Arquivo | maio, 2011

Reconsiderações Acerca da Slutwalk.

16 maio

Yep. Aquilo é um "cafetão" na Slutwalk.

Comecei uma discussão no post anterior, e procurei ouvir ao máximo todas as opiniões que chegaram até a mim pelos comentários, ou pelo meu Facebook. Nesse meio tempo, alguns posts de mulheres mais informadas sobre o movimento apareceram, bem como de outras mulheres que como eu, não sabiam exatamente o que pensar.
Estes dois que eu linkei ali em cima me ajudaram a, decididamente, repudiar a chamada Caminhada das Vagabundas. Convido a todxs que se aventuram um pouco pela língua inglesa e querem entender mais sobre o assunto ler os dois na íntegra.

As autoras tiveram conclusões que eu não seria capaz de reconsiderar, portanto, traduzo algum dos pontos principais.

Meghan Murphy no – tapa na cara –We’re Sluts, Not Feminists. Wherein my relationship with Slutwalk gets rocky. (Nós somos Putas, Não Feministas. Onde a minha relação com a Slutwalk fica difícil) sintetiza:

“Essa noção de re-apropriar o termo “vagabunda” sugere que as mulheres, possivelmente em algum tempo mais feliz, utilizassem o termo de forma apropriada para seu próprio benefício. Mas é sabido que nunca existiu uma cultura em que a solidariedade das mulheres nos obrigou a nos definir pelo o número de homens que tivemos ou quão proximamente estivéssemos quanto as condutas de vestimenta pornográficas. Quando você está protestando contra a sua própria opressão como um membro da classe do sexo, é problemático e de eficácia revolucionária questionável estampar você e seus companheiros de luta com a marca do opressor.

Figura que representa a página em construção da Femen. Uma mulher magra, loira, ideal, com seios fartos e empinados...

Vi muitos homens apoiando a Slutwalk. A maioria, porque sabia que mulheres estariam com pouca roupa. Mulheres bonitas, eles esperavam. As gordas e peludas que ficassem em casa. Afinal, mulher feia que é estuprada deveria é agradecer, não é Sr. Rafinha Bastos?
As mulheres apoiavam a Caminhada porque acreditam em algo que todas nós compartilhamos: mulher nenhuma é estuprável. Não importa o que vista, que horas sejam, ou quão bêbada esteja. Isso, não tenham dúvidas, não é alvo de críticas por nenhuma das mulheres que se opõem ao Slutwalk.
O debate aqui é sobre o viés que foi usado. O viés foi parecido com o do grupo ucranino Femen: mulheres com pouca roupa e corpos ideais chamando atenção para tal causa.
(A comparação entre a Slutwalk e o Femen foi feito pela Lola, aqui)
No Femen, assim como na Slutwalk, ganham destaque as mais bonitas. A mídia explora as curvas e a exposição, e blogs masculinos aprovam. Reforçam em coro que esse deveria ser o único tipo de protesto feminista existente. Não acredita em mim? Procure a opinião daquele (que eu não vou linkar aqui) que é um dos maiores sites do gênero, cujo nome remete ao idolatrado hormônio macho.
E aí temos dois grandes problemas.
O primeiro, é o já citado aqui: Mulheres prostituídas se sentem profundamente ofendidas ao verem pessoas privilegiadas tomando um termo tão ofensivo para si, sem nunca terem vivenciado a silenciadora opressão das reais escravas do comércio sexual. Estimular o estereotipo de “puta” nada trás de revolucionador, especialmente quando você brinca de fazê-lo por uma tarde, cercada de segurança policial (aquela mesma segurança que acusou vocês de serem as responsáveis pelos casos de violência).

Segundo: o que se muda de fato? O que temos é uma horda de machos punhetando as imagens de mulheres que se consideram libertárias sexuais, e um grupo de mulheres que consideram o estereótipo do burlesco, do prostituído, do pornográfico, algo revolucionário.

Mulheres adoram pornô etcZZzzZzzzZZZz.


