Archive | abril, 2011

O manual do palavrão – ou melhor, do Preconceito.

29 abr

Não é preciso explicar muito o que é ou de onde vieram os palavrões para se ter a mínima noção do “pra que” eles servem.

Em uma rápida busca pela Wikipédia encontramos uma breve explicação:

… se define como  um vocábulo que pertence à categoria de gíria e, dentro desta, apresenta chulo, impróprio, ofensivo, rude, obsceno, agressivo ou imoral sob o ponto-de-vista de algumas religiões ou estilos de vida. Palavras de baixo calão, calão de baixo nível em Portugal ou simplesmente, palavrões, são formas inadequadas na norma culta da língua portuguesa e geralmente usados de forma popular e coloquial, exceto por licença poética.

Os dicionários de maior prestígio divergem quanto à classificação dessas palavras e de suas acepções entre ofensivas ou populares (com rubricas como tabuísmo, chulo, plebeísmo e popular).

Desde que nascemos, estamos mais que acostumados a ouvir uma diversidade de palavrões com níveis de preconceito e ódio mais variado possíveis. Por mais que nossos pais tentam nos esconder de tais palavras feias, uma hora ou outra aprenderemos e começaremos a utilizá-la com bastante frequência em nossas vidas. 

A grande questão que tive durante um bom tempo é, como as pessoas compactuam com as ofensivas palavras no qual escutamos quase todos os dias? Mesmo eles tendo, em grande parte, conceitos racistas, xenofóbicos, homofobicos, misóginos, sexistas, especístas…e etc.

Um simples Puta que pariu , segundo a revista Mundo Estranho (Ed. Abril – dez. 2005, pág46) ” …em seu sentido literal: dizia-se para a pessoa voltar para o corpo da mãe, que era uma prostituta. Hoje ela tem um sentido menos agressivo que, na maioria das vezes, não passa de um ?não enche o saco?. Esse processo de suavização das palavras é comum durante o amadurecimento de um idioma. A palavra puta, que deu origem à expressão, pode ter vindo do latim putta, o mesmo que ?menina?, ou de putidus, que significa ?algo que cheira mal?. “

Como assim “sentido menos agressivo” ?  A ofensa parece cair no gosto popular durante muitos anos, amadurecendo e solidificando uma ofensa de cunho misógino, ou seja, diretamente associado ao ódio à mulher.

Já parou para pensar sobre o quanto se reafirma conceitos misóginos, homofóbicos, especistas, racistas, xenofóbicos, contra deficientes e etc… resumindo, que adiciona-se sempre ao crime de ódio ao próximo?

Se analisarmos alguns palavrões, chega a ser até um tanto ridículo do porque é utilizado como maneira ofensiva:

Filho da puta – Utilizado como ofensa ao individu@ que deseja insinuar e desmerecer que a vítima descende de uma prostituta, a qual NÃO TEM NADA A VER COM ISSO ou que ao menos seja relacionado a uma maneira de ofender alguém, pois não importa o que sua progenitora foi ou é, não é motivo para ser usada como ofensa. Também é relacionado diretamente ao ódio sobre a mulher com intuito pejorativo de que mulheres (que nao sejam “propriedade” do xingador) sejam sempre putas.

Viado ou Veado – Não apenas o Veado, mas como Gazelas, Borboletas, Beija-flor, Cachorro, Hipopótamo, Elefante, Girafa, Urso, Burro, Cavalo, Égua, Asno, Baleia, Piranha, Vaca, Pinto e uma grande variedade do reino Animalia no qual, por um motivo que não consigo compreender direito, são utilizados de maneira ofensiva. Viado, no caso, é ensinuado geralmente ao homossexual (homem) como tentativa de ofendê-lo por sua orientação sexual se diferente da imposta pelo patriarcado, o heterossexual. Olhando de um ângulo simples, QUE RAIOS O VEADO TEM A VER COM ISSO?, aliás o que esses animais tem a ver com a orientação sexual, peso, estatura, pêlos, inteligência, força, atitude, aparência e etc… com o ato de ofender verbalmente? Sério…o que uma espécie, seja lá qual for, entra em grau de preconceito com o ser humano? Porque a mulher é uma vaca? Ou d@ gord@ ser uma baleia, hipopótamo? Do alun@ menos aplicad@ ser um burro, asno? Dos homosexuais serem Gazelas, Bambis, Borboletas, Veados, Piranhas?  O que torna a capacidade, aparência, aspecto de outro ser vivo, diferente de nós, ser utilizado como motivo pejorativo para ofender alguem em um momento de ódio e agressão verbal?

Bicha – No gosto popular é utilizada para se referir ao homosexual,  usada como maneira pejorativa,  geralmente é direcionada ao homem como maneira de ofender alguma atitude, costume, jeito, aparência, sexualidade e etc de que ele é homossexual, e isso é ruim. Tá, vemos mais uma vez um crime de ódio de cunho homofóbico no qual a cultura heteronormativa, machista, como sempre, tenta colocar um individuo abaixo do convívio social aceitável pelo status-quo vigente. Só não faz muito sentido o conceito da palavra usada como ofensa, pois, desde quando “uma fila de pessoas em linha reta”, “uma escultura ibérica” ou “um parasita intestinal” está associado a sexualidade de alguém ? Me explica como isso é possível Arnaldo?

Cacete  – Serve para expressar alguma surpresa, raiva, indignação.  Associado ao pênis, falo, mostra o quanto nossa sociedade sempre coloca o símbolo masculino de dominação acima de tudo, até em momentos de exclamação. Mas, teoricamente um pão-bengala ou cacete não faz sentido algum de como a palavra é utilizada. Um tanto ridículo até. Há também uma semelhante utilziada para associar o pênis, o Pinto, filhote de galináceo extremamente bunitinho e obviamente longe de parecer um orgão masculino. É utilizado para impor e lembrar ao outr@ que naquela região da virília ele contém um pênis, como se ninguém mais no planeta soubesse disso. Também há o Caralho, mais uma vez para enfatizar que o pênis existe, mas que não faz muito sentido em compará-lo há um pedaço de madeira roliço.

