Slutwalk, Prostitutas e Nossas Apropriações.

11 maio

Dia 24 de Janeiro de 2011, um representante da polícia de Toronto afirma que “Mulheres deveriam evitar se vestir como putas (sluts), de modo que não sejam vitimizadas”.

Em abril, 3 mil pessoas, homens e mulheres, saíram pelas ruas de Toronto em protesto ao contexto de “puta” e “mulher estuprável”. É a Slutwalk (Caminhada das Vagabundas).

Com a repercussão dos primeiros protestos, o movimento já se espalhou para outras cidades do Canadá e para cidades de Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Grã-Bretanha, Holanda, Suécia e até mesmo da Argentina.

No último sábado, cerca de 2 mil pessoas participaram de uma SlutWalk em Boston, nos Estados Unidos, sob gritos de guerra como “Nós amamos as vagabundas” e “Jesus ama as vagabundas”.

Outros eventos semelhantes estão sendo programados em outras cidades da Inglaterra, da Escócia e do País de Gales.

Tudo me soava brilhante. Quase toda mulher já foi chamada de puta, vadia, rodada. Pode ser por seu comportamento, sua roupa, ou simplesmente por portar uma vagina. A maioria de nós já ouviu que não deveria sair tarde, sozinha ou com aquele tamanho de saia se quiséssemos voltar invioladas.

Não nos diga o que vestir. Diga aos homens para não estuprarem.

Vivemos em uma sociedade que ensina “Não Seja Estuprada”, ao invés de “Não Estupre”.

Portanto, a Slutwalk e seu espírito de protesto me cativaram. A princípio.

Eventualmente, surgiu no Facebook uma nota de uma moça chamada Rebecca Mott, entitulada “Razões Pelas Quais Eu Não Irei Na Slutwalk”. Resumidamente (e numa versão traduzida por mim), Rebecca diz que como mulher ex-prostutída, se sente profundamente ofendida com a Marcha das Vagabundas.

 “Eu não acredito que reclamar a palavra “Puta” faça algo para dizer aos homens violentos que seu comportamento está fora de controle (…) Reivindicar a palavra “Puta” não faz com que a história suma num passe de mágica.

(…) A Marcha das Vagabundas é do interesse de mulheres privilegiadas, que podem brincar com o papel da Puta. Se vestirem como prostitutas, carregarem placas com dizeres como “Vagabundas Dizem Sim”, e imaginar que mulheres dentro do comércio sexual são empoderadas, conforme nos chamam de Irmãs.

A Marcha das Vagabundas é sobre dizer que o estupro é ruim quando feito para mulheres e garotas “reais”, não importa o que elas vistam ou aonde vão. Mas ignorar ferozmente os estupros diários e a tortura sexual das mulheres e garotas dentro do comércio sexual. Isso é ignorado porque para as pessoas do Slutwalk, a prostituição é só um trabalho – então nós não devemos julgar ou mesmo questionar isso muito profundamente.

Algumas mulheres no Slutwalk acham que é radical se vestir como uma visão estereotipada da vagabunda, ou a versão cartunesca da puta. Podem chamar isso de burlesco, mas para as mulheres que saíram da prostituição é um insulto.

Vestir-se como uma prostituta por uma noite é muitas vezes feito a partir de uma posição de profundo privilégio. Você pode fazer isso porque supõe que estará segura, e que se você fosse estuprada haveria indignação. (…) Enquanto mulheres e meninas prostituídas não possuem a menor proteção contra estupros (…)”

Putas dizem sim / Orgulhosa de ser Puta. Cartazes da Slutwalk.

Rebecca diz que “brincar de puta não é ser uma puta”. E sinceramente, não me considero qualificada para discordar dela.

Se mulheres saem na rua protestando pela liberdade de seus corpos, é sempre preciso fazê-lo em quantidades massivas, preferencialmente acompanhadas e apoiadas por homens. Assim, deixam de ser “propriedade pública” e passam a ser “propriedade privada” (o que obviamente é uma merda).

Mas nas noites, nos becos e nas esquinas, não se vê liberdade corporal. Se vê comércio, venda, exploração. E estas mulheres não tem de fato tamanho privilégio.