Nas palavras de Meghan:

Por que, exatamente, o feminismo tem de ser ‘sexy’ para ser apoiado? Bem, a resposta, é óbvia. É para que seja palatável aos homens e às pessoas que não fazem muita questão de desafiar a ideologia dominante ou olhar para as raízes do patriarcado. Então isso [se vestir e entitular-se assim] não causa qualquer incômodo. E agora, um espaço foi criado, onde não só é aceitável, mas encorajado que os homens chamem as mulheres de putas (!);”

Meghan investiga e explicita de fato as intenções da organização do evento, e afirma:

“Assim como Suicide Girls e pessoas do movimento neo-burlesco argumentam, a Slutwalk parece encorajar a perspectiva de que a objetivação é ‘ok’, enquanto nós estivermos objetificando as mulheres que se desviam da norma perpetuada pela mídia (ou seja, loiras, magras, brancas, convencionalmente atraentes). Fazendo lutas feministas palatáveis para homens ou mulheres antifeministas.
Esses comentários tendem a ser recebidos com louvor (porque se você está se sentindo atraído por garotas “gordinhas” é revolucionário! Que homem pensante você é!) e apoiados por argumentos como “se você está objetificando a si mesma então está permitido”.

Centenas de machos de apinham nos murais das Slutwalks para darem seu apoio. Eles AMAM as "Putas"!

O que causa aquela boa dicotomia feminista, entre feministas agradáveis e desagradáveis.
Ou seja, se você se depila, é cheirosinha, usa roupas sensuais e considera o comércio sexual empoderador, você é querida.
Se não reproduz esse tipo de comportamento, é radical, feminazi e repulsiva.
O problema não é que as mulheres façam qualquer dessas coisas, mas sim que sequer questionem os reais motivos por trás disso, ou quais mudanças possam ser de fato atingidas através desse tipo de mobilização.

Para Rebecca Mott: “Slut é um termo masculino de profundo desprezo e ódio por todas as mulheres e meninas -, para a Puta Verdadeira [aquela realmente inserida no comércio sexual], os homens estão dizendo que ela não é nada senão uma coisa que ele vai foder no lixo.

Como é possível querer redefinir/tomar posse disso [dessa palavra]?”

Por que é tão fácil apoiar falsas putas (mulheres privilegiadas em roupas sensuais de acordo com o desejo do patriarcado objetificador) mas tão difícil apoiar a causa feminista quando fora dos padrões desejáveis, mesmo que lutem pelas mesmas coisas?
Para considerações mais profundas, recomendo muito que leiam os posts de Rebecca e Meghan. Se for de interesse de alguém, posso tentar traduzí-los eventualmente.

Fato é que a Slutwalk vai ocorrer em Junho em São Paulo, próxima a minha casa. E eu me sinto finalmente decidida quando afirmo que não comparecerei.

Slutwalk, Prostitutas e Nossas Apropriações.

11 maio

Dia 24 de Janeiro de 2011, um representante da polícia de Toronto afirma que “Mulheres deveriam evitar se vestir como putas (sluts), de modo que não sejam vitimizadas”.

Em abril, 3 mil pessoas, homens e mulheres, saíram pelas ruas de Toronto em protesto ao contexto de “puta” e “mulher estuprável”. É a Slutwalk (Caminhada das Vagabundas).

Com a repercussão dos primeiros protestos, o movimento já se espalhou para outras cidades do Canadá e para cidades de Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia, Grã-Bretanha, Holanda, Suécia e até mesmo da Argentina.

No último sábado, cerca de 2 mil pessoas participaram de uma SlutWalk em Boston, nos Estados Unidos, sob gritos de guerra como “Nós amamos as vagabundas” e “Jesus ama as vagabundas”.

Outros eventos semelhantes estão sendo programados em outras cidades da Inglaterra, da Escócia e do País de Gales.

Tudo me soava brilhante. Quase toda mulher já foi chamada de puta, vadia, rodada. Pode ser por seu comportamento, sua roupa, ou simplesmente por portar uma vagina. A maioria de nós já ouviu que não deveria sair tarde, sozinha ou com aquele tamanho de saia se quiséssemos voltar invioladas.