Baleia, Hipopótamo, Saco-de-areia, Bola-de-praia – Utilizado sempre para reprimir pessoas de condição física de peso elevado, ou seja, gord@s. Sinceramente, não sei porque animais ou objetos de forma semelhante, tendem a serem usados de maneria a ofender os outr@s. Uma baleia é menos que um ser humano? Pelo que gostam de afirmar os gordofóbicos, “pessoas gordas sao aparentemente inaceitáveis para o convívio !!” Se é assim então vá mergulhar no oceano e proclame isso para uma baleia, ou mergulhe num rio da África e enfrente um hipopótamo de perto, no mínimo irá morrer pateticamente com uma simples bocada desses seres. Esse tipo de ódio gordofóbico me faz lembrar de como uma pessoa não para pra pensar de que, para ele estar hoje vivo, um outro ser teve que sustentá-lo 9 meses e ficar aparentemente gorda para então botar você no mundo, e isso foi visto como algo “divino” e não horrível.

Cusão – É o mais genérico de todos, são tantas formas de utilizá-lo que fica até difícil lembrar todas. As mais comuns são para expressar ” que é uma pessoa ruim e desmerecedora”, “que não é digno de confiança”, “que nao partilha de algo”, “o quanto essa pessoa teve sorte e não merecia”, “que a pessoa é feia, boba e chata” e por aí vai. O que se torna um tanto ridículo é, porque o cú? Que eu saiba, todos são dotados do mesmo orifício do qual serve (entre outras coisas) para eliminar fezes, mas o que ele tem a ver com o resto do mundo? das suas atitudes? Há uma variação dele utilizada de forma composta como, Vai dar o cu é sempre emendada com “viado”, “bicha” e etc. Mais uma vez, utilizada como maneira impositiva do heteronormatismo de que “dar o cu” é coisa de pessoas submissas, desmerecedoras, horríveis, aberrações, não-natural….enfim, do homosexual. Não é preciso dar uma lição de história para dizer que se relacionar sexualmenteestimulando o ânus d@ parceir@, pode ser de agradabilíssima vantagem e naturalidade da espécie humana, assim como já faziam em exércitos romanos, bárbaros e etc. Não há motivo para que isso seja visto como algo abominável, TODOS seres humanos possuem um cú e a maneira de como o utilizam não diz respeito a opinião alheia. Se você se senti incomodado com isso, vai dar o cu pra ver se é bom! Eu diria que é!

Enfim, poderia citar dezenas e milhares de palavrões aqui e dariam quase que uma ” enciclopédia do preconceito livre, legal e comum “, mas tenho que terminar o post ainda. Bem, pode parece um tanto ingênuo da minha parte mas é um tanto óbvio e aparente o quanto nossa linguagem nos massacra com pequenas palavras carregadas de tanto ódio. O que me leva a pensar que, ▄ por acaso o ser humano, por ter o privilégio de ter um tele-encéfalo altamente desenvolvido (grande maioria das vezes, muito utilizado ao ódio), se acha no direito superior de julgar e ofender por uma condição física, gênero, objetos, orientação sexual, ideologia, religião, espécie, condição financeira,  etnica ou seja mais lá o que for, para simplesmente tentar humilhar e ofender alguém a troco de um alívio egocêntrico, marcado de ódio e preconceito e…. achar que “tá tudo bem, todo mundo se xinga, isso faz parte há milénios da cultura e lingua” ?….. MAS QUE PORRA É ESSA?

Sei que não se pode culpar tod@s pelo uso dos palavrões que ouvimos e lê-mos diariamente em nossa cultura (digo apenas a nossa, sem contar do restante do mundo e sua ofensas), porém, vale a pena parar e refletir em como estamos compartilhando constantemente de idéias, recheadas há séculos de puro preconceito, no qual são palavras de afirmação que martelam incessantemente na sociedade para lembrar-mos de como se mantêm vivo o ódio pelo diferente de nós, que nao opta pelas mesmas escolhas, sejam elas qual for, sempre haverá um palavrão existente ou inventaram algum para poder reprimí-lo sobre alguma coisa, seja ela sobre sua etnia, sua orientação sexual, sua forma física, sua classe social, sua inteligência, sua forma de pensar e expressar, sobre suas habilidades motoras, sobre sua maneira de ser vestir,  sobre sua deficiência, sobre suas amizades, sobre o que você acredita….sobre você ser quem você é.

Digo até que essa incessante proclamação de palavrões caminha sempre de mãos dadas a violência física, em que num exercício de ódio contra alguém, pode gerar agressões tanto por parte do agressor como por parte do agredido. Quantas vezes já presenciamos brigas violentas pelo fato de algúem ofender o outro com um “cusão”, “viado” e etc?? Algumas vezes até levando a morte por uma simples ofensa verbal de trânsito, mas interpretada como a maior ofensa do universo ao agressor, que também utiliza constantemente palavrões. As vezes, a própria mãe chamando o filho de filho da puta, por ter irritado ou feito algo indevido aos olhos da mesma. De amigos de escola que praticam bullying de forma verbal, atacando alguém sobre sua aparência “seu gordo nojento” ,”sua bicha imunda”…São muitos casos, cada um tem um para contar.

Pense bem antes de xingar alguém, pois o conteúdo dessa palavra estará carregada de muita repressão e ódio de séculos e mais séculos, isso pode levá-lo “ingênuamente” a continuar com essa propagação de preconceito ou até mesmo a ser agredido violentamente por algum desconhecido. Descontar sua raiva em alguém, não te torna melhor que a vítima.

Pro-Vida? De Quem?