Nos estereotiparmos por algumas horas e chamarmos a essas mulheres de irmãs chega a ser de fato ofensivo. Não porque elas sejam inferiores a nós. Mas porque somos privilegiadas em relação a elas. Não somos nós que estamos sendo violentadas e espancadas diariamente nas esquinas. Claro, pode acontecer conosco, afinal temos uma vagina. Mas são elas quem correm o maior risco.

Ao mesmo tempo em que acho importante defendermos nossa liberdade corporal e sexual até o fim, questiono se o método eficaz para isso seria nos transformando naquilo que nos objetifica e sexualiza de forma heteronormativa e comercial desde sempre.

O comercio sexual não é glamouroso ou libertador em nenhum aspecto. Por que de repente chamamos a essas mulheres de “irmãs”, como se conhecessemos seu real drama diário, e nos consideramos em pé de igualdade de luta?

Precisamos defender sim a liberdade das putas e das demais mulheres. Irem, virem, gozarem e vestirem o que bem entenderem. Mas o viés é mesmo nos apropriarmos dos termos e caricaturas, como se a partir disso toda a história de opressão desaparecesse sob um novo rótulo libertário?

Algumas outras mulheres ex-prostituídas comentaram que se identificaram com o escrito pela Rebecca. Novamente eu questiono: se elas que são oprimidas se sentem ofendidas, quem somos nós, mulheres privilegiadas, para dizer que isso é exagero?

Por outro lado, quem sou eu para julgar apropriações? O movimento negro, por exemplo, reivindicou a palavra “pretx” para si, e vai muito bem com isso, obrigada.

É fato que somos coagidas e ameaçadas por sermos mulheres. Nos tornamos gradativamente mais estupráveis conforme a situação em que estamos (desacompanhadas, com roupas mais curtas ou chamativas). Por isso, não poderiamos reclamar para nós o título de putas?

E a subversão que há em um homem se vestir estereotipadamente como mulher? Pode ser ofensiva para nós, uma vez que eles não vivenciam realmente a opressão patriarcal no seu dia a dia, além de “brincarem” justamente com um modelo ofensivo para nós. Mas seria uma transgressão invalidada por isso?

Rebecca é uma ex-prostituta. Sua opinião importa muito para mim e deverá ser ouvida pelas demais mulheres, penso. A discussão vai longe, e eu ainda não decidi muita coisa sobre ela, além do fato de que isso precisa acontecer.

_____

Atualizado: Após muita discussão, fiz algumas reconsiderações acerca do movimento.

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16 Respostas to “Slutwalk, Prostitutas e Nossas Apropriações.”

  1. cely maio 11, 2011 às 4:54 pm #

    Adorei a comparação com os homens vestidos de mulher e todas as questões que você levantou, também não me decidi ainda…acredito no potencial da slutwalk, mas precisamos ouvir a Rebecca e outras mulheres antes de tudo…

  2. Flávia maio 11, 2011 às 6:20 pm #

    Seu blog é ótimo!!! Conheci hj, já devorei-o inteiro e voltarei sempre!!! =D

  3. Daniela maio 11, 2011 às 7:31 pm #

    Oi, Mexy.

    Muito interessante o post, nos faz refletir mesmo.

    Eu percebo como uma luta que beneficia tanto a nós, ‘privilegiadas’, quanto as putas ‘de profissão’, e que é uma luta de todas, putas ou não, pois, por um lado estamos ‘nós’, privilegiadas, que não queremos que nos digam que não devemos usar roupas consideradas de putas para não sermos vitimizadas ao invés de dizerem para que estupradores não estuprem, e isso já é um claro alerta de que putas são mais vitimizadas, pois, se acham que não devemos nos vestir de putas para não sermos vítimas, logo, as putas, que não tem outra opção se não a de se vestir de puta, são vítimas em potencial. Deixando claro que, de qualquer maneira, a culpa é nossa e não do estuprador, sejamos nós putas ou não.
    Porém, concordo que seja incoerente elas chamarem as putas de irmãs quando não conhecem a rotina real delas.

    Até mais!