Não nos diga o que vestir. Diga aos homens para não estuprarem.

Vivemos em uma sociedade que ensina “Não Seja Estuprada”, ao invés de “Não Estupre”.

Portanto, a Slutwalk e seu espírito de protesto me cativaram. A princípio.

Eventualmente, surgiu no Facebook uma nota de uma moça chamada Rebecca Mott, entitulada “Razões Pelas Quais Eu Não Irei Na Slutwalk”. Resumidamente (e numa versão traduzida por mim), Rebecca diz que como mulher ex-prostutída, se sente profundamente ofendida com a Marcha das Vagabundas.

 “Eu não acredito que reclamar a palavra “Puta” faça algo para dizer aos homens violentos que seu comportamento está fora de controle (…) Reivindicar a palavra “Puta” não faz com que a história suma num passe de mágica.

(…) A Marcha das Vagabundas é do interesse de mulheres privilegiadas, que podem brincar com o papel da Puta. Se vestirem como prostitutas, carregarem placas com dizeres como “Vagabundas Dizem Sim”, e imaginar que mulheres dentro do comércio sexual são empoderadas, conforme nos chamam de Irmãs.

A Marcha das Vagabundas é sobre dizer que o estupro é ruim quando feito para mulheres e garotas “reais”, não importa o que elas vistam ou aonde vão. Mas ignorar ferozmente os estupros diários e a tortura sexual das mulheres e garotas dentro do comércio sexual. Isso é ignorado porque para as pessoas do Slutwalk, a prostituição é só um trabalho – então nós não devemos julgar ou mesmo questionar isso muito profundamente.

Algumas mulheres no Slutwalk acham que é radical se vestir como uma visão estereotipada da vagabunda, ou a versão cartunesca da puta. Podem chamar isso de burlesco, mas para as mulheres que saíram da prostituição é um insulto.

Vestir-se como uma prostituta por uma noite é muitas vezes feito a partir de uma posição de profundo privilégio. Você pode fazer isso porque supõe que estará segura, e que se você fosse estuprada haveria indignação. (…) Enquanto mulheres e meninas prostituídas não possuem a menor proteção contra estupros (…)”

Putas dizem sim / Orgulhosa de ser Puta. Cartazes da Slutwalk.

Rebecca diz que “brincar de puta não é ser uma puta”. E sinceramente, não me considero qualificada para discordar dela.

Se mulheres saem na rua protestando pela liberdade de seus corpos, é sempre preciso fazê-lo em quantidades massivas, preferencialmente acompanhadas e apoiadas por homens. Assim, deixam de ser “propriedade pública” e passam a ser “propriedade privada” (o que obviamente é uma merda).

Mas nas noites, nos becos e nas esquinas, não se vê liberdade corporal. Se vê comércio, venda, exploração. E estas mulheres não tem de fato tamanho privilégio.

Nos estereotiparmos por algumas horas e chamarmos a essas mulheres de irmãs chega a ser de fato ofensivo. Não porque elas sejam inferiores a nós. Mas porque somos privilegiadas em relação a elas. Não somos nós que estamos sendo violentadas e espancadas diariamente nas esquinas. Claro, pode acontecer conosco, afinal temos uma vagina. Mas são elas quem correm o maior risco.

Ao mesmo tempo em que acho importante defendermos nossa liberdade corporal e sexual até o fim, questiono se o método eficaz para isso seria nos transformando naquilo que nos objetifica e sexualiza de forma heteronormativa e comercial desde sempre.

O comercio sexual não é glamouroso ou libertador em nenhum aspecto. Por que de repente chamamos a essas mulheres de “irmãs”, como se conhecessemos seu real drama diário, e nos consideramos em pé de igualdade de luta?

