Mulher. Objetivo: Coroa.

26 jul

Sorria, princesa!

Incrível o status que um simples enfeite de cabeça ou uma faixa nos ombros podem carregar. Pode ser uma coroa de rainha e um cetro. Uma faixa presidencial. Uma premiação de Miss. Qual você prefere?
Desde que sou criança, convivo com a imagem de mulheres coroadas. Como nasci nos anos 90, acho que minha lembrança mais forte é a de Lady Diana. Loura, magra, branca e coroada. Nobre, cercada de luxo e detentora do status de boa samaritana. Meninas da minha geração esperavam se desenvolver nesses moldes, naturalmente.

Ainda na infância, as coroas de cristais e brilhantes das

Relaxa querida. Um dia você vai achar quem te sustente e vai sobrar bastante tempo pra se cuidar e ser linda, apesar das mulheres invejosas que querem te destruir.

princesas dos contos infantis enfatizavam a pureza caucasiana, nobre e delicada, como toda garotinha deveria ser. Mas isso nunca me remeteu ao comando de uma rainha, por exemplo. Sempre vi como a subserviência de uma princesa, no máximo.
Recordo de ver nos seriados americanos a obsessão feminina pela coroação de Rainha do Baile de Debutantes. As garotas, pelo que eu observava, resumiam sua existência ao êxito de serem coroadas na noite que perpetuaria o símbolo de popularidade superior entre os colegas de estudo.

Perto da puberdade, comecei a reparar nas Misses. Miss bairro, município, cidade, país, universo, Miss Tudo. Na televisão, corpos esculpidos no bisturi, restrição e esforço eram avaliados duramente e premiados com um desespero que parecia se afogar em lágrimas: julgo que seja um sonho conquistado, um objetivo de vida cumprido. Sempre tive a impressão de que ser coroada Miss fosse o ato supremo de aceitação, já que a meta principal de uma mulher no patriarcado capitalista é ser linda e dócil, aquele sorriso e aquele aceno seriam um passaporte para as doçuras que as demais mortais jamais sonhariam conhecer.
Suponho que a parte mais difícil seja entrar na fôrma de onde todas as Misses saem. Mesmo porte físico, mesmo cabelo, mesmos seios, barrigas, bundas, coxas, pernas, vulvas (suponho). Um instinto me leva a crer que todas cheiram á baunilha também, mesmo nos dias mais quentes (seriam compostas por látex perfumado?).

O conceito de coroar e tornar nobre – ainda que metaforicamente, claro – uma mulher de acordo com a sua beleza se expandiu de forma a dominar quase todos os âmbitos de convívio social que já percorri.
Na escola da periferia, a garota que menos parecesse ter nascido ali ganhava centenas de admiradores. Quanto mais se assemelhasse ao que aparece na TV, mais sucesso obtinha nas relações sociais.

Lembro que no ensino médio fui estudar em uma escola (também pública) no centro da cidade. Uma das Misses de lá era uma colombiana. Para quem não sabe, em São Paulo existe um preconceito terrível contra chilenos, bolivianos, paraguaios e qualquer pessoa com a pele mais avermelhada (índios inclusos) do que se espera. Mas essa garota era especial, porque seus traços eram mais finos que o tradicional, mantendo apenas os cabelos pretos e lisos e a pele avermelhada que sua genética carregou. Daí o sotaque passou a ser charme – pelo menos para ela. Outrxs imigrantes continuaram apanhando e sofrendo bullying diário por não serem brasileiros.

Nas empresas, Misses de Departamentos são avaliadas pelas costas, que é justamente o ângulo pelo qual melhor pode-se observar a bunda enclausurada nas roupas formais.
Assédio? Aceite tudo como elogio se não quiser ser demitida ou acusada de histérica-frígida.

E exércitos de Miss Empregada Doméstica, Miss Passageira do Busão, Miss Garçonete, Miss Gari, Miss Motogirl…o importante é botar a fantasia e não se parecer em nada com quem veio “de baixo”.

Sou lembrada ainda de que o consciente coletivo (e eletivo) da produção em massa de Misses ainda não acabou. Obviamente somos moldadas para crer que nosso sucesso na vida depende da aparência, de forma que nos mutilamos para caber nas fôrmas impostas e almejamos de coração um lugar no pódio da ditadura de beleza. Isso não torna mulher nenhuma burra, fútil ou ignorante. Responder ao estímulo pelo qual se foi coagida durante toda a vida não merece julgamento.

Mas sim, nós tentamos, e agora existe uma data e um motivo para brilhar, e todas as mulheres que ocupam algum espaço virtual estão convidadas!
Sobre o exaustivo discurso da liberdade corporal e sexual feminina, (emancipação através da aprovação masculina, yeeeeey!) temos o Lingerie Day.

Uma datinha marcada no calendário (28/07, se quer saber) e tudo, patrocinada por empresas, blogues e sites masculinos que te dão a chance única de viver a emoção de ser uma Miss. Você só precisa exibir fotos de si mesma usando roupa íntima e ganha inteiramente de graça tropas de punheteiros te avaliando! Não é maravilhoso? Ah, mas por favor, seja magra e convencionalmente gostosa, afinal, gordas e magrelas-secas não têm direito nenhum a essa tal “liberdade sexual” conquistada através de insultos que beiram ameaças de estupro.

