A Exploração Enaltece

20 jul

Sempre começa com o despertador e uma esperança.
Tudo foi forçado, “determinado”  e você sequer teve escolha. A felicidade é uma ilusão que tentamos sustentar aos tropeços embriagados de sono, logo que pulamos da cama.
O café forte é um incentivo químico que corrói as paredes do estômago na promessa de expandir as pálpebras que insistem em amolecer.

Então você está pronto para mais um dia de trabalho e sai. O céu é bonito, a manhã fria e você se imagina aproveitando o dia na praia ou no parque, mas logo acorda dentro do trânsito. Convence-se de que não é tão ruim assim, afinal “quanto mais trabalhar, mais sossego terei no futuro!” ou não?
Então se conforma e aguarda, – paciente por si, tenso pela espera alheia – o coletivo que fervilha com o povo.

Moças de cabelos alinhados preocupam-se em esconder as olheiras de cansaço embaixo do pó da maquiagem. Torcem os tornozelos equilibrados em finas hastes de sapatos que custam mais da metade do que ganham no mês.  Enquanto isso, o chefe chega no carro do ano, uma SUV preta e reluzente, na hora que quer e  sem suar  uma gota por causa do seu novíssimo ar condicionado “sustentável”.

Rapazes estrangulados por gravatas irritam-se e interrogam o ir e vir dos garçons, intimidando com olhares autoritários scanneadores  – o seu vizinho de salário mínimo – que serve o almoço.

Um adolescente de mochila e fones de ouvido, ainda em idade escolar, prepara-se para as próximas horas cumprindo ordens. Na sala de aula pública e obrigatória, ele já sabe que a vida não será igual ao do playboy da escola particular vizinha. Depois da prova de matemática, segue no “corre” da papelaria, banco e muito busão pela frente até o escritório. Tempo para estudar? Vai ficar pra próxima! “Hey! O gerente precisa que cê busque, de última hora, os documentos do filho dele no bairro nobre”. O moleque passou na melhor faculdade pública da cidade. Parabéns, quando vai ser a sua vez?  “Vixi véio…sei lá…”

De outra zona cinza da cidade, um suspiro ecoa. Mais uma tarde de horas extras será paga com um sorriso cínico de quem enriquece às suas custas.
A caixa cinzenta, iluminada e ventilada artificialmente, é sua moradia. Sua vida é consumida naquele ambiente impregnado de nicotina e cafeína, abarrotado de metas e ordens que mal sabemos para que servem.
O alívio seria maior se a volta para o lar não fosse tão claustrofóbica, consumida pelo enclausuramento coletivo. Amontoados humanos aspiram por um trajeto desafogado, algumas vezes recompensados com avenidas transbordadas de uma névoa preta e mal-cheirosa, projetadas para caixas com rodas, ocupados por uma única pessoa, ou por caixas maiores que caibam dezenas de pessoas desesperadas, disputando o pódio para quem chegar  primeiro em casa e assistir a continuação da novela  de romances impossíveis e luxuosos. “Queria ser que nem aquele da novela…dono de empresa, mulherengo e viajar o mundo” – “Queria ser que nem aquela da novela…mulher do ricaço, pilates na praia e choffer até às lojas de grife”

Mas como dizem por aí, que a esperança é a ultima que morre “Aperta o salário um pouco mais e entra na faculdade particular…pelo menos você terá graduação né?”, tenta agregar conhecimento pra mudar de vida, trabalhar e enriquecer!!. Mas sua realidade difere do playboy da “particular”, você não teve qualidade e nem tempo para se graduar. Paga o diploma quase dormindo nas aulas, que amanhã é outro dia, amanha é outra esperança.  Sua família insiste e repete que você precisa se esforçar um pouco mais, sugar um pouco mais da sua força de trabalho, sua energia, sua vida. “Talvez eu ganhe na megasena…daí tudo seria lindo!!”
ACORDA!! Volta pro seu cubículo,  seu dono quer viajar pro exterior e ainda não recebi o orçamento dos novos modelos, talvez  ele queira trocar o carro por um novo ainda hoje.
(…)

Escravidão, Servidão, Salariado.

[…] O salariado, com efeito, não é senão a forma moderna da servidão e de seu ancestral: a escravidão; isso não gera nenhuma dúvida e é reconhecido por todos aqueles que examinam as coisas de maneira saudável, que não estão cegos por um interesse de classe qualquer.
Tendo achado mais proveitoso explorar seu semelhante do que comê-lo, o homem buscou extrair disso toda a soma de trabalho possível, ficando a seu cargo proporcionar-lhe as coisas necessárias para sua existência, mas tendo o cuidado de reduzir suas necessidades escravistas ao justo necessário para que continue a fornecer a soma de trabalho exigida.
[…] Do mesmo modo que a servidão substituiu a escravidão, o salariado substituiu a servidão. A Revolução de 1789 queimou os velhos títulos de propriedade feudais, os camponeses enforcaram alguns senhores, os burgueses guilhotinaram alguns outros, a propriedade mudou de mãos, a supremacia da propriedade feudal passou às mãos do capital, o assalariado substituiu o servo; nominativamente, o trabalhador tornou-se livre, tudo o que há de mais livre! Completamente liberto dos laços que o prendiam à terra, pode transportar-se de um país a outro, se tem os meios de pagar às companhias ferroviárias – que cobram uma tarifa enorme de passageiros – ou se tem do que se alimentar durante o tempo que durar sua viagem, se resolver fazê-la a pé.

Tem o direito de residir em qualquer apartamento, desde que pague ao proprietário do imóvel; tem o direito de trabalhar em qualquer lugar, sob a condição de que o industrial que açambarcou as ferramentas de trabalho do ramo industrial que ele escolheu, queira emprega-lo; não está obrigado a nenhuma servidão em relação àqueles que o empregam; sua mulher já não é obrigada a suportar os caprichos do senhor ; a própria lei o proclama bilionário; mais ainda, pode tomar parte na elaboração das leis – pelo direito de escolher aqueles que devem produzi-las – tanto quanto os privilegiados; não é esse, portanto, o ideal de seus sonhos? O que lhe falta, então, para estar no ápice de suas aspirações? Deve-se crer que não, pois se reconhece que o salariado é tão-somente a transformação atenuada da escravidão, e pede-se sua abolição.

É que todos esses direitos são apenas nominativos e que, para servir-se deles, é preciso possuir o poder político que permite viver à custa daqueles que vos suportam, ou possuir esse motor universal, o dinheiro, que liberta de tudo.
O capitalista não pode mais matar o trabalhador, mas pode deixá-lo morrer de fome ao não empregá-lo; […]

KROPOTKIN, P. “O Princípio Anarquista e Outros Ensaios” Editora Hedra (2008) Edição brasileira

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3 Respostas to “A Exploração Enaltece”

  1. Caroline J. julho 20, 2011 às 1:02 am #

    Já leu a Abolição do Trabalho?
    http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/abolicao.html

    Tem tbm o Manifesto contra o Trabalho, tô sem o link aqui.

    • krasis julho 20, 2011 às 1:03 am #

      Liked, sua linda!

      • Dandi Marques julho 20, 2011 às 10:28 pm #

        Olha aí o nosso cotidiano!

        Também tenho umas paqueras com o anarquismo, mas continuo estudando política – é muito séria para deixar nas mãos de pulhas malditos.

        Obrigado por mais um excelente texto e parabéns! 😉

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