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Trabalho Abstrato: O Caminho, A Verdade e a Vida.

24 out

Não é novidade nenhuma.

Meu pai, moleque de tudo, devia ter cerca de doze ou treze anos quando ouviu do ricasso – cliente do clube pro qual ele trampava – que o garçom (meu pai) era um animal por ter servido o pedaço de melancia sem garfos.
Isso foi no mínimo a uns 30 anos atrás. Mas não é novidade que ainda hoje esse tipo de comportamento é padrão entre a alta escala empresarial.

Perdi meu emprego. Encontrei uma ocupação.

Quando eu escrevi o Alguém na Vida, vomitei meio que aos soluços os sustos que ainda hoje tomo com o mercado de trabalho.

Não sou de me prender em valores familiares (do modo com o qual elas são concebidas), mas me orgulho muito dos meus pais por serem quem são. Também não costumo me prender a origens, mas, genealogicamente falando, venho de uma longa linhagem de gente pobre e fodida, que aos poucos tem ascendido na nova classe média. Agora temos computadores e vamos em manifestações promovidas pelo Facebook.
Alguns de nós já até estamos conquistando diplomas universitários (parabéns, mãe!).
Talvez esse tipo de “ascendência” econômica seja o responsável pela minha ilusão. Acreditando que os padrões atingidos por uma grande parcela social tenha subido, acabo me surpreendendo com a falta de ética daqueles que eu acreditava serem os responsáveis por essa inclusão: as diretorias.

Recentemente, migrei por entre restaurantes com filosofia zen e naturalista, cujo renomado chef grita, esperneia, empurra com violência e solicita serviço através de gritos: “Vai rápido, corre e entrega tudo sem derrubar nada, porra!” para os garçons.
E acredite: eu bem que gostaria de estar sendo metafórica.
Também transitei por pequenas mídias alienatórias, onde eventuais expedientes eram salpicados de berros esbravejantes da sala da presidência. O motivo? As vendas não estavam satisfatórias.
Alguns vendedores precisavam sustentar filhos pequenos, outros possuiam dívidas enormes. A marmita, preparada com esforço, sacolejava por muitos quilômetros dentro do transporte público.

A presidência? BMW e Hayabusa na garagem.
Pausa para ir ao banheiro era um privilégio constantemente reafirmado como um ato supremo de benevolência, apesar dos funcionários passarem praticamente dez horas trancados na caixa cinzenta.
Ainda assim, a equipe é constantemente humilhada por não encher os bolsos da alta direção da forma esperada.

Já faz quase 30 anos que meu pai foi chamado de animal por não levar garfos para um engravatado sorver seu pedaço de melancia. Entretanto, há cerca de três dias atrás ouvi um discurso que quase me fez procurar por talheres em meus bolsos para fornecê-los a minha senhoria. O fato de não enviar relatórios acerca de todos os meus movimentos (se possível incluir os fisiológicos – atualizados de 3 em 3 minutos) me fez entender que ainda hoje, mesmo nos trabalhos mais abstratos, somos obrigadxs a desempenhar funções vazias de sentido, ignorar nossos ímpetos mais básicos de entretenimento mental e felicidade simples.
Durante este tempo, abandonei a escrita. Meus textos, minhxs amigxs, leituras e músicas. Mesmo meus estudos universitários e minhas horas de sono foram considerados luxos aos quais não pude prestar atenção.

O que mais me entristece é notar que nivelemos tudo por baixo. “Meu emprego é ruim, mas pelo menos paga em dia”. “Meu patrão me oprime, mas pelo menos não me assedia sexualmente”. “Saio mais tarde todo dia e não vejo meus filhos acordados, pelo menos recebo hora extra”.
É nivelando por baixo que nos mantemos escravos do trabalho abstrato e do vício empregatício em explorar toda a força produtiva que nos resta. Tenho grandes dificuldades em imaginar a mudança acontecendo inserida neste contexto de medo, com o qual ainda me identifico.
Eu mesma tenho medo de passar fome, quem dirá aqueles que com muito menos precisam fazer muito mais.

Mas ai de mim! Ousando discordar do fato de que pessoas que moram a mais de 25 km de distância do emprego e chegam até ele através da superlotação dos trens e ônibus paulistanos, talvez, quem sabe, só supondo, não merecessem esporros e advertências pelos cinco minutos de atraso.
Talvez o Krasis volte a ser atualizado com maior frequência…E também estou aceitando o e-mail de RH’s para envio de curriculuns vitae.
E apesar de eu soar classe-média-sofrista, esse vídeo explica muito melhor tudo o que poderia ser dito sobre o assunto.