    • krasis maio 11, 2011 às 7:48 pm #

      Muito boa reflexão, Dani.
      Obrigada por compartilhar. (:

  4. Pardal Lilás maio 11, 2011 às 8:09 pm #

    muito bom seu texto, principalmente por “ainda” não tomar uma posição. Esse tema é realmente muito complexo. Hoje, no facebook, passei umas horas discutindo o assunto e os comentários me deixam sempre perplexa, coisa do tipo: “temos temas mais urgentes pra debates”, “o fulano tem que ver essa marcha”, etc

    só pra lembrar, gosto do modo como a Daspu vem tentando resignificar as palavras puta, prostituta e etc. Pra mim, acho termos bem melhores do que “profissional do sexo” – tem uma associação aqui em Belo Horizonte chamada APS, “associação das profissionais do sexo”. Exatamente porque esses eu sinto que conservam em si a historicidade da coisa toda, enquanto que profissional do sexo é uma coisa limpinha, bonitinha, mercadológica. Eu to citando a Daspu e a APS pra citar exemplos de quem é prostituta e está lidando com isso no momento, algumas querendo sair, outras saindo e voltando, outras sem intenção nenhuma de mudar, e acho os argumentos delas tão importantes quanto das ex-prostitutas e ex-prostituídas. Mas também não tenho posição definida sobre essa apropriação e nem sobre a própria prostituição.

    outra coisa, eu concordo que sair vestida de prostituta um dia só é fácil e cômodo, é pras privilegiadas. Mas acho que essa manifestação não se pauta só nas prostitutas e sim em todas nós, no modo como todas todas nós nos vestimos e estamos à mercê dos ataques. Afinal, não são só elas as vagabundas, somos todas. Mas achei muito importante você relembrar que uma vagabunda é beeem, mas beeeem diferente da outra vagabunda. Isso tem que ser sempre relembrado.

    tenho pensado que uma marcha assim aqui em Belo Horizonte é urgente, mas me preocupa muito a forma como será feita. Fico por aqui, ainda com muitas dúvidas na cabeça também, pois acho que este debate ainda tem muito o que amadurecer.

    abraços, parabéns, pelo blog.

  5. Pardal Lilás maio 11, 2011 às 8:34 pm #

    uma coisa que esqueci de comentar. passei o dia todo falando que quando alguém diz que a mulher deve se proteger do estupro usando roupas comportadas está sendo preconceituoso com homens e mulheres. “Mulheres podem ser estupradas pelos homens estupradores”. As mulheres se rebelam: tenho o direito de vestir o que eu quiser e homem nenhum tem o direito de me estuprar por isso. E os homens? o que fazem? nada.

    eu ainda to esperando pelo menos um cartazinho que seja dizendo “ter nascido com um pinto não faz de mim estuprador”

    me impressiona os homens não se sentirem ofendidos com esse tipo de afirmação. =/

  6. Jeanne Callegari maio 12, 2011 às 6:55 pm #

    Moça! Também tenho pensado sobre isso, sabe. Não chego a nenhuma conclusão. Por um lado, é fato que esses protestos partem de uma posição muito privilegiada; por outro, essa posição é a única que essas moças que participam da Slutwalk têm, sabe? Elas não podem evitar serem de onde são. Quando o movimento pela emancipação das mulheres começou, ele era um movimento pela emancipação, praticamente, de mulheres brancas e com recursos; afinal, elas eram as que tinham instrução e condições de questionar os padrões vigentes. A luta pelos direitos dos negros, e por consequência das mçuheres negras, veio mais de 100 anos depois. Isso invalida essa primeira luta? Acho que não, acho que foi válida, e o que era possível naquele contexto histórico.

    A Slutwalk me lembra também do Larte: http://revistatrip.uol.com.br/so-no-site/entrevistas/paradoxo-de-salto-alto.html
    Veja esse trecho, quando ele fala das travestis: “[…]São pessoas que foram mergulhadas numa barra mais pesada por causa do contexto social onde elas vivem. Não é fofinho que nem eu. Eu viro para os meus filhos, meus pais, minha namorada e falo: “Ah, acho que vou me vestir de mulher, beleza?”. Rola um entranhamento, mas eu sou aceito.”
    O Laerte faz isso porque é seguro pra ele, mas acho que vale essa transgressão, sim. Esse questionamento; as fronteiras de gênero são mais borradas do que a gente gosta de pensar…

  7. Amanda maio 27, 2011 às 12:08 am #

    Parabéns. Gostei das considerações e da discussão sobre apropriação de termos. Adoro a idéia do slut walk, mas o que você escreveu é muito relevante.

