cansaço embaixo do pó da maquiagem. Torcem os tornozelos equilibrados em finas hastes de sapatos que custam mais da metade do que ganham no mês.  Enquanto isso, o chefe chega no carro do ano, uma SUV preta e reluzente, na hora que quer e  sem suar  uma gota por causa do seu novíssimo ar condicionado “sustentável”.

Rapazes estrangulados por gravatas irritam-se e interrogam o ir e vir dos garçons, intimidando com olhares autoritários scanneadores  – o seu vizinho de salário mínimo – que serve o almoço.

Um adolescente de mochila e fones de ouvido, ainda em idade escolar, prepara-se para as próximas horas cumprindo ordens. Na sala de aula pública e obrigatória, ele já sabe que a vida não será igual ao do playboy da escola particular vizinha. Depois da prova de matemática, segue no “corre” da papelaria, banco e muito busão pela frente até o escritório. Tempo para estudar? Vai ficar pra próxima! “Hey! O gerente precisa que cê busque, de última hora, os documentos do filho dele no bairro nobre”. O moleque passou na melhor faculdade pública da cidade. Parabéns, quando vai ser a sua vez?  “Vixi véio…sei lá…”

De outra zona cinza da cidade, um suspiro ecoa. Mais uma tarde de horas extras será paga com um sorriso cínico de quem enriquece às suas custas.
A caixa cinzenta, iluminada e ventilada artificialmente, é sua moradia. Sua vida é consumida naquele ambiente impregnado de nicotina e cafeína, abarrotado de metas e ordens que mal sabemos para que servem.
O alívio seria maior se a volta para o lar não fosse tão claustrofóbica, consumida pelo enclausuramento coletivo. Amontoados humanos aspiram por um trajeto desafogado, algumas vezes recompensados com avenidas transbordadas de uma névoa preta e mal-cheirosa, projetadas para caixas com rodas, ocupados por uma única pessoa, ou por caixas maiores que caibam dezenas de pessoas desesperadas, disputando o pódio para quem chegar  primeiro em casa e assistir a continuação da novela  de romances impossíveis e luxuosos. “Queria ser que nem aquele da novela…dono de empresa, mulherengo e viajar o mundo” – “Queria ser que nem aquela da novela…mulher do ricaço, pilates na praia e choffer até às lojas de grife”

Mas como dizem por aí, que a esperança é a ultima que morre “Aperta o salário um pouco mais e entra na faculdade particular…pelo menos você terá graduação né?”, tenta agregar conhecimento pra mudar de vida, trabalhar e enriquecer!!. Mas sua realidade difere do playboy da “particular”, você não teve qualidade e nem tempo para se graduar. Paga o diploma quase dormindo nas aulas, que amanhã é outro dia, amanha é outra esperança.  Sua família insiste e repete que você precisa se esforçar um pouco mais, sugar um pouco mais da sua força de trabalho, sua energia, sua vida. “Talvez eu ganhe na megasena…daí tudo seria lindo!!”
ACORDA!! Volta pro seu cubículo,  seu dono quer viajar pro exterior e ainda não recebi o orçamento dos novos modelos, talvez  ele queira trocar o carro por um novo ainda hoje.
(…)

Escravidão, Servidão, Salariado.

[…] O salariado, com efeito, não é senão a forma moderna da servidão e de seu ancestral: a escravidão; isso não gera nenhuma dúvida e é reconhecido por todos aqueles que examinam as coisas de maneira saudável, que não estão cegos por um interesse de classe qualquer.
Tendo achado mais proveitoso explorar seu semelhante do que comê-lo, o homem buscou extrair disso toda a soma de trabalho possível, ficando a seu cargo proporcionar-lhe as coisas necessárias para sua existência, mas tendo o cuidado de reduzir suas necessidades escravistas ao justo necessário para que continue a fornecer a soma de trabalho exigida.
[…] Do mesmo modo que a servidão substituiu a escravidão, o salariado substituiu a servidão. A Revolução de 1789 queimou os velhos títulos de propriedade feudais, os camponeses enforcaram alguns senhores, os burgueses guilhotinaram alguns outros, a propriedade mudou de mãos, a supremacia da propriedade feudal passou às mãos do capital, o assalariado substituiu o servo; nominativamente, o trabalhador tornou-se livre, tudo o que há de mais livre! Completamente liberto dos laços que o prendiam à terra, pode transportar-se de um país a outro, se tem os meios de pagar às companhias ferroviárias – que cobram uma tarifa enorme de passageiros – ou se tem do que se alimentar durante o tempo que durar sua viagem, se resolver fazê-la a pé.

Tem o direito de residir em qualquer apartamento, desde que pague ao proprietário do imóvel; tem o direito de trabalhar em qualquer lugar, sob a condição de que o industrial que açambarcou as ferramentas de trabalho do ramo industrial que ele escolheu, queira emprega-lo; não está obrigado a nenhuma servidão em relação àqueles que o empregam; sua mulher já não é obrigada a suportar os caprichos do senhor ; a própria lei o proclama bilionário; mais ainda, pode tomar parte na elaboração das leis – pelo direito de escolher aqueles que devem produzi-las – tanto quanto os privilegiados; não é esse, portanto, o ideal de seus sonhos? O que lhe falta, então, para estar no ápice de suas aspirações? Deve-se crer que não, pois se reconhece que o salariado é tão-somente a transformação atenuada da escravidão, e pede-se sua abolição.

É que todos esses direitos são apenas nominativos e que, para servir-se deles, é preciso possuir o poder político que permite viver à custa daqueles que vos suportam, ou possuir esse motor universal, o dinheiro, que liberta de tudo.
O capitalista não pode mais matar o trabalhador, mas pode deixá-lo morrer de fome ao não empregá-lo; […]

KROPOTKIN, P. “O Princípio Anarquista e Outros Ensaios” Editora Hedra (2008) Edição brasileira