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Pro-Vida? De Quem?

27 abr

Nesta tarde, tive uma notícia extremamente desagradável. O projeto de descriminalização do aborto foi arquivado, e a “Frente em Defesa da Vida – Contra o Aborto” comemorou.

Claro que eu quase morri de tanto desgosto. Mais uma vez, uma massa estúpida ordenou o que eu devo ou não fazer com o meu corpo. Nisso, quis saber de imediato quem, além do DeputadO Salvador Zimbaldi (PDT-SP) participava desse lixo de “Frente”, e quais eram seus objetivos.

Republicanos vão proteger seus direitos se você for: ( ) uma mulher ( ) um professor ( ) glbt ( ) imigrante ( x ) um feto.

Achei uma carta a respeito do Primeiro Seminário Nacional em Defesa da “Vida”. Vou resumir algumas das melhores metas do evento pra vocês, porque vale muito a pena:

 8.1. Formular cartas e documentos, em linguagem popular, para distribuição nas igrejas e como subsídio para os professores nas escolas;

8.2. Incluir, nos programas de catequese de Crisma da Igreja Católica, de palestras sobre reprodução humana e direito à vida;

8.5. A Frente Parlamentar em Defesa da Vida deverá fomentar a produção de vinhetas e programas para as emissoras de rádio etc., educando e difundindo as razões em prol da vida;

8.6. Levantar fundos nas Dioceses, Igrejas Evangélicas, Centros Espíritas etc., para possibilitar a vinda de caravanas a Brasília, em momentos em que se fizer necessária a pressão social sobre o Congresso Nacional;

8.7. Enviar emails, cartas etc. às lideranças dos partidos, exigindo delas um posicionamento público sobre o aborto;

A carta inteira vocês conferem no link, se ainda tiverem forças suficientes para ler tamanha ofensa.

O mais chocante é que esse movimento de cunho extremamente religioso e que fere brutalmente o estado laico tenha como presidenta uma professora no Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília, Lenise Garcia.

Uma mulher. Com conhecimentos não só fundamentados em religião. E que mesmo assim, não possui a menor empatia pelas demais ou sequer reconhece seus privilégios sociais.

Basta de rosários nos nossos ovários.

É fato que apesar de ilegal (exceto em casos de estupro ou em que a mãe corra risco de vida) as estimativas do Ministério da Saúde apontam a ocorrência entre 729 mil e 1,25 milhão de abortos feitos por ano no país, embora essa estimativa seja altamente especulativa, pois os abortos são clandestinos, e há divergência com diversas outras fontes não-governamentais, que estimam números entre 500 mil e 800 mil.

O que fazer com estas mulheres, que, cada uma por seu motivo, precisou interromper a gravidez? Para a Dra. Lenise, o Senador Zimbaldi e o movimento pró-vida, a solução é fácil: marginalizar e jogar em uma cadeia.

Mas se mesmo sob esse risco penal o aborto continua acontecendo, quais são as conseqüências para as que não são pegas pelo sistema judiciário? Morte. Infertilidade. Lesões. Infecções…

Em 2008, só no Estado do Rio de Janeiro, somaram-se 15.868 internações motivadas por aborto inseguro – a terceira causa de morte materna.

Ainda assim, a defesa da “vida” é suprema, e seu direito a ela precisa ser garantido. Mas…qual vida mesmo? Aquele amontoado de células que até a 24ª semana não é capaz de sentir dor? Ou aquela já formada, em más condições emocionais, financeiras e psicológicas, que engravidou por falha ou mal uso dos métodos contraceptivos? Talvez possamos considerar também aquela vida animal que alimenta tantos pró-vidas comedores de cadáveres. Esses animais, por sua vez, eram conscientes, ativos, e se tornaram assustados, acuados e mortos. Agora jazem em pratos de jantar.

Mas opa, como assim comparar a vida de um bicho com a vida de um feto humano?

Ah sim, como eu ouso comparar dois animais [1] e duas formas de vida diferentes, que absurdo!

Vida é vida. Ponto.

Vocês já viram um cachorro ou gato assustados? Com dor? Felizes?

Qualquer um que já tenha convivido com algum animal doméstico não pode negar que sim, eles possuem feições e comportamentos que denotam sentimentos. Também possuem sistema nervoso central. Ou seja, podem sentir dor.

Portanto, quando você mata um bovino, – que também é um animal, e que também tem sistema nervoso central – ele sente dor. E também se sente assustado. Duvida? Assista no documentário Terráqueos e veja como se comportam os animais “de abate” no corredor da morte.

O que vacas e fetos têm em comum? São organismos. São seres vivos.

A vaca, tem uma vida formada. Ela come, caga, respira, sente medo, sente dor devida a sua complexidade neural desenvolvida, tem instintos de sobrevivência, é torturada diariamente nos abatedouros, estuprada [2], e por fim, abatida. E vem acompanhada de molhos no seu jantar.