Você não pode ser humana. Mas fique a vontade pra ser linda, meu bem.

Se preencher todos os requisitos, você pode até ganhar prêmios das empresas patrocinadoras, e quem sabe, um status de Miss Lingerie Day, com sua coroa virtual, indicadora de ser humano realizado, nobre, digno e completo!

Objetificação, obsessão, racismo e opressão se mesclam, mas é por uma boa razão: o que resta da vida de uma mulher se ela não for bonita? Ou a gente de repente vai ser premiada por alguma outra coisa que senão os números de uma fita métrica?
Sorria e acene.

A Exploração Enaltece

20 jul

Sempre começa com o despertador e uma esperança.
Tudo foi forçado, “determinado”  e você sequer teve escolha. A felicidade é uma ilusão que tentamos sustentar aos tropeços embriagados de sono, logo que pulamos da cama.
O café forte é um incentivo químico que corrói as paredes do estômago na promessa de expandir as pálpebras que insistem em amolecer.

Então você está pronto para mais um dia de trabalho e sai. O céu é bonito, a manhã fria e você se imagina aproveitando o dia na praia ou no parque, mas logo acorda dentro do trânsito. Convence-se de que não é tão ruim assim, afinal “quanto mais trabalhar, mais sossego terei no futuro!” ou não?
Então se conforma e aguarda, – paciente por si, tenso pela espera alheia – o coletivo que fervilha com o povo.

Moças de cabelos alinhados preocupam-se em esconder as olheiras de cansaço embaixo do pó da maquiagem. Torcem os tornozelos equilibrados em finas hastes de sapatos que custam mais da metade do que ganham no mês.  Enquanto isso, o chefe chega no carro do ano, uma SUV preta e reluzente, na hora que quer e  sem suar  uma gota por causa do seu novíssimo ar condicionado “sustentável”.

Rapazes estrangulados por gravatas irritam-se e interrogam o ir e vir dos garçons, intimidando com olhares autoritários scanneadores  – o seu vizinho de salário mínimo – que serve o almoço.

Um adolescente de mochila e fones de ouvido, ainda em idade escolar, prepara-se para as próximas horas cumprindo ordens. Na sala de aula pública e obrigatória, ele já sabe que a vida não será igual ao do playboy da escola particular vizinha. Depois da prova de matemática, segue no “corre” da papelaria, banco e muito busão pela frente até o escritório. Tempo para estudar? Vai ficar pra próxima! “Hey! O gerente precisa que cê busque, de última hora, os documentos do filho dele no bairro nobre”. O moleque passou na melhor faculdade pública da cidade. Parabéns, quando vai ser a sua vez?  “Vixi véio…sei lá…”

De outra zona cinza da cidade, um suspiro ecoa. Mais uma tarde de horas extras será paga com um sorriso cínico de quem enriquece às suas custas.
A caixa cinzenta, iluminada e ventilada artificialmente, é sua moradia. Sua vida é consumida naquele ambiente impregnado de nicotina e cafeína, abarrotado de metas e ordens que mal sabemos para que servem.
O alívio seria maior se a volta para o lar não fosse tão claustrofóbica, consumida pelo enclausuramento coletivo. Amontoados humanos aspiram por um trajeto desafogado, algumas vezes recompensados com avenidas transbordadas de uma névoa preta e mal-cheirosa, projetadas para caixas com rodas, ocupados por uma única pessoa, ou por caixas maiores que caibam dezenas de pessoas desesperadas, disputando o pódio para quem chegar  primeiro em casa e assistir a continuação da novela  de romances impossíveis e luxuosos. “Queria ser que nem aquele da novela…dono de empresa, mulherengo e viajar o mundo” – “Queria ser que nem aquela da novela…mulher do ricaço, pilates na praia e choffer até às lojas de grife”

Mas como dizem por aí, que a esperança é a ultima que morre “Aperta o salário um pouco mais e entra na faculdade particular…pelo menos você terá graduação né?”, tenta agregar conhecimento pra mudar de vida, trabalhar e enriquecer!!. Mas sua realidade difere do playboy da “particular”, você não teve qualidade e nem tempo para se graduar. Paga o diploma quase dormindo nas aulas, que amanhã é outro dia, amanha é outra esperança.  Sua família insiste e repete que você precisa se esforçar um pouco mais, sugar um pouco mais da sua força de trabalho, sua energia, sua vida. “Talvez eu ganhe na megasena…daí tudo seria lindo!!”
ACORDA!! Volta pro seu cubículo,  seu dono quer viajar pro exterior e ainda não recebi o orçamento dos novos modelos, talvez  ele queira trocar o carro por um novo ainda hoje.
(…)

Escravidão, Servidão, Salariado.

