Mulher. Objetivo: Coroa.

26 jul

Sorria, princesa!

Incrível o status que um simples enfeite de cabeça ou uma faixa nos ombros podem carregar. Pode ser uma coroa de rainha e um cetro. Uma faixa presidencial. Uma premiação de Miss. Qual você prefere?
Desde que sou criança, convivo com a imagem de mulheres coroadas. Como nasci nos anos 90, acho que minha lembrança mais forte é a de Lady Diana. Loura, magra, branca e coroada. Nobre, cercada de luxo e detentora do status de boa samaritana. Meninas da minha geração esperavam se desenvolver nesses moldes, naturalmente.

Ainda na infância, as coroas de cristais e brilhantes das

Relaxa querida. Um dia você vai achar quem te sustente e vai sobrar bastante tempo pra se cuidar e ser linda, apesar das mulheres invejosas que querem te destruir.

princesas dos contos infantis enfatizavam a pureza caucasiana, nobre e delicada, como toda garotinha deveria ser. Mas isso nunca me remeteu ao comando de uma rainha, por exemplo. Sempre vi como a subserviência de uma princesa, no máximo.
Recordo de ver nos seriados americanos a obsessão feminina pela coroação de Rainha do Baile de Debutantes. As garotas, pelo que eu observava, resumiam sua existência ao êxito de serem coroadas na noite que perpetuaria o símbolo de popularidade superior entre os colegas de estudo.

Perto da puberdade, comecei a reparar nas Misses. Miss bairro, município, cidade, país, universo, Miss Tudo. Na televisão, corpos esculpidos no bisturi, restrição e esforço eram avaliados duramente e premiados com um desespero que parecia se afogar em lágrimas: julgo que seja um sonho conquistado, um objetivo de vida cumprido. Sempre tive a impressão de que ser coroada Miss fosse o ato supremo de aceitação, já que a meta principal de uma mulher no patriarcado capitalista é ser linda e dócil, aquele sorriso e aquele aceno seriam um passaporte para as doçuras que as demais mortais jamais sonhariam conhecer.
Suponho que a parte mais difícil seja entrar na fôrma de onde todas as Misses saem. Mesmo porte físico, mesmo cabelo, mesmos seios, barrigas, bundas, coxas, pernas, vulvas (suponho). Um instinto me leva a crer que todas cheiram á baunilha também, mesmo nos dias mais quentes (seriam compostas por látex perfumado?).

O conceito de coroar e tornar nobre – ainda que metaforicamente, claro – uma mulher de acordo com a sua beleza se expandiu de forma a dominar quase todos os âmbitos de convívio social que já percorri.
Na escola da periferia, a garota que menos parecesse ter nascido ali ganhava centenas de admiradores. Quanto mais se assemelhasse ao que aparece na TV, mais sucesso obtinha nas relações sociais.

Lembro que no ensino médio fui estudar em uma escola (também pública) no centro da cidade. Uma das Misses de lá era uma colombiana. Para quem não sabe, em São Paulo existe um preconceito terrível contra chilenos, bolivianos, paraguaios e qualquer pessoa com a pele mais avermelhada (índios inclusos) do que se espera. Mas essa garota era especial, porque seus traços eram mais finos que o tradicional, mantendo apenas os cabelos pretos e lisos e a pele avermelhada que sua genética carregou. Daí o sotaque passou a ser charme – pelo menos para ela. Outrxs imigrantes continuaram apanhando e sofrendo bullying diário por não serem brasileiros.

Nas empresas, Misses de Departamentos são avaliadas pelas costas, que é justamente o ângulo pelo qual melhor pode-se observar a bunda enclausurada nas roupas formais.
Assédio? Aceite tudo como elogio se não quiser ser demitida ou acusada de histérica-frígida.

E exércitos de Miss Empregada Doméstica, Miss Passageira do Busão, Miss Garçonete, Miss Gari, Miss Motogirl…o importante é botar a fantasia e não se parecer em nada com quem veio “de baixo”.

Sou lembrada ainda de que o consciente coletivo (e eletivo) da produção em massa de Misses ainda não acabou. Obviamente somos moldadas para crer que nosso sucesso na vida depende da aparência, de forma que nos mutilamos para caber nas fôrmas impostas e almejamos de coração um lugar no pódio da ditadura de beleza. Isso não torna mulher nenhuma burra, fútil ou ignorante. Responder ao estímulo pelo qual se foi coagida durante toda a vida não merece julgamento.

Mas sim, nós tentamos, e agora existe uma data e um motivo para brilhar, e todas as mulheres que ocupam algum espaço virtual estão convidadas!
Sobre o exaustivo discurso da liberdade corporal e sexual feminina, (emancipação através da aprovação masculina, yeeeeey!) temos o Lingerie Day.

Uma datinha marcada no calendário (28/07, se quer saber) e tudo, patrocinada por empresas, blogues e sites masculinos que te dão a chance única de viver a emoção de ser uma Miss. Você só precisa exibir fotos de si mesma usando roupa íntima e ganha inteiramente de graça tropas de punheteiros te avaliando! Não é maravilhoso? Ah, mas por favor, seja magra e convencionalmente gostosa, afinal, gordas e magrelas-secas não têm direito nenhum a essa tal “liberdade sexual” conquistada através de insultos que beiram ameaças de estupro.

Você não pode ser humana. Mas fique a vontade pra ser linda, meu bem.

Se preencher todos os requisitos, você pode até ganhar prêmios das empresas patrocinadoras, e quem sabe, um status de Miss Lingerie Day, com sua coroa virtual, indicadora de ser humano realizado, nobre, digno e completo!

Objetificação, obsessão, racismo e opressão se mesclam, mas é por uma boa razão: o que resta da vida de uma mulher se ela não for bonita? Ou a gente de repente vai ser premiada por alguma outra coisa que senão os números de uma fita métrica?
Sorria e acene.

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2 Respostas to “Mulher. Objetivo: Coroa.”

  1. Escarlate julho 26, 2011 às 7:35 pm #

    Nossa, esse texto é tão real que chega a dar embrulho no estômago. É tão triste sair da bolha e perceber que você não passa de um pedaço de carne sendo avaliada, que você só pode ser “alguém” se o mundo colocar uma “etiqueta” em você. Porque é isso que é a coroa, o cetro, a faixa: uma etiqueta. Você passou no teste de qualidade.

    Não é novidade alguma que no capitalismo todo mundo é objeto, todo mundo tem um preço, TUDO pode ser comprado. Eu tive sorte de poder sair dessa bolha infernal antes de mutilar meu corpo, antes de me matar com anorexia ou emagrecedores. E tudo é tão bonito, tão perfeito, que sair desse mundinho é uma ofensa, uma revolta imperdoável, que até a sua mãe vai te obrigar a voltar pro sistema e fazer o que esperam que você faz.

  2. Danilo julho 29, 2011 às 6:29 pm #

    As mulheres-miss gostam desse tipo de coisa porque eleva bastante a auto-estima delas. E os homens-babões adoram porque tem a libido maior do que o Everest e não conseguem controlar isso. Simples assim.

    A vida é injusta mesmo, e beneficia as pessoas de status, poder aquisitivo e “boa aparência”. Não só mulheres “feias” que sofrem com discriminação, mas homens pobres, feios, tímidos, gordos, magros, também sofrem. A vida é injusta com ambos os gêneros.

    Reclamar nunca resolveu, o bom mesmo é tocar o f***-se e viver a vida em paz.

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