27 abr

Nesta tarde, tive uma notícia extremamente desagradável. O projeto de descriminalização do aborto foi arquivado, e a “Frente em Defesa da Vida – Contra o Aborto” comemorou.

Claro que eu quase morri de tanto desgosto. Mais uma vez, uma massa estúpida ordenou o que eu devo ou não fazer com o meu corpo. Nisso, quis saber de imediato quem, além do DeputadO Salvador Zimbaldi (PDT-SP) participava desse lixo de “Frente”, e quais eram seus objetivos.

Republicanos vão proteger seus direitos se você for: ( ) uma mulher ( ) um professor ( ) glbt ( ) imigrante ( x ) um feto.

Achei uma carta a respeito do Primeiro Seminário Nacional em Defesa da “Vida”. Vou resumir algumas das melhores metas do evento pra vocês, porque vale muito a pena:

 8.1. Formular cartas e documentos, em linguagem popular, para distribuição nas igrejas e como subsídio para os professores nas escolas;

8.2. Incluir, nos programas de catequese de Crisma da Igreja Católica, de palestras sobre reprodução humana e direito à vida;

8.5. A Frente Parlamentar em Defesa da Vida deverá fomentar a produção de vinhetas e programas para as emissoras de rádio etc., educando e difundindo as razões em prol da vida;

8.6. Levantar fundos nas Dioceses, Igrejas Evangélicas, Centros Espíritas etc., para possibilitar a vinda de caravanas a Brasília, em momentos em que se fizer necessária a pressão social sobre o Congresso Nacional;

8.7. Enviar emails, cartas etc. às lideranças dos partidos, exigindo delas um posicionamento público sobre o aborto;

A carta inteira vocês conferem no link, se ainda tiverem forças suficientes para ler tamanha ofensa.

O mais chocante é que esse movimento de cunho extremamente religioso e que fere brutalmente o estado laico tenha como presidenta uma professora no Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília, Lenise Garcia.

Uma mulher. Com conhecimentos não só fundamentados em religião. E que mesmo assim, não possui a menor empatia pelas demais ou sequer reconhece seus privilégios sociais.

Basta de rosários nos nossos ovários.

É fato que apesar de ilegal (exceto em casos de estupro ou em que a mãe corra risco de vida) as estimativas do Ministério da Saúde apontam a ocorrência entre 729 mil e 1,25 milhão de abortos feitos por ano no país, embora essa estimativa seja altamente especulativa, pois os abortos são clandestinos, e há divergência com diversas outras fontes não-governamentais, que estimam números entre 500 mil e 800 mil.

O que fazer com estas mulheres, que, cada uma por seu motivo, precisou interromper a gravidez? Para a Dra. Lenise, o Senador Zimbaldi e o movimento pró-vida, a solução é fácil: marginalizar e jogar em uma cadeia.

Mas se mesmo sob esse risco penal o aborto continua acontecendo, quais são as conseqüências para as que não são pegas pelo sistema judiciário? Morte. Infertilidade. Lesões. Infecções…

Em 2008, só no Estado do Rio de Janeiro, somaram-se 15.868 internações motivadas por aborto inseguro – a terceira causa de morte materna.

Ainda assim, a defesa da “vida” é suprema, e seu direito a ela precisa ser garantido. Mas…qual vida mesmo? Aquele amontoado de células que até a 24ª semana não é capaz de sentir dor? Ou aquela já formada, em más condições emocionais, financeiras e psicológicas, que engravidou por falha ou mal uso dos métodos contraceptivos? Talvez possamos considerar também aquela vida animal que alimenta tantos pró-vidas comedores de cadáveres. Esses animais, por sua vez, eram conscientes, ativos, e se tornaram assustados, acuados e mortos. Agora jazem em pratos de jantar.

Mas opa, como assim comparar a vida de um bicho com a vida de um feto humano?

Ah sim, como eu ouso comparar dois animais [1] e duas formas de vida diferentes, que absurdo!

Vida é vida. Ponto.

Vocês já viram um cachorro ou gato assustados? Com dor? Felizes?

Qualquer um que já tenha convivido com algum animal doméstico não pode negar que sim, eles possuem feições e comportamentos que denotam sentimentos. Também possuem sistema nervoso central. Ou seja, podem sentir dor.

Portanto, quando você mata um bovino, – que também é um animal, e que também tem sistema nervoso central – ele sente dor. E também se sente assustado. Duvida? Assista no documentário Terráqueos e veja como se comportam os animais “de abate” no corredor da morte.

O que vacas e fetos têm em comum? São organismos. São seres vivos.

A vaca, tem uma vida formada. Ela come, caga, respira, sente medo, sente dor devida a sua complexidade neural desenvolvida, tem instintos de sobrevivência, é torturada diariamente nos abatedouros, estuprada [2], e por fim, abatida. E vem acompanhada de molhos no seu jantar.

Um feto, é similar a um parasita. É um organismo, é claro, um amontoado de células vivas (e não um bebê ou uma criança), mas depende de seu hospedeiro pra viver até que esteja “maduro” o suficiente para poder viver “sozinho”. Antes disso, ele continuará sendo um organismo. Um organismo que até as 24 semanas de vida não é capaz de cagar, respirar, sentir medo ou sentir dor, e que depende de seu hospedeiro para comer e sobreviver.

O seu hospedeiro, por sua vez, é uma mulher. Sempre.

Pode ser negra, parda, amarela, vermelha, branca, pobre, rica, doente, saudável, capaz emocionalmente e psicologicamente de criar uma criança…ou não. Mas nada disso importa, o que importa é que ela ponha esta cria no mundo, independente de suas condições. Pode estar deprimida, pensando em suicídio, abandonada pela família e parceiro (afinal, parece que as mulheres engravidam sozinhas sempre, já que a “culpa” por ter engravidado é sempre DELAS, jamais do fertilizador e sua ausência de preservativo ou mau uso do mesmo).