  8. Luka maio 30, 2011 às 9:49 pm #

    Reflexão ótima para o debate, eu acredito que uma marcha reunindo mulheres contra a violência machista seja qual for importante, pois não importa se for prostituta, estudante, profissional que for se é violentada precisa de assistência real e não um monte de arremedos que temos por aí.
    É fato que as prostitutas são a base mais ameaçada da pirâmide sexual, não apenas por seus clientes, mas pelos cafetões e policiais… É reflexão necessária, se não fosse pelo fato de poderem se vestir como putas as mulheres iriam massivamente numa marcha contra a violência machista no momento atual?
    Mas ao mesmo tempo não é válido reunir mulheres para protestar contra a violência sexual e apresentando formulação de que o fato deu me vestir assim ou assado que dá o direito de estuprar, dar porrada ou o que for?
    Acho reflexões importantes em tempos de véspera de SlutWalk no Brasil, como as mulheres irão debater este tema, apenas pela ótica das que não são a base da violência sexual ou defendendo também aquelas mais oprimidas? Por enquanto pelo qeu li, tende o fetichismo e não o debate sobre política pública e relações sociais…

  9. Anonymiss outubro 17, 2011 às 3:02 pm #

    (Tentei enviar esse comment umas três vezes, mas o WordPress me odeia. Então, se forem vários, me desculpe!)

    Por que em vez de falar “Marcha das Vadias, somos todas vadias, mulher é tudo vadia, não estuprem vadias porque somos vadias, vadias vadias vadias vadias”, não falamos “Marcha das mulheres, somos todas mulheres, não estuprem mulheres por serem mulheres”? Por que usamos justo uma palavra de ódio do patriarcado para nos definir? Por que caímos exatamente na dicotomia santa-puta e nos sentimos confortáveis o bastante para ficar nela? Por que é mais confortável falar que, sim, toda mulher é vadia (Já ouvi isso de feministas, e mesmo assim, se a Slut Walk é contra o estupro, e toda mulher pode ser estuprada, toda mulher é vadia), mas não nos estuprem, por favor, nos deixem ficar objetificadas pra vocês?

    Por que ignorar as mulheres que não têm a mínima vontade de “recuperar” (Como se a palavra vadia tivesse sido nossa uma vez) a palavra, como lésbicas, ou como mulheres que a palavra “vadia” machucou muito, como vítimas de estupro que foram chamadas de vadia, ou como mulheres que simplesmente não concordam com isso? Se eu tivesse sido estuprada, me chamariam de vadia, e eu realmente não iria querer minhas irmãs, as mulheres que supostamente lutam para libertar o sexo feminino do patriarcado, me dizendo, “Olha, você é sim uma vadia. Você nasceu mulher, então é uma vadia. Eles estão certos. Só que você não deveria ter sido estuprada.” Eu NÃO sou uma vadia. Eu sou simplesmente uma MULHER, nem santa nem puta. Só porque o patriarcado me chama de vadia não quer dizer que eu SOU, só porque o patriarcado me chama de vadia não quer dizer que eu tenha que abaixar a cabeça e dizer “Poxa, é verdade, o patriarcado diz que vadia no final é qualquer mulher, então eu sou mesmo uma vadia”.

    Por que as feministas da slutwalk têm que dizer coisas incrivelmente parecidas com o patriarcado? A Marcha das Vadias é uma marcha ao mesmo tempo anti-slut shaming e anti-victim blaming. Então se uma mulher é culpada, pelo patriarcado, pelo seu próprio estupro, ela está na lista de mulheres que deveriam ser defendidas pela slutwalk. Mas a slutwalk diz que ela é uma vadia, também, que toda mulher é uma vadia, como eu disse, que blablablá, blablablá… O que muda é quem diz, mas o que é dito poderia ser falado por uma feminista da slutwalk ou pelo pior machista do mundo. Os dois diriam a mesma coisa.