Precisamos defender sim a liberdade das putas e das demais mulheres. Irem, virem, gozarem e vestirem o que bem entenderem. Mas o viés é mesmo nos apropriarmos dos termos e caricaturas, como se a partir disso toda a história de opressão desaparecesse sob um novo rótulo libertário?

Algumas outras mulheres ex-prostituídas comentaram que se identificaram com o escrito pela Rebecca. Novamente eu questiono: se elas que são oprimidas se sentem ofendidas, quem somos nós, mulheres privilegiadas, para dizer que isso é exagero?

Por outro lado, quem sou eu para julgar apropriações? O movimento negro, por exemplo, reivindicou a palavra “pretx” para si, e vai muito bem com isso, obrigada.

É fato que somos coagidas e ameaçadas por sermos mulheres. Nos tornamos gradativamente mais estupráveis conforme a situação em que estamos (desacompanhadas, com roupas mais curtas ou chamativas). Por isso, não poderiamos reclamar para nós o título de putas?

E a subversão que há em um homem se vestir estereotipadamente como mulher? Pode ser ofensiva para nós, uma vez que eles não vivenciam realmente a opressão patriarcal no seu dia a dia, além de “brincarem” justamente com um modelo ofensivo para nós. Mas seria uma transgressão invalidada por isso?

Rebecca é uma ex-prostituta. Sua opinião importa muito para mim e deverá ser ouvida pelas demais mulheres, penso. A discussão vai longe, e eu ainda não decidi muita coisa sobre ela, além do fato de que isso precisa acontecer.

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Atualizado: Após muita discussão, fiz algumas reconsiderações acerca do movimento.

International No Diet Day & Adivinha? Eu não sou um robô.

6 maio

No dia 6 de maio, comemora-se o No Diet Day . O movimento teve início na Inglaterra em 1992, a partir das reflexões de Mary Evans Young em conjunto com movimentos feministas britânicos, que exigiam:

– Questionar a idéia de uma forma do corpo “certo”.
– Sensibilizar para a discriminação de peso, tamanho e gordofobia
– Declarar um dia livre de dietas e obsessões com o peso corporal.
– Apresentar os fatos sobre a indústria da dieta, ressaltando a ineficácia das dietas comerciais.
– Mostrar como as dietas perpetuam a violência contra as mulheres.
– Honrar as vítimas de distúrbios alimentares

Preciso dizer o quanto simpatizo e incentivo o Fat Feminism, porque assim como toda mulher, conheço vívidamente esse tipo de opressão.

I was born this way, heeey!

Nasci um bebê grande, rosado e saudável (na verdade, eu era como uma uva rubi de quase quatro quilos). Meus pais foram informados no berçário que eu nem precisaria de uma identificação no punho enrugado, já que eu era o bebê mais rosado e gorducho daquelas bandas.
Desde essa época sempre tive um apetite destruidor. Minha mãe era sugada pelos seios até sua pressão cair. Os anos passaram, eu desmamei (com quase três anos, diga-se de passagem) e o apetite continuou firme e muito forte, assim como a minha saúde.

Aos 15 me tornei vegetariana, e agora os dezoito, vegana.

Sempre tive uma fome maior do que a maioria das meninas ao meu redor, e nunca fui obesa. Já pesei pouco e fui chamada de saco de ossos, e também já tive/tenho gordurinhas pulando pelas calças, sob protestos de “esconde isso, gorda sem noção!”. De forma geral, me encaram como “normal” (termo odioso). Não sou acima nem abaixo do peso considerado “saudável”, nem nunca fui.
Mas se eu afirmar que eu sempre fui Positive-Fat, podem me chamar de mentirosa, porque eu seria. Pois é, I Am Not a Robot!

Quando eu tinha cerca de treze anos, alguém mencionou que gordinhas eram mais sensuais, e que como eu tinha poucas curvas  (apesar de não ser exatamente magra) talvez engordando ficasse mais atraente.

Mulheres magras "não-curvilíneas" também sofrem com diversos preconceitos. Às vezes, elas comem mais que você. So stop it.