[…] O salariado, com efeito, não é senão a forma moderna da servidão e de seu ancestral: a escravidão; isso não gera nenhuma dúvida e é reconhecido por todos aqueles que examinam as coisas de maneira saudável, que não estão cegos por um interesse de classe qualquer.
Tendo achado mais proveitoso explorar seu semelhante do que comê-lo, o homem buscou extrair disso toda a soma de trabalho possível, ficando a seu cargo proporcionar-lhe as coisas necessárias para sua existência, mas tendo o cuidado de reduzir suas necessidades escravistas ao justo necessário para que continue a fornecer a soma de trabalho exigida.
[…] Do mesmo modo que a servidão substituiu a escravidão, o salariado substituiu a servidão. A Revolução de 1789 queimou os velhos títulos de propriedade feudais, os camponeses enforcaram alguns senhores, os burgueses guilhotinaram alguns outros, a propriedade mudou de mãos, a supremacia da propriedade feudal passou às mãos do capital, o assalariado substituiu o servo; nominativamente, o trabalhador tornou-se livre, tudo o que há de mais livre! Completamente liberto dos laços que o prendiam à terra, pode transportar-se de um país a outro, se tem os meios de pagar às companhias ferroviárias – que cobram uma tarifa enorme de passageiros – ou se tem do que se alimentar durante o tempo que durar sua viagem, se resolver fazê-la a pé.

Tem o direito de residir em qualquer apartamento, desde que pague ao proprietário do imóvel; tem o direito de trabalhar em qualquer lugar, sob a condição de que o industrial que açambarcou as ferramentas de trabalho do ramo industrial que ele escolheu, queira emprega-lo; não está obrigado a nenhuma servidão em relação àqueles que o empregam; sua mulher já não é obrigada a suportar os caprichos do senhor ; a própria lei o proclama bilionário; mais ainda, pode tomar parte na elaboração das leis – pelo direito de escolher aqueles que devem produzi-las – tanto quanto os privilegiados; não é esse, portanto, o ideal de seus sonhos? O que lhe falta, então, para estar no ápice de suas aspirações? Deve-se crer que não, pois se reconhece que o salariado é tão-somente a transformação atenuada da escravidão, e pede-se sua abolição.

É que todos esses direitos são apenas nominativos e que, para servir-se deles, é preciso possuir o poder político que permite viver à custa daqueles que vos suportam, ou possuir esse motor universal, o dinheiro, que liberta de tudo.
O capitalista não pode mais matar o trabalhador, mas pode deixá-lo morrer de fome ao não empregá-lo; […]

KROPOTKIN, P. “O Princípio Anarquista e Outros Ensaios” Editora Hedra (2008) Edição brasileira

Onívoros: A Minha Empatia Caga Na Sua.

12 jul

"Ah, você não liga". Porque a falta de empatia é muito descolada.

Se você defende alguma causa (animais não-humanos, mulheres, LGBTTT, negrxs, liberdade, fraternidade, igualdade ou o fim da ditadura do automóvel) você com certeza já foi chamadx de radical.

Não quis comer o torresmo com a galera? Xiita.

Não gosta da cruz dentro do ambiente de trabalho? Intolerante.

Acha que homofobia deveria ser crime? Tá impondo seu modo de vida pros outros, terrorista? Vá pra Cuba!

Enquanto isso, uma corrente de pensamento ganha força, especialmente no ciberespaço. Um backlash declarado e seboso. O culto de ódio à empatia.

Se posicionar contra algum tipo de exploração e abuso, ou adotar novas posturas políticas e de conduta são motivos de piada.

Legal mesmo é ser “anti-politicamente-correto” (leia-se, direitóide gorfador de opiniões conservadoras e que pretende manter seus privilégios no topo da sociedade, como sempre foi) e ofender quem dá a mínima sobre qualquer coisa. Bom mesmo é quem é macho e bate punheta com um bacon enrolado no pau, que é pra dar destaque na virilidade onívora.

Sim, prezadxs, virilidade onívora. Já repararam na quantidade massiva e crescente de canais, blogs, vídeos e artigos enaltecendo a carne como instrumento de empoderamento másculo? Não que seja novidade, Carol J. Adams já falava sobre essa relação no seu Sexual Politics of Meat: A Feminist-Vegetarian Critical Theory (Políticas Sexuais da Carne: Uma Crítica Teórica Feminista-Vegetariana) e eu não estou aqui para repetir tudo que foi dito por ela.
Dia desses estava trabalhando, quando o meu digníssimo me manda um vídeo de fazer retornar ao colo a refeição ingerida a pouco.

O título da belezinha é “Carnívoros Song” , e claro que é um ode a todos os grandes clichêZZzzzzZZZzzs anti-veganos. O autor é um macho branco classe média revoltz pra caralho. Ele não liga pra nada, ele não tem empatia, “ele come picanha porque acha bom”, e não tá nem aí! Não é empolgante?

Não é porque eu sou um homem branco que eu tenho privilégios, ora essa!

Na letra, temos maravilhas como “quem não gosta de chuleta não deve gostar de buceta”, “enfia o seu hommus bem no meio do rabo” e claro “minha comida caga na sua”, a máxima preferida de 9 entre 10 pessoas que tem orgulho de comer coisas que cagam – e também fazem tanta noção dos meios de produção do seu “alimento” que possuem convicção na teoria de que o pasto e a horta são a mesma coisa, confinamento de animais não existe, e os bois na verdade cagam nas alfaces. Oi?.

 Seria apenas mais um grande “ZZzzZZZz” reacionário da Interwebz, mas o que incomoda são os seguidores. Legiões de desinformadxs aplaudem o discurso de ódio e apatia pregado. É muito descolado ser macho, tr00hardcore e entupir as artérias de bacon, porque animais são burros e feitos pra nos servir. Nós sim somos superiores, e é nosso direito explorá-los até o tutano.