Ela precisa parir e ser punida por isso. Precisa ouvir que “na hora de fazer foi bom, então não reclama” quando tiver suas contrações. Precisa carregar a trancos e barrancos uma vida indesejada e não planejada. É sua punição, e não sua benção. Ela não escolhe isso, mas não há escolha alguma. Era a cadeia e tortura ou a prisão perpétua de se amarrar a uma vida indesejada.

Nada disso é regra, e uma mulher pode mudar de opinião quando parir sua cria. Ou pode decidir jogá-la em um lixão e tirar sua própria vida.

São infinitas possibilidades, e ninguém consegue intervir em todas elas, a não ser a hospedeira desta vida.

A situação emocional, financeira e psicológica varia imensamente de caso para caso, porém, nada disso importa. A não ser que foi o caso de estupro, ou se você pode morrer.

Pergunto-me se os frutos de um estupro são menos “vida” do que os demais? Por que então esses são permitidos? Pela obviedade das seqüelas emocionais que isso causaria a mãe? Concordo! Mas, oras, só esse viés causa seqüela emocional? Que tipo de critério é este?

E quanto às outras vidas animais exterminadas aos montes diariamente ao redor do mundo todo? Por que essas vidas valem tão menos, apesar da dor sentida em escala muito maior?

Por que a religião ainda pauta a ética, e por que pessoas que jamais ficarão grávidas pautam o direito sobre o corpo de terceiras?

77% dos líderes anti-aborto são homens. 100% deles jamais ficarão grávidos.

Por que mulheres ricas têm acesso a clínicas de aborto de nível hospitalar satisfatório, e mulheres negras e pobres morrem em decorrência da clandestinidade do processo?

Por que fecham-se olhos, como se o fato de proibir algo extinguisse sua prática?

Por que você manda no meu útero?

Por que você decide quem vive, quem morre, quem serve pra comer, quem serve pra defender, quem precisa ser punido…e no final, nunca adotou ou salvou vida nenhuma?

___

[1] Classificação taxonômica do gado: Reino: Animalia, Filo: Chordata, Classe: Mammalia, Ordem: Artiodactyla, Família: Bovidae, Subfamília: Bovinae.

Classificação taxonômica humana: Reino: Animalia, Filo: Chordata, Classe: Mammalia, Ordem: Primata, Família: Hominidae, Género: Homo, Espécie: Homo sapiens, Subespécie: Homo sapiens sapiens.

Não me venha dizer que somos completamente diferentes.

 

[2] Parece óbvio, mas nem todo mundo está ciente de que vacas só dão leite quando estão prenhas, assim como qualquer mamífero. E, assim como todo mamífero, elas não estão o tempo todo grávidas. Bom…pelo menos não na natureza. Na indústria do leite e da carne, bovinos fêmeas são constantemente emprenhados para permanecerem o máximo de tempo possível produzindo leite. No processo de inseminação artificial elas resistem, se debatem e rejeitam o quanto for possível a inserção deste material em seus corpos. Mas obviamente são vencidas graças à força exercida para mantê-las passivas em cubículos inibidores de movimentos. Se isto não é um estupro, eu não sei o que é um. Novamente, se não acredita, sugiro que veja o documentário citado mais cedo neste mesmo post.

Ps: Para os que acham que mulheres considerariam aborto um método contraceptivo, e que caso fosse legalizado teriamos um viral de fetos sendo jogados por latrinas: pesquisem sobre os dados pré e pós Legalização em Portugal, e comprovem por si mesmos a evolução na saúde pública da mulher, e o quanto esse mito é infundado.

O Mito do Feminismo Conveniente e as Cômicas Piadas de Estupro.

18 abr

“É muito fácil ser feminista na hora de chegar no cara na balada e ser machista na hora de pagar a conta.”

Essa frase foi retirada da descrição de um dos vídeos mais asquerosos que eu já vi na minha vida inteira. ( não recomendo assistir se estiver almoçando, ou se tiver o mínimo apreço pela integridade da sua mucosa estomacal). O escolhi para começar o post porque já resume bem em alguns minutos o universo de quem a-do-ra opinar acerca de um movimento social sobre o qual desconhece em absoluto (se é o seu caso – assim como é o da autora do vídeo – recomendo fortemente que leia isso, talvez algum livro feminista, ou pelo menos CONHEÇA alguma militante do movimento antes de basear todo e completamente cada um dos seus argumentos em “Vai dizer que você não / Aposto que vocês blablablá”).

Pra ser sincera, uma leve busca na Wikipédia já faria você parecer bem menos ignorante.

"Olha gatinha, eu não dou a mínima pra o que você pensa. Se eu digo que eu sou um feminista então POR DEUS, EU SOU UM!"

Ainda acha que está com a razão, que tudo é uma grande piada (cordei kd graça)  e que feministas são esquizofrênicas? Então vamos lá, com a definição resumida de “O que é um Machista”, via Clube do Macho. Vou deixar tudo sic, como na original:

 “Acima de tudo, ser machista significa que você não faz coisas q considera atitudes ou atribuições de heteroboiolas (Segundos os mesmos, isso seria um homem hétero com atribuições “delicadas”, já que, como é comprovado cientificamente, um homem que cruza as pernas ao sentar e não fala gritando como um mamute no cio vai pro inferno) e de mulheres. Apenas isso! (sim, apenas isso. Apenas subjugar e explorar as classes “inferiores” – homens homossexuais e mulheres – o que tem de errado nisso?!)

O machista acha que lugar de mulher é na cozinha, lavando, passando, limpando etc. Pq? Simplesmente pq ele não faria isso, mesmo morando sozinho! Se ele não faz isso, quem vai fazer??? (me pergunto se eles já aprenderam a limpar a própria bunda.) Ou a esposa do cara ou a empregada doméstica dele. E feministas, acreditem, essas duas figuras não precisam ser necessariamente a mesma pessoa! Não é incrível??!?!Claro! Mais incrível ainda é que você acredite que sua esposa ou qualquer outra mulher sejam responsáveis por limpar a sua merda, e não você! Mas não que nada disso esteja relacionado a gênero, IMAGINA.