Foi pouco depois da minha tentativa de suicídio  motivada justamente por insatisfações físicas, e meu estômago estava em condições precárias. Mesmo assim, eu me forçava a comer o máximo possível para ganhar massa. Qualquer que fosse.
Alguns meses depois, ganhei algo como três ou quatro quilos, que não mudaram em nada minha completa falta de “contornos sensuais ultra-femininos” ausentes desde sempre.
Desencanei.

Depois, por volta dos 16, começaram entre amigas e parceiros afetivos a conversa de que eu tinha mesmo algumas carninhas extras, e “olha só como a modelo tal ou tal é bonita”. Na mesma época, adquiri um vício enorme em programas de cirurgia plástica, filmes e ensaios pornográficos, sites de moda e beleza…enfim, qualquer coisa que me ditasse o que é esperado e adequado para o meu corpo.
Decidi que ia abaixar meu IMC até que ele me definisse como subnutrida, a qualquer custo.
Lembro de compartilhar dietas e tabelas de calorias com amigas próximas, que também embarcaram na minha.
Nunca tive nada contra pessoas gordas. Homens ou mulheres.

É incrível como admiramos e reconhecemos beleza nos outros, mas não nos permitimos enxergar em nós mesmas.

Sempre achei pessoas de todos os gêneros, pesos e cores atraentes. Mas pra mim, aquilo não poderia acontecer. Eu precisava ser magra.

Jamais conseguiria desenvolver bulimia (sou emetofóbica. Qualquer dia falarei sobre isso por aqui) então o caminho foi algo como um princípio de anorexia.

Aprendi a contar calorias de forma surpreendente para alguém tão ruim em matemática. A meta eram 600 kcal. por dia. Para uma adolescente de 1,75m e praticante de artes marciais, digamos que não era tão pouco, mas não era exatamente suficiente pra me manter de pé.
Sempre tive pressão baixa, e ela se manifestava praticamente todos os dias. Descobri os energéticos sem açúcar, e me viciei neles.
Lembro que o dia em que me senti mais feliz foi quando consegui passar 30 horas sem comer. Foi em um final de semana. Eu estava fora de casa, e quando me ofereciam comida eu alegava já ter comido, ou que meu estômago doia (e doia, mesmo).

O pior dia foi quando precisei sair do escritório direto para o pronto-socorro. Tomar soro e adquirir alguma cor na minha cara mais pálida do que o comum.
Me pesava constantemente, e tinha medo de comida. Sentia fome, como sempre senti, e me sentia vitoriosa por resistir. Como um religioso se sente quando se esquiva dos prazeres da carne e trascende um pouco mais ao sublime.
Cheguei aos 57 kg. Fiquei doente algumas vezes, o que ajudou no “resultado”.  Tomei anorexígenos escondida. Meu sistema imunológico era um lixo, e minha estrutura corporal sempre ossuda e pontiaguda denunciava com o contar das costelas que eu estava abaixo do meu peso normal.

Como eu nunca tive um corpo exatamente feminino e delineado, começaram as reações negativas. Estava estranha, sem formas.
Percebi que era oficial: não importava se eu engordasse ou emagrecia. Eu jamais seria “bonita” o suficiente.
Desencanei. De novo.

É importante pensar que nosso comportamento se reflete também em nossas companheiras, amigas, filhas, irmãs...quando nos massacramos, ensinamos às outras que "Olha, é impossível ser feliz assim". Tiramos a inspiração de meninas que não tem a ninguém, a não ser atrizes pornôs e supermodelos para contemplar.

Sempre fui bastante interessada em atividades físicas. Fiz de Yoga a Wing Chun, e infelizmente minha rotina de trabalho me fez largar tudo. Ainda iniciei uma academia que também tive que largar, já que a faculdade começará logo. No final das contas, me sinto bastante saudável (meu hemograma confirma esta impressão) com meu peso.