Sabe, na história a gente já viu muito esse discurso. “Preto não tem alma, então vamos explorar para o nosso benefício”. “Mulheres são irracionais e histéricas, logo só podem ter utilidade enquanto nos servem”. “Homossexuais são anti-naturais, vamos queimá-lxs e estuprá-lxs”.
Eu realmente não vejo diferença nenhuma. Quando você incentiva o consumo de derivados de exploração, está defendendo a tortura, exploração, humilhação, privação, estupro  e morte de bilhares de vidas.

Homofobia e misoginia são mascaradas pelo sagrado humor, então nada pode ser questionado. Nos primeiros cinqüenta segundos de um outro vídeo – também com a participação do indivíduo citado anteriormente – vemos uma pilha de carne de embrulhar o estômago. Uma voz máscula sugere “tratar a carne como trata a sua noiva”, e segue golpeando com socos o montinho de matéria morta.

Que engraçado. Enquanto mulheres e homossexuais morrem diariamente graças a esse tipo de cultura e bilhões de animais são torturados até o fim para engordar o colesterol do sangue humano, eu sou obrigada a rir de quem incentiva isso, senão a problemática serei eu.

Tá certinho! Bebe ae!

Empatia é a capacidade de solidarizar com aquele que não você. A compaixão de não desejar sofrimento e tortura para seres sencientes, humanos ou não. A vontade de transformar o mundo em um ambiente melhor em todos os aspectos possíveis é de intrínseca relação com a solidariedade.
Tais sentimentos são menosprezados por quem escolhe se trancar em um carro, entupir o mundo de monóxido de carbono e congestionamento, suas artérias com gordura animal, ignorar as lutas daqueles que são historicamente oprimidos e se isolar em seus privilégios. Chamar a todxs aquelxs que apresentam alternativas de vida positivas de “chatos, broxas e radicais” é muito cômodo para quem não quer perder seu topo na “cadeia alimentar”. Para essa gente que usa ambientes como a selva, o sertão e a miséria como justificativa para seus hábitos alimentares de supermercado e condomínio de luxo, a vida anda muito fácil e engraçadinha, e toda essa militância é um grande e chato exagero.

Incrível perceber a reação violenta dessas pessoas quando diante do discurso vegetariano. Se sentem ameaçadas, apesar de serem as maiorias no mundo, e vêem uma necessidade épica de confronto e ridicularização, já que são incapazes de compreender uma luta por aqueles que não podem se defender.

 Entristece saber também que mesmo x mais engajadx de determinado movimento possa não enxergar a relação entre sexismo, racismo, especismo e homofobia. Ou então perdoar determinadas condutas. Por exemplo, não admitimos racismo, mas toleramos xs milhares de especistas com quem convivemos.
E meu ponto não é dizer que militantes da causa animal sejam perfeitos, pois não são. Conheço boas dezenas de veg’s sexistas e homofóbicos. E isso me incomoda. Incomoda relativizar e menosprezar as lutas dos movimentos só porque você “não liga”, porque “tem coisa mais importante” pra se preocupar enquanto vidas são ceifadas.
Porém, de todas as formas de opressão e violência, a mais relativizada ainda é a cometida contra os não-humanos.
Abandonar uma criança é de infinita importância, porém abandonar ou matar ninhadas inteiras de filhotes é só um ato.

Fazer piada com o sofrimento de uma vaca é um clássico, assim como comparar o Reino animalia com o Reino plantae, jurando que são todos iguais, e que os “ecochatos” estão errados.

A vida humana é sempre infinitamente valorizada, sobretudo se for uma vida branca, masculina, bem sucedida financeiramente, heterossexual, cristã, onívora e motorizada. Essa é a vida com maior poder de consumo, de giro de capital. O resto? O resto é produto, prezadxs, usem como quiserem. Quando cansarem, joguem fora no lixo orgânico.

O que tem no seu leite, além de estupro e sofrimento? Pûs, colesterol, hormônios...

Se quer se informar mais sobre os muitos mitos anti-veganos, ou para parar de emitir opiniões que fariam corar de vergonha a uma criança de quatro anos de idade, recomendo os seguintes artigos:

F.A.Q Vegan.

Não Quero ser Uma Ativista Limpinha e Cheirosa, guest-post também da Deborah, na Lola

Documentário Terráqueos. A verdade documentada sobre as indústrias da exploração animal.

Deu fome? Não tá afim de beber pus com antibiótico e comer sangue? Vem!

Entenda mais sobre Creofilia e Sociopatia.

Querem Atropelar Minha Paixão.

13 jun

No ano passado, eu participei de um evento que unia hardcore, SxE e veganismo, a Verdurada de São Paulo. Fui pela comida, pela música e pelos amigos, e qual foi a minha felicidade quando soube que uma das próximas atrações seria um grupo de mulheres (exclusivamente mulheres!) ciclistas.

Precisamos começar a usar essas plaquinhas...

Minha relação com o ciclismo começou muitos anos atrás. Meus pais me deram a primeira bicicleta com sei lá…7, 8 anos. Na periferia, todas as crianças brincavam na rua, andavam de bicicleta e disputavam corrida. Eu, perdedora desde o útero, quase nunca interagi, e fui tentar pedalar numa idade considerada ultrapassada por elas.