Um feto, é similar a um parasita. É um organismo, é claro, um amontoado de células vivas (e não um bebê ou uma criança), mas depende de seu hospedeiro pra viver até que esteja “maduro” o suficiente para poder viver “sozinho”. Antes disso, ele continuará sendo um organismo. Um organismo que até as 24 semanas de vida não é capaz de cagar, respirar, sentir medo ou sentir dor, e que depende de seu hospedeiro para comer e sobreviver.

O seu hospedeiro, por sua vez, é uma mulher. Sempre.

Pode ser negra, parda, amarela, vermelha, branca, pobre, rica, doente, saudável, capaz emocionalmente e psicologicamente de criar uma criança…ou não. Mas nada disso importa, o que importa é que ela ponha esta cria no mundo, independente de suas condições. Pode estar deprimida, pensando em suicídio, abandonada pela família e parceiro (afinal, parece que as mulheres engravidam sozinhas sempre, já que a “culpa” por ter engravidado é sempre DELAS, jamais do fertilizador e sua ausência de preservativo ou mau uso do mesmo).

Ela precisa parir e ser punida por isso. Precisa ouvir que “na hora de fazer foi bom, então não reclama” quando tiver suas contrações. Precisa carregar a trancos e barrancos uma vida indesejada e não planejada. É sua punição, e não sua benção. Ela não escolhe isso, mas não há escolha alguma. Era a cadeia e tortura ou a prisão perpétua de se amarrar a uma vida indesejada.

Nada disso é regra, e uma mulher pode mudar de opinião quando parir sua cria. Ou pode decidir jogá-la em um lixão e tirar sua própria vida.

São infinitas possibilidades, e ninguém consegue intervir em todas elas, a não ser a hospedeira desta vida.

A situação emocional, financeira e psicológica varia imensamente de caso para caso, porém, nada disso importa. A não ser que foi o caso de estupro, ou se você pode morrer.

Pergunto-me se os frutos de um estupro são menos “vida” do que os demais? Por que então esses são permitidos? Pela obviedade das seqüelas emocionais que isso causaria a mãe? Concordo! Mas, oras, só esse viés causa seqüela emocional? Que tipo de critério é este?

E quanto às outras vidas animais exterminadas aos montes diariamente ao redor do mundo todo? Por que essas vidas valem tão menos, apesar da dor sentida em escala muito maior?

Por que a religião ainda pauta a ética, e por que pessoas que jamais ficarão grávidas pautam o direito sobre o corpo de terceiras?

77% dos líderes anti-aborto são homens. 100% deles jamais ficarão grávidos.

Por que mulheres ricas têm acesso a clínicas de aborto de nível hospitalar satisfatório, e mulheres negras e pobres morrem em decorrência da clandestinidade do processo?

Por que fecham-se olhos, como se o fato de proibir algo extinguisse sua prática?

Por que você manda no meu útero?

Por que você decide quem vive, quem morre, quem serve pra comer, quem serve pra defender, quem precisa ser punido…e no final, nunca adotou ou salvou vida nenhuma?

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[1] Classificação taxonômica do gado: Reino: Animalia, Filo: Chordata, Classe: Mammalia, Ordem: Artiodactyla, Família: Bovidae, Subfamília: Bovinae.

Classificação taxonômica humana: Reino: Animalia, Filo: Chordata, Classe: Mammalia, Ordem: Primata, Família: Hominidae, Género: Homo, Espécie: Homo sapiens, Subespécie: Homo sapiens sapiens.

Não me venha dizer que somos completamente diferentes.

 

[2] Parece óbvio, mas nem todo mundo está ciente de que vacas só dão leite quando estão prenhas, assim como qualquer mamífero. E, assim como todo mamífero, elas não estão o tempo todo grávidas. Bom…pelo menos não na natureza. Na indústria do leite e da carne, bovinos fêmeas são constantemente emprenhados para permanecerem o máximo de tempo possível produzindo leite. No processo de inseminação artificial elas resistem, se debatem e rejeitam o quanto for possível a inserção deste material em seus corpos. Mas obviamente são vencidas graças à força exercida para mantê-las passivas em cubículos inibidores de movimentos. Se isto não é um estupro, eu não sei o que é um. Novamente, se não acredita, sugiro que veja o documentário citado mais cedo neste mesmo post.

Ps: Para os que acham que mulheres considerariam aborto um método contraceptivo, e que caso fosse legalizado teriamos um viral de fetos sendo jogados por latrinas: pesquisem sobre os dados pré e pós Legalização em Portugal, e comprovem por si mesmos a evolução na saúde pública da mulher, e o quanto esse mito é infundado.