Me preocupo em me manter ativa fisicamente o quanto for possível, e ainda quero voltar a lutar quando puder. Mas comida já não me assusta. Minha fome não é mais reprimida. Aprecio com satisfação minhas vontades gastronômicas e compartilho-as com felicidade.
Tento balancear alimentos de valor nutricional elevado com as besteirinhas pós-almoço. E quando a vontade vem, eu me divirto com os brigadeiros de leite condensado de soja na caneca.
Venho de uma família de gordinhxs. Alguns mais saudáveis, outros menos. A alimentação e os exercícios físicos determinam os níveis de saúde deles, e não o número das calças.
Já convivi com pessoas de manequim 38 e saúde péssima. Conheço mulheres tamanho 50 que correm, sobem escadas, gozam, vivem e dançam a noite inteira.

Ressalto as mulheres com ênfase, pois a cobrança sobre elas é quase sempre maior. O patriarcado nos ensinou que o maior objetivo de nossa vida é sermos belos acessórios de decoração, e que gordas não são atraentes. Logo, ser mulher e gorda é como assinar um atestado de “inaptidão” em nossa sociedade obcecada.

Um rapaz que come muito na juventude é viril, mesmo que ele não seja exatamente pequeno. Uma menina que coma muito, mesmo que não-gorda, é uma descontrolada, que ficará doente e não achará marido (oi heteronormativismo!). Sacaram?

Aprendi que definitivamente meu peso não me define. Nem pra mais, nem pra menos. E não deveria definir a você também.
É preciso repensar os hábitos alimentares e de vida de forma geral. Não só da população “obesa” ou com “sobrepeso”. Mas de todxs nós. Saúde importa sim, mas não se resume a manequim.
É preciso educar. Piadas e comportamentos gordofóbicos só levam a atos destrutivos e incentivam distúrbios psicológicos, físicos e emocionais em terceiros. Quem não conhece alguém que adora menosprezar com quem está “acima” do peso ditado como correto? Podem ser médicos, amigos, parentes…sempre há alguém pra vigiar o que x gordx come. Se fosse uma pessoa magra comendo lixo, ninguém se importaria.
A discriminação vai desde o menosprezo e agressividade verbais, até a exclusão social das pessoas com sobrepeso.
Não tem nada de errado, doentio ou mórbido em ser gord@. Pode-se ser saudável e feliz vestindo mais que 40. Se você afirma que nunca conheceu uma (um) gordx nessas condições é porque provavelmente não seria capaz de se aceitar caso possuísse alguma forma além da ditada como ideal pela mídia, ou, foi tão oprimidx pelo seu peso que começa a achar que a culpa de toda essa discriminação sejam mesmo dos furos no seu cinto, e não dessa sociedade estúpida e ditatorial.
Vamos celebrar uma vida com menos sabor de aspartame hoje?

Segunda Feira Vermelha, Pêlos e outras Vergonhas.

2 maio

Se você é familiarizado com o maravilhoso mundinho roxo dos blogs feministas, já deve ter percebido que hoje é a Segunda Vermelha. O que significa que coletivamente, estamos discutindo e pondo em foco algo tão óbvio, mas tão velado: a menstruação.

É notável que a maioria das mulheres saudáveis na idade “reprodutiva” menstrua naturalmente.

Comigo, começou há nove anos atrás. Não lembro a data, porque não foi tão significativo assim. Eu com onze anos na época, já estava na expectativa. A maioria das meninas que eu conhecia falava nisso regularmente, e eu queria que fosse logo a minha vez.

Então um dia, fazendo algo rotineiro, senti dores nas costas. Depois, no útero. Fui ao banheiro, constatei uma manchinha amarronzada, peguei um absorvente no armário e avisei ao meu pai: “Menstruei”. Ele sorriu e disse algo como “Que bom filhota, já é uma mocinha” ou algo do tipo.

Como eu tenho uma irmã mais velha nada daquilo foi muito novo ou surpreendente pra ninguém. Encarei como um processo natural do meu corpo.

Meu fluxo nunca foi muito forte. Já tive alguns atrasos, alguns adiantamentos e alguns prolongamentos chatinhos.