Quando desci para a rua, lembro da visão das mães das crianças se esgueirando pelas portas e comentando com o meu pai ou uma tia que tentavam me ensinar “Mas minha nossa, ela tá com quantos anos? A minha filha aprendeu com cinco!”. Numa dessas tardes de treino, eu ousei uma tímida curva. Caí. Haviam crianças presentes. Elas riram por um tempo que, hoje, pra mim, parecem horas.

Desisti. Já me chegava o bullying, as surras e os xingamentos que ouvia na escola. Não precisava ser ridicularizada também na minha própria rua.

Dez ou onze anos depois, eu estava lá na Verdurada, vendo aquelas moças lindas falarem sobre autonomia, liberdade, sustentabilidade e superação.

Elas eram as Pedalinas, e eu era tímida e traumatizada. Quando elas terminaram de falar, eu me levantei e perguntei se havia alguma chance de elas ensinarem alguém a pedalar, mesmo depois de “crescida”. “Claro que sim, vamos programar isso aí!”.

Eu me empolguei, e elas cumpriram com a promessa.

Dia 7 de Maio de 2011, eu me encontrei com elas na Praça do Ciclista, próxima da Avenida Paulista.  Aprendi sobre a relação entre ciclismo e feminismo. A autonomia que esse meio de transporte deu às mulheres muitas gerações atrás de mim.

Eu jamais imaginaria que não era permitido que mulheres pedalassem. As justificativas eram infinitas: “É coisa de homem, viril demais”, “A saúde delas é frágil, não aguentaria”, ou até “O sangue agitado pelo exercício as deixaria com traços masculinos!”. Depois, fui saber dos obstáculos que existem até hoje. O assédio, comum a nós mulheres pedestres, toma níveis ainda mais desprezíveis quando estamos na posição de pedalada. 
Isso sem mencionar, é claro, a sensação de ser engolida por um estouro de boiada mecânica, composta por toneladas de aço e fumaça que compõem a experiência de pedalar por São Paulo.

Naquele 7 de Maio, a minha professora foi a Jeanne, alguém que vai carregar minha eterna gratidão por ter me ensinado algo que me mudou tanto. Ela correu, me equilibrou, e do nada, eu senti vontade de falar aquele “Pode soltar!” que as crianças de poucos anos dizem aos seus pais. E ela soltou. E eu deslizei.

Segundo maior amor da minha vida. ❤

Comecei a acompanhar as Pedalindas em todas as voltas. No meu aniversário, ganhei uma Blitz Fast linda e amável do meu companheiro, que agora é companheiro também de pedaladas. Subi a Augusta com a Carina, corri pela Paulista com a Bia, desci a Consolação com o meu querido, pegamos a Vergueiro, Liberdade, Ipiranga, Ibirapuera…ganhei um mundo novo.

Como eu avisei no último post, Jo e eu estamos correndo muito (infelizmente não é sempre de bike, a maior correria é de segunda a sexta, tem horário pra começar mas não tem hora pra acabar, e está localizada dentro de cubos cinzas chamados ‘escritórios’), mas sempre que temos um tempinho, tentamos nadar, pedalar, ver uma peça ou algo que nos faça ganhar o dia além da companhia um do outro. Nesse último domingo, fomos ao PicNic Pelo Mesmo Amor, no Parque do Ibirapuera. Em meio a amor, bandeiras coloridas, e comida vegana, pedalamos muito.

Estradinhas do Parque, muito amor.

Na segunda-feira, pela manhã, ainda em êxtase pelo maravilhoso final de semana, recebi uma notícia capaz de azedar qualquer dia.

Um ciclista de 68 anos foi atropelado, e assassinado morto na Av. Sumaré. Ele era experiente, costumava fazer cicloviagens, trajava capacete e possuía 15 bicicletas. Uma delas, agora será uma Ghost Bike.
Quando eu aprendi a andar de bici, deixei claro: meu objetivo era e ainda é abandonar o transporte coletivo na medida do possível, e usá-la como principal meio de transporte.
Meu caminho para o serviço é bastante complicado, cheio de grandes avenidas e stress. A vantagem é que com a bici eu posso escolher ruas menos motorizadas e mais tranquilas. Porém, como ainda sou bastante iniciante não me arrisco. Já pedalei pela rua algumas vezes e sei o quanto, mesmo sinalizando, alguns maus motoristas parecem ter prazer em passar “lambendo” por você.  

Creiam-me, qualquer pedalante urbano tem o dever (normalmente muito bem cumprido) de saber se fazer visível às boiadas metálicas, sinalizar caso vá mudar de rumo, priorizar o pedestre e passar uma boa imagem, a de que :“você não precisa dessa tonelada de aço poluente e congestionante pra ser feliz. Na verdade, nós estamos até andando mais rápido que os carros, viu? *trim trim!* faz a buzininha, e o sorriso no rosto decola!”

Respeite.

Por frustração contida ou desinformação, muitos motoristas dirigem agressivamente, e não respeitam a distância de 1,5 metro estipulada no Código Brasileiro de Trânsito para que a ultrapassagem seja feita. De tombos a mortes, ciclistas sofrem agressões diárias. Quando se é mulher, ainda tem o assédio.
Isso gera medo e estimula mais ainda a cultura que mais afunda a cidade: a Motorcracia.