    Acho que a questão da slutwalk é que as mulheres não estão vendo o tamanho do xingamento que estão tentando apropriar. Ser uma vadia é ser um pedaço de carne fodível. É ser uma mulher cujo principal interesse são homens, e ser deles, ser mais de um deles. É a mulher que o patriarcado mais ama, o tipo de mulher mais necessária ao patriarcado, aquela que é inferior e que os homens podem xingar à vontade, mas também comer, porque ela não tem como se salvar disso, por ser mulher. Pro patriarcado, no final, toda mulher é puta, até mesmo as mães, que deviam ser santas, só que aí é a mãe dos outros. Por que então tentar pegar ESSE xingamento para nós? Por que então tentar inventar que, na verdade, vadia não é isso… Vadia é uma mulher rebelde, revolucionária, livre, dona de si! BULLSHIT. O patriarcado nunca vai entender o seu principal xingamento como algo bom pras mulheres. Consigo até imaginar os homens mais machistas vendo essas mulheres que dizem ser orgulhosamente putas nas fotos: Vamos estuprá-las, afinal, elas querem sexo mesmo, ela dirão sim mesmo, não vai ser estupro se elas dizem sim. Vamos xingá-las mesmo, afinal, elas mesmo admitem que são vadias. Vamos diminuí-las o máximo possível, afinal, elas são vadias.

    Eu acho que a slutwalk, além de ser machocêntrica, é um tipo de feminismo extremamente individual e falho. É um tipo de feminismo dentro da zona de conforto. É mais fácil falar “Sim, eu sou uma vadia, como os homens como classe me disseram a vida toda! Mas não me estupre.” que falar “Não, eu NÃO sou uma vadia, eu também não sou santa, eu sou simplesmente uma mulher que quer se livrar disso. Não me estupre.”

    Meu problema com a slutwalk é esse. É confundir uma coisa com a outra – Culpar a vítima e envergonhar as “vadias”. Os dois podem existir juntos, mas não são a mesma coisa. Até uma mulher de BURCA pode ser estuprada. Até a mulher mais evangélica de saias longas e cabelo em coque e modéstia 100 pode ser estuprada, e tenho certeza que elas não querem ser chamadas de vadias, porque isso significaria que elas teriam que ter se coberto mais, chamado menos atenção…

    A slutwalk pega apenas uma parte do problema, e dá vários passos pra trás no caminho. Seria MUITO MELHOR uma marcha pró-mulher, anti-estupro, sem chamar as próprias mulheres de vadias, sem confirmar que sim, todas são vadias mesmo. Seria muito melhor manter a dignidade das mulheres. Seria muito melhor ser verdadeiramente feminista e REJEITAR noções do patriarcado (Santa/Puta), em vez de abaixar a cabeça para o que tentamos destruir, garantir que sim, vivemos e queremos viver neste problema, não queremos sair desta dicotomia…

    Meu problema com isso é o tamanho do liberalismo e anti-conservadorismo da palavra puta, contra a santa. Olha, vivemos em um mundo que tem que ser mais liberal, menos conservador, né… E santa é uma palavra conservadora, usada para oprimir as mulheres… Então vamos ser putas, que é o contrário, o outro oposto da questão! É tão liberal e moderno falar que somos putas, que somos “sexualmente livres”. Ser “santa” é tão backwards. É uma reação lógica: Ao tentar fugir de uma coisa, vamos para o ponto oposto dessa coisa, mas acabamos caindo, ainda assim, dentro da dicotomia. Não pensamos em simplesmente sair disso. Parar de nos chamarmos de santas ou putas.

    Eu não sou representada pela slutwalk. Eu sei que homens moderninhos e liberais AMAM a slutwalk, amam vadias, amam mulheres que vão dizer sim, amam mulheres que se vestem com pouca roupa. Eu sei que uma parte dos homens – Os não-conservadores – Estão se deliciando com essa slutwalk. Eu sei que tem homens organizando slutwalks, homens machistas.

    O meu feminismo não é isso. O meu feminismo não é abaixar a cabeça para um termo patriarcal e aceitá-lo completamente, com a idéia de que com um pouco de puxões aqui e ali, podemos transformá-lo em algo libertador para metade da humanidade. Meu feminismo é não abaixar a cabeça para um termo patriarcal e falar, “eu não quero ser parte disso. Eu NÃO sou puta, eu NÃO sou santa. Eu NÃO sou definida por vocês, eu NÃO sou definida por homens. Eu sou simplesmente uma mulher, que deve ser tratada com respeito. Eu sou mulher e quero respeito, e não quero ter que apelar para me considerar parte da dicotomia para ser tratada bem.”

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