Eles só crêem que homens precisam ser estúpidos, violentos, enfim, inumanos…os que não são assim são fracos, “boiolas” (nãão que isso tenha algo a ver com homofobia, jamais!) e que a obrigação de limpar a bunda peluda alheia pertença a outras mulheres: como mães, esposas, e/ou empregadas. Mas repito: nada a ver com dicotomia de gênero, homofobia ou sexismo.

Qualquer semelhança entre este raciocínio e o do “Homem incompetente VS. A eterna mãe” (sobre o qual a Lola retratou belissimamente nesse post sobre a nova e escrotíssima campanha da Bombril) não é mera coincidência.

Imagem de macho ideal segundo o Clube do Macho. Opa, piercing igual o meu. Significa?

Eu poderia rebater cada parágrafo desse amontoado fecal do Clube do Macho, mas vou me restringir a apenas mais um parágrafo, que é onde mais uma vez eles ensinam com o que a gente deve ou não se importar, como deve ou não agir e etc.:

 “Se um machista diz “que mulher só serve para cozinhar” e ela fica PUTA com isso, é porque ela ACREDITA que aquilo tenha um fundo de verdade. E acha um absurdo que isso seja a realidade.

Pois é, e se alguém alegar para umx negrx que elx só serve pra ficar na senzala, elx provavelmente vai ficar ofendidx. E isso não significa que elx concorda com isso. Significa que você tá falando bosta.

Se você disser para umx judeu que elx deveria ser queimado num forninho a lenha nazista, x mesmx tampouco dará risada e interpretará como uma brincadeira, mesmo que elx seja “superior” a isso. Há uma grande possibilidade de que talvez os seus antepassados tenham sido, de fato, queimados e torturados alguns anos atrás, precisamente por serem judeus.

O mesmo se repete com as mulheres, e qualquer outra classe que tenha sido (e/ou ainda é) prejudicada ao longo de tantas eras.

Não dá pra rir quando eles defendem o uso de “porrada” pra levar alguma fêmea para o “abate”, quando você conhece tantas mulheres que foram estupradas, espancadas e/ou mortas para o mesmo objetivo.

Este cômodo está cheio de pessoas que acham que você é engraçado.

Assim como em plena Virada Cultural (um evento enorme que ocorre uma vez por ano em São Paulo para uma platéia imensa) ouvir piadas do tipo “Daí ela pediu pra eu bater nela e chamar de puta. Eu falei “opa, jamais”, mas ela insistiu, gente, eu juro! – risos gerais – . Como ela pediu muito, eu bati né. Tá desmaiada até hoje, tadinha – risos gerais –“ [1] sendo que eu conheço mulheres próximas a mim que apanharam durante anos do marido, a ponto de perder o bebê que carregavam, ou desenvolverem distúrbios psicológicos graves e internarem-se em hospícios. Não tem a menor graça.

Nesse mesmo evento (Virada), soube de pérolas como “depois que inventaram o mertiolate que não arde, surgiu um monte de veadinho”. O que também não me causou risos. Primeiro porque não é o ardor de um ralado no joelho que transforma alguém em heterossexual. Segundo, que o fato de tantxs homossexuais morrerem e apanharem diariamente só por sua orientação sexual me causa pouca vontade de gargalhar.

Ainda tive que conviver com o fato de que neste mês, a Sexy – revista masculina que promove estereótipos e objetificação da beleza feminina, etiqueta comportamental para ambos os gêneros e enfim…mais um desses manuais vendidos as pencas para formar indivíduos alienados – com ampla distribuição, publicou uma matéria do colunista e famoso blogueiro Edu Testosterona, que tem como único objetivo (de vida?) esculachar o movimento feminista. [2]

Porque afinal, depois de dar duro o dia inteiro no trabalho, o maridão merece mesmo uma refeição quente!

Através de argumentos muito bem fundamentados e de profunda originalidade, como “Querem ter direitos, mas não querem deveres!” e “Por que vocês não lutam pro Alistamento Militar ser obrigatório para ambos os sexos?”, Edu invoca todos os Grandes Argumentos Anti-Feministas usados desde que a humanidade percebeu o potencial revolucionário do movimento. Afinal, se estiverem todas nas ruas, quem limpará nossa cozinha? Já sei! Vamos chamá-las de feias (afinal, somos LINDOS! e tudo que mais importa para o sucesso de uma mulher é a sua beleza!) e mau comidas, alegando em seguida que o único jeito delas serem legais e superiores seria…bem…limpando nossa bunda, chupando nosso pau e cortando o próprio torso para enfiar próteses de silicone cada vez maiores!

Parece pavoroso para os masculinistas que o movimento feminista não se resuma a lutar por eles.

Mas olha, vou confessar uma coisinha entre dentes muito assustadora: a gente luta por direitos masculinos, sim. CALMA. RESPIRA. Já tá acabando!:

Sabe a Licença Paternidade?Pois é, feministas são a favor de licença paternidade de tempo equivalente a maternal. Chocante, eu suponho.

Nós também não gostamos e não apoiamos, por exemplo, que vocês precisem ser machos caricatos, que não choram, não amam, não sentem e vivem a vida em “stand by”, como um amontoado de minerais desgastados pelo vento.