Propagandas de veículos motorizados sob a voz suave de um narrador te dizem o quanto é másculo, sensual e viril correr por uma pista vazia em meio a campos de milho. Cidades normalmente não são assim (garanto que a Avenida Sumaré não é). Ou então, um chefe grita com seu motoboy ou caminhoneiro, para que cumpra prazos absurdos num local de tráfego tão intenso. Todos correm, se atropelam, se fecham, brigam e disputam uma vaga perto do próximo sinal vermelho, ou do estacionamento superlotado.
O senhor de 68 anos que se atreveu a não entrar nessa disputa enlouquecida perdeu sua vida hoje.
Márcia Regina de Andrade Prado  também, e eu não quero nem lembrar do que aconteceu em Porto Alegre.

Quando eu afirmo  que quero andar de bici para todos os lugares, muitxs me lembram que eu posso ser a próxima. Se quero sair a noite, me lembram que posso ser assaltada. Se meu short está mais curto, avisam que eu posso ser estuprada.
Essa cultura do “não seja atropelado”, “não seja roubado”, “não seja estuprada”, “não dê mole!” já não me convence.
Lutarei e me unirei a todos os grupos que promovem a ética, a paz e por que não o amor (menos motor!) sem a menor vergonha de ser chamada de radical ou bicho grilo.
A minha luta é todo o dia. Pelo fim do patriarcado, do Estado dominador, da Motorcracia, do ódio, do racismo. Não nos silenciarão. Seu medo não atropela nossa paixão. 

Foto por Elaine Campos


Adendo:
eu vi a Slutwalk de perto, pois o passeio mensal das Pedalinas ocorreu no mesmo local e hora. Fico feliz que a execução tenha mais foco na luta feminista do que na Testeronísse pregada por idealizadoras do evento. Tenho cansaço, preguiça e pressa demais para responder a todos os comentários me chamando de retrógadaconservadorafrígida, mas agradeço a divulgação da idéia inicial de qualquer forma.
Sigamos em luta.

Nota de Esclarecimento

1 jun

Jo está na mesma, então não sei quando, exatamente, isso vai voltar ao ritmo que eu gosto de floodagem.

Aguardem o nosso retorno com um provável post de ódio ao mundo empresarial sendo postado de uma ilha em São Tomé das Letras, onde venderemos duendes de durepoxi para pagar uma hora na lan house em nosso último contato com a civilização.
Abraços.

Reconsiderações Acerca da Slutwalk.

16 maio

Yep. Aquilo é um "cafetão" na Slutwalk.

Comecei uma discussão no post anterior, e procurei ouvir ao máximo todas as opiniões que chegaram até a mim pelos comentários, ou pelo meu Facebook. Nesse meio tempo, alguns posts de mulheres mais informadas sobre o movimento apareceram, bem como de outras mulheres que como eu, não sabiam exatamente o que pensar.
Estes dois que eu linkei ali em cima me ajudaram a, decididamente, repudiar a chamada Caminhada das Vagabundas. Convido a todxs que se aventuram um pouco pela língua inglesa e querem entender mais sobre o assunto ler os dois na íntegra.

As autoras tiveram conclusões que eu não seria capaz de reconsiderar, portanto, traduzo algum dos pontos principais.

Meghan Murphy no – tapa na cara –We’re Sluts, Not Feminists. Wherein my relationship with Slutwalk gets rocky. (Nós somos Putas, Não Feministas. Onde a minha relação com a Slutwalk fica difícil) sintetiza:

“Essa noção de re-apropriar o termo “vagabunda” sugere que as mulheres, possivelmente em algum tempo mais feliz, utilizassem o termo de forma apropriada para seu próprio benefício. Mas é sabido que nunca existiu uma cultura em que a solidariedade das mulheres nos obrigou a nos definir pelo o número de homens que tivemos ou quão proximamente estivéssemos quanto as condutas de vestimenta pornográficas. Quando você está protestando contra a sua própria opressão como um membro da classe do sexo, é problemático e de eficácia revolucionária questionável estampar você e seus companheiros de luta com a marca do opressor.

Figura que representa a página em construção da Femen. Uma mulher magra, loira, ideal, com seios fartos e empinados...

Vi muitos homens apoiando a Slutwalk. A maioria, porque sabia que mulheres estariam com pouca roupa. Mulheres bonitas, eles esperavam. As gordas e peludas que ficassem em casa. Afinal, mulher feia que é estuprada deveria é agradecer, não é Sr. Rafinha Bastos?
As mulheres apoiavam a Caminhada porque acreditam em algo que todas nós compartilhamos: mulher nenhuma é estuprável. Não importa o que vista, que horas sejam, ou quão bêbada esteja. Isso, não tenham dúvidas, não é alvo de críticas por nenhuma das mulheres que se opõem ao Slutwalk.
O debate aqui é sobre o viés que foi usado. O viés foi parecido com o do grupo ucranino Femen: mulheres com pouca roupa e corpos ideais chamando atenção para tal causa.
(A comparação entre a Slutwalk e o Femen foi feito pela Lola, aqui)
No Femen, assim como na Slutwalk, ganham destaque as mais bonitas. A mídia explora as curvas e a exposição, e blogs masculinos aprovam. Reforçam em coro que esse deveria ser o único tipo de protesto feminista existente. Não acredita em mim? Procure a opinião daquele (que eu não vou linkar aqui) que é um dos maiores sites do gênero, cujo nome remete ao idolatrado hormônio macho.
E aí temos dois grandes problemas.
O primeiro, é o já citado aqui: Mulheres prostituídas se sentem profundamente ofendidas ao verem pessoas privilegiadas tomando um termo tão ofensivo para si, sem nunca terem vivenciado a silenciadora opressão das reais escravas do comércio sexual. Estimular o estereotipo de “puta” nada trás de revolucionador, especialmente quando você brinca de fazê-lo por uma tarde, cercada de segurança policial (aquela mesma segurança que acusou vocês de serem as responsáveis pelos casos de violência).