Já tive que trocar de pílula, e provavelmente terei que trocar de novo em breve (a gastrite me manda lembranças todo mês antes de menstruar).

E já tive muita, mas muita vergonha do meu sangue.

Parece ser um terror psicológico inserido pelos comerciais repletos de mulheres que vestem branco e sangram azul a suposição de que descubram que estamos menstruadas.

A minha nunca sai nesse tom azul celeste. Qual o meu problema, doutora?

A maioria das mulheres que conheço já evitou sair com determinada roupa, ou praticar alguns exercícios (especialmente sexuais). Há até um jeito correto de dormir para minimizar incômodas manchas de sangue. Não nego que já me inclui em todas as acima, mas graças ao meu querido Coletor Menstrual essa vida não me pertence mais (amém, irmãs!).

Eu uso o Green Donna há cerca de um ano, e minha visão sobre esse período do mês mudou MUITO.

O contato com o sangue se torna muito mais evidente. Você analisa de fato a quantidade e qualidade do que expele. E eu garanto que não há nada de bizarro, anormal ou doentio nisso. Aliás, doentio é que se tenha feito tamanha lavagem cerebral de forma que jovens mulheres achem-se adoentadas e asquerosas quando vivenciam seu ciclo menstrual.

Menstrual Cup: todas ama!

Não nego que algumas mulheres sintam sim dores ou sintomas muito desconfortáveis que antecipam o período menstrual. Para essas, recomendo alguns exercícios de Hatha Yóga que aprendi e procuro ensinar para quantas mulheres puder. Se quiserem saber mais, é só mandar um comentário.

Fato é que essas sensações e substâncias fazem parte de você. Seu sangue, seus cheiros…minimizá-los não te torna monstruosa ou inferior, mas anula uma parte natural de si mesma. Vê-la como antinatural e digna de censura não é algo muito coerente, entende?

O que dizer então do aumento da libido, tão característicos do período menstrual para tantas de nós? Negar o tesão em nome dessa perturbação por “limpeza”? Nosso sangue não é sujo!

Não fazemos isso só com a menstruação, mas também com os pêlos.

Há uma fobia generalizada em relação a pêlos femininos. Quanto aos homens, não há nada demais em sustentá-los. Eles crescem de forma natural e dominam em maior ou menor grau os corpos humanos, e é incentivado cultivá-los se você for um homem humano heterossexual preso em papéis impostos de gênero que não gosta de ter questionada sua sexualidade.

Mas para uma mulher, exibir uma axila não depilada, ou mostrar suas pernas sem que elas brilhem como a de uma criança pré-pubere é uma afronta. Os comerciais de cremes e ceras depilatórias nos ensinaram que só estamos prontas e confiantes quando estamos despidas de pêlos…que crescem naturalmente em nossos corpos.

Chamam isso de higiênico. De “se cuidar”. Por que só os nossos são nojentos, ou por que a natureza nos deu tamanha e “inútil” “aberração” nunca se soube. Só se sabe que precisamos esconder nossas vergonhas. Nossos cheiros, nossa umidade, nossa vitalidade.

Beleza: mutilando aos poucos o estado natural do seu corpo para ser considerado aceitável.

O que dizer da campanha anti-cheiro-vaginal então? Basta ligar a TV e musas do momento informam que meu pH está descontrolado, minha flora me matará, e que o bom mesmo é ter cheiro de morangos silvestres em meu órgão sexual. Não mencionam porém o quanto esses sabonetes, talcos, desodorantes, lencinhos e demais apagadores de identidade podem influenciar no desencadeamento de candidíases e proliferações fúngicas.

Querem que eu não sangre naturalmente, que seja depilada apesar dos pêlos que crescem sem o menor esforço, que tenha cheiro de frutinhas embora seu cheiro original sempre me pareça tão mais saboroso.

Querem que haja vergonha. Que haja insegurança. E que o lucro das indústrias depiladas, azuis, brancas e com odor de lírios cresça sempre.

 Isso aqui é uma vagina, meu bem. Não um vidrinho de purificador de ambientes em spray.