Quanto ao alistamento: jura MESMO que vocês acham que o problema é as MULHERES não se alistarem obrigatoriamente? Eu, assim como (suponho) qualquer anarco-feminista e tantas outras pessoas, sou contra o alistamento obrigatório, independente de gênero. Considero-o uma obrigatoriedade que viola as vontades e perspectivas de vida do ser humano, ignorando seus reais desejos, e usando-o, literalmente, como um soldadinho de chumbo para as vontades do governante superior.
Convenhamos que as nossas guerras não são motivadas por revoluções benéficas para todos. Aliás, se fossem, o alistamento não seria um problema para muitos de nós, que voluntariamente batalharíamos para um mundo mais justo.
Portanto, a obrigatoriedade em si já é algo condenável.

A solução para os problemas do mundo: mais mulheres no exército. Oi?


As mulheres não são utilizadas mandatoriamente como massa para essa manobra justamente por um conceito sexista: sexo frágil.
Para muitos, uma mulher não tem a mesma capacidade física de um homem, não importa o quão bem treinada ela seja. Portanto, ela é supostamente um peso morto no batalhão.
Uma outra observação: em guerras e ocupações (onde matam-se os homens e estupram-se as mulheres, como já foi feito tantas vezes na história), as mulheres são utilizadas como máquina reprodutiva e/ou exemplo de dominância por parte de quem ocupou o território. Portanto, não há benefício em tê-las na linha de frente, mas sim assustadas e violentadas.

Temos que considerar ainda que masculinistas e anti-feministas de forma geral, possuem essa crença absurda de que o feminismo domina o mundo, e que se as coisas estão do jeito que estão, a culpa é nossa. Um exemplo claro é cobrarem de nós o fato do alistamento obrigatório ser exclusivamente masculino, como se imediatamente compactuassemos com isso e tivéssemos o poder para mudá-lo a qualquer minuto, e não o fizéssemos por falta de vontade.

Outra dúvida que também não cala na minha mente é: quem são essas tais feministas a quem eles se referem? Quem são essas que militam pela libertação da mulher, mas querem que paguem a conta por elas? A sério, nunca conheci NENHUMA militante esclarecida que agisse dessa forma. E olha que eu conheço muitas.

Repito aqui o que disse ali em cima sobre o Clube do Macho: poderia ficar dias, semanas e meses rebatendo um por um de todos esses gorfos. Mas, como eu tenho muito, mas muito mais pra fazer do que ficar debatendo argumentos com quem senta o rabo em cima de seus privilégios e resolve que a meta de sua vida será esculachar um movimento que luta pela libertação dos indivíduos da doentia estrutura patriarcal, eu prefiro ir viver a minha vida.

Perdi muito tempo escrevendo isso aqui pra esses masculinistas de merda. Vão me fazer um sanduíche de tofu, desgraça. (Trolls me chamando de feminazi em 3...2...)

Inclusive, estou considerando escrever um post sobre sei lá, teatro albanês, física quântica, astronomia ou qualquer coisa da qual eu não faça a menor idéia. Pelo visto, dá pra ficar rica assim!

[1] Sobre a piada na Virada Cultural: eu e Jo ouvimos estes e outros absurdos, por volta das 14:30/15:00 de domingo, na região do Parque do Anhangabaú. Não sabemos ao certo o nome do palhaço, porque batemos em retirada assim que começou o festival de diarréia.

A piada homofóbica foi mencionada por muitxs outrxs presentes, mas eu não estava no momento e não sei precisar, tampouco, quem foi o autor desta belezinha.

[2] Não tenho link da tal coluna pois ainda não disponibilizaram online. Assim que rolar, posto aqui pra vocês gorfarem também. Pretendo elaborar um e-mail para a editora, já que é de extrema falta de responsabilidade publicar conteúdo de ódio e difamação irreal, ainda que sob a alegação de não-responsabilidade acerca do conteúdo criado pelos colunistas.

Não linko o site do tal indivíduo porque não me convém. Abrir aquela página me dá náuseas. Google it.

Rasgando o R.G

13 abr

Desde que criei este blog, tinha a pretensão de escrever um post sobre arte corporal, sua relação com a sexualidade, o preconceito existente com a mesma e o mercado de trabalho.

Assim como muitas crianças, sempre achei tatuagens extremamente curiosas e interessantes – afinal, cores fascinam a qualquer umx, especialmente se elas não “deveriam” estar ali – , enquanto modificações “extremas”, como bifurcação da língua e implantes subcutâneos me causavam um misto de susto e divertimento.

Aos dezesseis anos, juntei dinheiro o suficiente e fiz o meu primeiro piercing. Medo de agulhas nunca foi algo que me perturbou. Dizem meus familiares que no meu primeiro hemograma – eu devia ter algo como dois anos – resolvi encarar a agulha, e quando vi o sangue sair de mim, desatinei a rir, achando tudo divertido e incompreensível.

Voltando aos dezesseis, lembro que o piercer que me atendeu era bastante profissional e cuidadoso. Fez questão que a minha mãe subisse para conferir a integridade do estúdio (ela me acompanhou sob protesto, já que eu era menor de idade) e observar o processo, todo esterilizado e cuidadoso.

Fiz meu nostril. Aquele na aba do nariz.

Lembro que minha melhor amiga estava comigo, e eu me senti extremamente feliz, e de certa forma vitoriosa por enfrentar a dor (que não é grande de forma nenhuma, nem insuportável), o medo, a incerteza…por ter ornado meu corpo com algo que eu escolhi usar.

Como mulher, sempre fui encorajada a me acovardar. Ter pavor de dor, de cair, de me machucar. Ter aversão ao meu sangue – menstrual ou não. Ser frágil, ser quebradiça. Eu havia superado algo que eu escolhi. Eu havia superado a dor. Eu havia acrescentado em mim algo de minha opção, e não havia pedido a opinião de ninguém.

Foi o começo de uma filosofia de vida que moldou meu corpo, e minha relação com ele e com o mundo. Proporcionalmente, uma escolha que me afeta todos os dias da minha vida.

“A Igreja diz: o corpo é pecado. A ciência diz: o corpo é uma máquina. A propaganda diz: o corpo é um comércio. O corpo diz: eu sou uma festa!”