Segundo: o que se muda de fato? O que temos é uma horda de machos punhetando as imagens de mulheres que se consideram libertárias sexuais, e um grupo de mulheres que consideram o estereótipo do burlesco, do prostituído, do pornográfico, algo revolucionário.

Mulheres adoram pornô etcZZzzZzzzZZZz.


Nas palavras de Meghan:

Por que, exatamente, o feminismo tem de ser ‘sexy’ para ser apoiado? Bem, a resposta, é óbvia. É para que seja palatável aos homens e às pessoas que não fazem muita questão de desafiar a ideologia dominante ou olhar para as raízes do patriarcado. Então isso [se vestir e entitular-se assim] não causa qualquer incômodo. E agora, um espaço foi criado, onde não só é aceitável, mas encorajado que os homens chamem as mulheres de putas (!);”

Meghan investiga e explicita de fato as intenções da organização do evento, e afirma:

“Assim como Suicide Girls e pessoas do movimento neo-burlesco argumentam, a Slutwalk parece encorajar a perspectiva de que a objetivação é ‘ok’, enquanto nós estivermos objetificando as mulheres que se desviam da norma perpetuada pela mídia (ou seja, loiras, magras, brancas, convencionalmente atraentes). Fazendo lutas feministas palatáveis para homens ou mulheres antifeministas.
Esses comentários tendem a ser recebidos com louvor (porque se você está se sentindo atraído por garotas “gordinhas” é revolucionário! Que homem pensante você é!) e apoiados por argumentos como “se você está objetificando a si mesma então está permitido”.

Centenas de machos de apinham nos murais das Slutwalks para darem seu apoio. Eles AMAM as "Putas"!

O que causa aquela boa dicotomia feminista, entre feministas agradáveis e desagradáveis.
Ou seja, se você se depila, é cheirosinha, usa roupas sensuais e considera o comércio sexual empoderador, você é querida.
Se não reproduz esse tipo de comportamento, é radical, feminazi e repulsiva.
O problema não é que as mulheres façam qualquer dessas coisas, mas sim que sequer questionem os reais motivos por trás disso, ou quais mudanças possam ser de fato atingidas através desse tipo de mobilização.

Para Rebecca Mott: “Slut é um termo masculino de profundo desprezo e ódio por todas as mulheres e meninas -, para a Puta Verdadeira [aquela realmente inserida no comércio sexual], os homens estão dizendo que ela não é nada senão uma coisa que ele vai foder no lixo.

Como é possível querer redefinir/tomar posse disso [dessa palavra]?”

Por que é tão fácil apoiar falsas putas (mulheres privilegiadas em roupas sensuais de acordo com o desejo do patriarcado objetificador) mas tão difícil apoiar a causa feminista quando fora dos padrões desejáveis, mesmo que lutem pelas mesmas coisas?
Para considerações mais profundas, recomendo muito que leiam os posts de Rebecca e Meghan. Se for de interesse de alguém, posso tentar traduzí-los eventualmente.

Fato é que a Slutwalk vai ocorrer em Junho em São Paulo, próxima a minha casa. E eu me sinto finalmente decidida quando afirmo que não comparecerei.

Slutwalk, Prostitutas e Nossas Apropriações.

11 maio

Dia 24 de Janeiro de 2011, um representante da polícia de Toronto afirma que “Mulheres deveriam evitar se vestir como putas (sluts), de modo que não sejam vitimizadas”.

Em abril, 3 mil pessoas, homens e mulheres, saíram pelas ruas de Toronto em protesto ao contexto de “puta” e “mulher estuprável”. É a Slutwalk (Caminhada das Vagabundas).

Com a repercussão dos primeiros protestos, o movimento já se espalhou para outras cidades do Canadá e para cidades de Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Grã-Bretanha, Holanda, Suécia e até mesmo da Argentina.

No último sábado, cerca de 2 mil pessoas participaram de uma SlutWalk em Boston, nos Estados Unidos, sob gritos de guerra como “Nós amamos as vagabundas” e “Jesus ama as vagabundas”.

Outros eventos semelhantes estão sendo programados em outras cidades da Inglaterra, da Escócia e do País de Gales.

Tudo me soava brilhante. Quase toda mulher já foi chamada de puta, vadia, rodada. Pode ser por seu comportamento, sua roupa, ou simplesmente por portar uma vagina. A maioria de nós já ouviu que não deveria sair tarde, sozinha ou com aquele tamanho de saia se quiséssemos voltar invioladas.

Não nos diga o que vestir. Diga aos homens para não estuprarem.