Não pretendo entrar no mérito da discussão acerca da arte corporal e suas origens em tribos indígenas. Primeiro, porque o a postagem ficaria imensa. Segundo, pois o meu intuito aqui não é dar uma aula: é esclarecer e rebater críticas que ouço constantemente, por pessoas que nunca vivenciaram ou buscaram entender o movimento, ou o dia a dia de alguém que optou por ter sua imagem transformada.

Masoquismo, Comportamentos Anti-Éticos no Meio e Exploração do Feminino Sob Pretextos Artísticos.

Como modificações corporais implicam comumente em dor (não é permitido o uso de anestesia para piercings, tatuagens, implantes, micro-cirurgias e etc., pois body piercers, tatuadores e artistas do ramo em geral precisam de licença médica para administrar sedativos), é de senso comum associar a modificação ao masoquismo e muitas vezes, ao sadismo.

O mais comum entre os adeptos, no entanto, é que a dor seja vista como um processo: uma reação natural do seu corpo. Vencê-la é vencer um obstáculo em nome de manipular sua própria imagem da forma que bem entender.

Não é mentira que alguns praticantes de BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo)  sejam também possuidores de modificações corporais, ou usem seus procedimentos como parte dos rituais (por exemplo, bloodplay – que consiste literalmente em brincar com sangue próprio ou de terceiros, de forma sexual ou não).

É mentira, no entanto, que todx modificadx seja fetichista e encare as relações sexuais como um instrumento de controle e poder.

Também não é verdade que todo ritual envolvendo perfurações ou sangue seja sádico ou fruto de um delírio religioso.

A suspensão corporal, por exemplo, é descrita muitas vezes como uma “metáfora corporal” para a transcendência (não necessariamente religiosa). Uma vez que depois de superar o medo e a dor, o relaxamento e a liberação de endorfina proporcionam um prazer incomparável, que não tem nada de sádico ou danoso para nenhuma das partes envolvidas.

E aí, sádico o suficiente pra você?

Conheço pessoas praticamente lacradas de tatuagem, que confessam odiar a dor das sessões, e que têm ficado cada vez mais intolerantes com a mesma.

Também conheço pessoas com orelhas alargadas que morrem de pavor de agulha, e que viram o rosto e fazem caretas quando incluem um novo adorno.

Conheço modificadxs que são veganxs, resgatam e tratam de animais de rua, que simpatizam com a causa feminista, libertárixs, sóbrixs e livres de drogas.

Conheço modificadxs homossexuais, bissexuais, transexuais, heterossexuais, militantes do movimento LGBTT, e sei até mesmo de racistas, neonazistas e reacionários de merda (por mais paradoxal que pareça, já que se subentende que alguém disposto a fugir por própria escolha do que é considerado “aceitável” para o seu corpo, também seja disposto a aceitar as diferenças do mundo).

O meu ponto é: nem todx modificadx é um(a) ogrx sem coração e comedor de criancinhas no café. Assim como nem toda modificação ou ritual é de cunho sexual (na verdade, poucas são), como já vi teóricxs criticarem.

É sim verdade que existem pessoas antiéticas no meio. Que existe sim exploração do corpo feminino enquanto “objeto artístico” em muitos zines sobre o assunto (embora a proporção entre a nudez feminina e masculina seja bastante equilibrada – e isso não invalida a crítica de forma alguma, é apenas uma observação – , de modo que o foco seja sempre, supostamente, a modificação, e não o sexo ou o gênero). E também que algumas pessoas apreciam a dor de forma sexual. Porém isso não é de forma alguma uma regra.

Se quiser investigar por si, recomendo conhecer o IAM, a rede social do BMEzine – o maior ezine sobre modificação corporal do mundo. Lá você definitivamente vai ver gente de todos os tipos – que vão desde feministas radicais, até homens e mulheres presos no mito da beleza e pornificação de si mesmos, entre diversas preferências políticas – adeptos de uma mesma arte, e com infinitas teses sobre o assunto.

Rasgando a Carteira de Trabalho.

Não precisa ser o Pauly Unstoppable para ser discriminado, confie em mim. Se você tem dois piercings ou mais (em locais incomuns ou visíveis), um cabelo um pouco diferente, ou prefere se vestir com algo que não seja um conjunto de terno ou de saia, blazer e salto alto: você é inadequado para o mercado de trabalho.

Esse é o Pauly. Ele é homossexual, straight edge, aprecia comida vegan crua e gosta de coelhinhos.

Por um golpe de sorte, quando consegui meu primeiro emprego, aos dezessete, conheci meu chefe já com bochechas furadas, orelhas alargadas e tênis, sem que houvesse nenhum protesto da parte empresarial. Você e eu sabemos que não faz sentido atravessar a cidade em ônibus superlotados em cima de saltos de quinze centímetros – muito respeito pelas mulheres que passam por isso, já que por algum motivo sórdido, o capitalismo só as “respeita” quando estão se equilibrando em hastes finas ao andar por calçadas esburacadas.

A realidade é que os empregos médios (escritórios convencionais e instituições “sérias”) pedem uniformes e condutas dignas de riso.

Apesar de andar de busão, você precisa de vestir como um(a) chefe, que chega com o carro do ano. Apesar da marmita, sua mala precisa estar em condições adequadas para combinar o seu “terno de impressionar clientes”. Apesar do motorista de ônibus parar justamente em frente uma calçada quebrada, você deve aterrissar como uma princesa, no alto de seu scarpin parcelado em 17 vezes.