Vivemos em uma sociedade que ensina “Não Seja Estuprada”, ao invés de “Não Estupre”.

Portanto, a Slutwalk e seu espírito de protesto me cativaram. A princípio.

Eventualmente, surgiu no Facebook uma nota de uma moça chamada Rebecca Mott, entitulada “Razões Pelas Quais Eu Não Irei Na Slutwalk”. Resumidamente (e numa versão traduzida por mim), Rebecca diz que como mulher ex-prostutída, se sente profundamente ofendida com a Marcha das Vagabundas.

 “Eu não acredito que reclamar a palavra “Puta” faça algo para dizer aos homens violentos que seu comportamento está fora de controle (…) Reivindicar a palavra “Puta” não faz com que a história suma num passe de mágica.

(…) A Marcha das Vagabundas é do interesse de mulheres privilegiadas, que podem brincar com o papel da Puta. Se vestirem como prostitutas, carregarem placas com dizeres como “Vagabundas Dizem Sim”, e imaginar que mulheres dentro do comércio sexual são empoderadas, conforme nos chamam de Irmãs.

A Marcha das Vagabundas é sobre dizer que o estupro é ruim quando feito para mulheres e garotas “reais”, não importa o que elas vistam ou aonde vão. Mas ignorar ferozmente os estupros diários e a tortura sexual das mulheres e garotas dentro do comércio sexual. Isso é ignorado porque para as pessoas do Slutwalk, a prostituição é só um trabalho – então nós não devemos julgar ou mesmo questionar isso muito profundamente.

Algumas mulheres no Slutwalk acham que é radical se vestir como uma visão estereotipada da vagabunda, ou a versão cartunesca da puta. Podem chamar isso de burlesco, mas para as mulheres que saíram da prostituição é um insulto.

Vestir-se como uma prostituta por uma noite é muitas vezes feito a partir de uma posição de profundo privilégio. Você pode fazer isso porque supõe que estará segura, e que se você fosse estuprada haveria indignação. (…) Enquanto mulheres e meninas prostituídas não possuem a menor proteção contra estupros (…)”

Putas dizem sim / Orgulhosa de ser Puta. Cartazes da Slutwalk.

Rebecca diz que “brincar de puta não é ser uma puta”. E sinceramente, não me considero qualificada para discordar dela.

Se mulheres saem na rua protestando pela liberdade de seus corpos, é sempre preciso fazê-lo em quantidades massivas, preferencialmente acompanhadas e apoiadas por homens. Assim, deixam de ser “propriedade pública” e passam a ser “propriedade privada” (o que obviamente é uma merda).

Mas nas noites, nos becos e nas esquinas, não se vê liberdade corporal. Se vê comércio, venda, exploração. E estas mulheres não tem de fato tamanho privilégio.

Nos estereotiparmos por algumas horas e chamarmos a essas mulheres de irmãs chega a ser de fato ofensivo. Não porque elas sejam inferiores a nós. Mas porque somos privilegiadas em relação a elas. Não somos nós que estamos sendo violentadas e espancadas diariamente nas esquinas. Claro, pode acontecer conosco, afinal temos uma vagina. Mas são elas quem correm o maior risco.

Ao mesmo tempo em que acho importante defendermos nossa liberdade corporal e sexual até o fim, questiono se o método eficaz para isso seria nos transformando naquilo que nos objetifica e sexualiza de forma heteronormativa e comercial desde sempre.

O comercio sexual não é glamouroso ou libertador em nenhum aspecto. Por que de repente chamamos a essas mulheres de “irmãs”, como se conhecessemos seu real drama diário, e nos consideramos em pé de igualdade de luta?

Precisamos defender sim a liberdade das putas e das demais mulheres. Irem, virem, gozarem e vestirem o que bem entenderem. Mas o viés é mesmo nos apropriarmos dos termos e caricaturas, como se a partir disso toda a história de opressão desaparecesse sob um novo rótulo libertário?

Algumas outras mulheres ex-prostituídas comentaram que se identificaram com o escrito pela Rebecca. Novamente eu questiono: se elas que são oprimidas se sentem ofendidas, quem somos nós, mulheres privilegiadas, para dizer que isso é exagero?

Por outro lado, quem sou eu para julgar apropriações? O movimento negro, por exemplo, reivindicou a palavra “pretx” para si, e vai muito bem com isso, obrigada.

É fato que somos coagidas e ameaçadas por sermos mulheres. Nos tornamos gradativamente mais estupráveis conforme a situação em que estamos (desacompanhadas, com roupas mais curtas ou chamativas). Por isso, não poderiamos reclamar para nós o título de putas?

E a subversão que há em um homem se vestir estereotipadamente como mulher? Pode ser ofensiva para nós, uma vez que eles não vivenciam realmente a opressão patriarcal no seu dia a dia, além de “brincarem” justamente com um modelo ofensivo para nós. Mas seria uma transgressão invalidada por isso?

Rebecca é uma ex-prostituta. Sua opinião importa muito para mim e deverá ser ouvida pelas demais mulheres, penso. A discussão vai longe, e eu ainda não decidi muita coisa sobre ela, além do fato de que isso precisa acontecer.

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Atualizado: Após muita discussão, fiz algumas reconsiderações acerca do movimento.