Funcionária ideal, hein? (sim, sou eu)

Pode estar com a pior dor de cabeça da sua vida: o sorriso para o cliente e para seus superiores deve estar em dia. Cólica menstrual? Vá até a farmácia no horário de almoço e cure isso logo. Você não tem tempo para estar doente e o trânsito que você pega não interessa. Precisa engolir a droga entorpecente e sorrir, sorrir, sorrir…

O que hoje meu chefe e algumas outras pessoas sabem, é que o fato de ter buracos na minha orelha não me faz menos competente do que o advogado engravatado. Meu tênis não me torna displicente, assim como um salto alto não me transforma em heroína da pátria.

Aos finais de semana, feriados ou happy hours, todos bebem (cervejas importadas ou populares), e saem de bermuda (com a logomarca cara ou da loja de departamentos) para relaxar do stress semanal. A gerente e a empregada, cada uma a seu modo e dentro de suas possibilidades, se cobram esteticamente e se punem: uma, malhando diariamente para cumprir sua penitência por ser mulher. A outra: se servindo de menos feijoada.

Todxs somos afetadxs por questões relativas ao status, e de forma geral, somos induzidxs a nos vestir e comportar de forma que não nos pertencem, sobretudo para agradar a terceiros (clientes, patrões…) e que por sua vez, também escondem suas verdadeiras vontades e preferências atrás de comportamentos que não lhes representam.

O que difere uma pessoa modificada das demais no mercado de trabalho tradicional, é que por maiores e mais ortodoxas que as exigências estéticas sejam feitas, ela dificilmente conseguirá esconder todas as evidências de sua singularidade, expressa em processos físicos que adornam seu corpo.

Imagine uma recepcionista com seu uniforme tradicional, e com adornos que remetem a chifres na testa. Ou ser atendido por um balconista que entrega seu lanche com as mãos repletas de desenhos orientais? Definitivamente, uniforme nenhum será capaz de transformar tais pessoas no que a vestimenta se propõe: apenas um trabalhador. Sem causa, sem vontade, apenas sorrisos e boa serventia. Você conhecerá imediatamente mais dessa pessoa do que das demais. Sua preferência por tais desenhos e cores, ou tamanhos e formas. Possivelmente, até mesmo uma ideologia estará estampada em algum lugar, de forma orgulhosa.

Atende eu, La Negra! ♥

Não subentendam porém, que eu considero pessoas tatuadas ou implantadas melhores ou mais competentes do que as demais. O meu ponto é que elas podem ser igualmente competentes, e ainda assim, ostentarem sua individualidade de forma aberta.

Classismo.

É inegável: as modificações corporais, assim como a arte em algumas de suas manifestações, estão bastante ligadas à classe econômica.

Quem ganha um salário mínimo, por exemplo, não tem condições financeiras para se submeter a procedimentos de modificações corporais frequentes, e é notória a participação de homens e mulheres brancxs no meio da arte corporal moderna.

Descrer nisso já que as origens da arte estão em raízes africanas e indígenas seria ingênuo, uma vez que me proponho a discutir a arte corporal MODERNA e URBANA desde o princípio.

Enquanto o piche e o grafite dão voz nas periferias, a pop art serve a classe média e o Construtivismo Russo falou ao proletariado, a modificação corporal moderna ainda é vista como bizarra e intolerável para diversas pessoas de todas as classes, embora o movimento, atualmente, pertença muito mais às classes econômicas mais ricas.

O conceito de mutilação e o status de bizarro subentendem que os indivíduos são perturbados mentalmente, e que buscam atenção de um suposto público. Enquanto isso, a mutilação em mesas de cirurgias plásticas estéticas são amplamente aceitas e incentivadas.

Isso não afeta os indivíduos apenas pelo bullying sofrido nas ruas (gritos ofensivos, pregações religiosas, olhares acusadores e até agressões físicas), mas também pode ser extremamente negativo no âmbito profissional, uma vez que diversas instituições consideram o visual alternativo como extremamente indesejável e banível.

Meu protesto portanto, não é de que sejamos o grupo mais oprimido do planeta, até porque, costumamos ser brancxs e da classe-média. Mas sim de que somos discriminados de fato, e que esse fato não pode silenciar e impedir as pessoas de fazerem o que bem entenderem com seus corpos.

O julgamento social não pode valer mais do que o seu conhecimento, e se anular de forma a se adequar também não mudará os valores sociais instituídos.

RG: Rasguei

O que me motivou a escrever este post em meio a tantos temas mais interessantes a serem trabalhados, foi que neste sábado, eu tatuei os dedos.

Também me estimulou a compartilhar minha vivência o fato de existirem poucas feministas tratando do assunto. Até hoje, só li uma crítica (que não acredito estar autorizada a citar, portanto se houver interesse, é só procurarem por modificação corporal + feminismo) que trata o assunto de forma bastante negativa.

Como eu vivo sendo quem sou, sei o que é sair na rua e ouvir todo tipo de ofensa gratuita, sou uma excessão por ter um emprego que me aceita como sou, e me sinto no direito de esclarecer o preconceito existente.

Orgulho.

(:

Acho que ainda não mencionei aqui, mas a mesma dona desses dedos coloridos, passou a pouco tempo na faculdade. Serei bióloga em alguns anos, e trabalharei com algo que realmente amo. Continuarei ostentando com orgulho as ideologias que carrego marcadas na pele.

ADENDOS!: Patricia Nardelli, aquela linda *-*, me lembrou que eu não falei sobre o recorte de gênero que há na modificação corporal.

Há, e muito: mulheres com modificações que fujam da delicadeza esperada (ou seja, não-fadinhas-mini-borboletas-e-afins) são discriminadas por não terem a aparência dócil que se espera. Por remeter à dor, o visual modificado é considerado masculinizado e agressivo. Preciso falar mais nada né? Dicotomia de gênero manda abraços.

E o Jo, meu companheiro queridíssimo, mencionou também o preconceito que generaliza pessoas com modificações corporais a presidiários ou criminosos.
Enfim, tem muita coisa a se dizer ainda sobre o assunto. Os preconceitos são infinitos e…todxs nós estamos cagando para todos! ❤