Arquivo | março, 2011

Sexualidade Feminina nas Mídias Digitais (videogames)

30 mar

Jessica Albert - Dragon Quest 8

Finalmente meu primeiro post, depois de inúmeros da Mexy. Resolvi tomar vergonha na cara e escrever sobre um assunto que já havíamos conversado em grupo,  juntamente com AquelaDeborah e agora idealizado como um post.

Sei que algum@s podem se perguntar “O que um homem tá postando num blog repleto de posts feministas?” Digo apenas que a idéia deste blog é partir de uma união pró-feminista, contribuindo com assuntos que vivencio e reflito constantemente com diversos amig@s envolvidos no movimento feminista.  Não abordarei muitos posts com essas questões, pois quero deixá-las exclusivas a Mexy. Pretendo contribuir com outros assuntos ainda.

Muitos de nós, algum dia, já tivemos a experiência de jogar videogames, sejam eles em qualquer tipo de plataforma possível, Pcs, consoles, portáteis, webgames e etc. Tudo bem, mas qual o problema nesses jogos?  Nota-se  que o mercado de games vem apelado constantemente na imagem feminina, com dezenas de heroínas bravas, grandes, peitudas, loiras, brancas, enfim…poderosas! Mas poderosas em que sentido? Seja nas fantasiosas aventuras de um RPG (como Jessica em Dragon Quest 8 ) ou como em jogos de luta (Dead or Alive, Mortal Kombat, Streetfighter etc), não é preciso exemplificar muitos games, pois basta vasculhar um pouco por sites especializados, que logo achará uma representação feminina semi-nua no título de alguma capa.

Para que não bastasse supor, dei uma breve busca em alguns foruns de jogos específicos e achei um no qual discutiam em cima de uma matéria vinculada ao Jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul, na folha informática. O título era: “Games estimulam a sexualidade feminina”, não consegui achar a fonte original da matéria no site deles, mas me vali do relato do indivíduo que a postou no forum e logo mais começaram a “vomitação” de argumentos sobre  o papel e imagem da figura feminina no mundos dos games :

“a maior parte das mulheres que jogam videogame(generalizando) costuma jogar com namorado, e consequentemente a mulher que tem namorado transa mais do que as que nao tem”

“Estatísticas não são bases confiaveis, principalmente para relações causa-efeito. Ponto final.
Ou vc vai convidar a “Giovannella”, só pq ela é mó gostosona naquele jogaço de RPG irado, ela topa, mas só se for no Motel; qd vc vê na real, aquela porca obesa que nem a barba faz…
Eu já encontrei várias num único encontro de RPG. Algumas se salvam – as comprometidas, óbvio – outras, bem…só nascendo de novo.”

“Bom, na época que eu tinha lan aparecia umas perdidas gostosinhas pra jogar CS de vez em quando, bem de vez em quando mesmo.
Infelizmente a mulherada boa mesmo é tudo cabeça de amendoim e gosta mesmo é de Orkut, faz 3000 abdominais por dia e coloca foto do seu “tankinho” (puta coisa de PUTO) lá pra ver c não aparece umas 30 pelo menos te adicionando … No mais, mulheres gostosas estão nas baladas, enchendo a cara de pinga que é o que elas mais gostam, pinga + putaria.”

“Já escutei historia de admin de server de tibia comendo mina em troca de item, como dissem:
Depois das maria gasolina hoje já temos as maria item hehaheahhehaehaehaehaehaehae”


X-man Atari

Isso tudo em apenas uma busca random e achado no fórum do jogo de fps Battlefield!!   Alguns devem imaginar que esse tipo de assunto é recente, mas me lembro de alguns anos atrás (2000) quando jogava Ragnarok, MU online, Tibia,  além de jogos convencionais de plataformas, comprava revistas e assistia programas relacionados a jogos, como o Cybernet da Multishow, que apresentavam constantemente o surgimentos de novos jogos  cada vez mais explícitos na vinculação da imagem da mulher como um objeto sexual de decoração e exploração. Esses vínculos permanecem há muito tempo e cada vez de forma cada vez mais imperativa, conforme o realismo cresce nas novas gerações de games. Percebe-se essa evolução desdo simplório Atari, que diga-se de passagem, possuia games sexuais heteronormativos como X-man ou em Battletoads com a vilã “sodomizada” Dark Queen.

Dark Queen - Battletoads

O que não desce é o fato de como empresas utilizam brutalmente a imagem da mulher, mesmo sendo virtual, na representação de ícones sexuais, com argumentos de “valorização do corpo feminino” ou “poder feminino”, reafirmando ainda mais a idéia de que mulher seja apenas peito-e-bunda em uma história ficcional interativa.  Tais estúdios e empresas, como agentes na formação social, compactuam com cenas que envolvem a relação da sexualidade feminina com o mundo, impondo valores que vão desde objetificação ao corpo da mulher, até assassinatos, estupros, prostituição, humilhação e etc (GTA é um exemplo), tudo isso garantidos e segurados com selos de maioridade regidos pela  ESRB.org . Essa formação a qual os games nos transpassam, nos acompanham desde a infância, reafirmando constantemente a imagem da mulher virtual no mundo dos games ao mundo real em que vivemos.

Quantos homens, rapazes, garotos, não resguardam musas de suas aventuras em games  e as idealizam para o mundo real? Valorizando apenas mulheres que partam de seus referenciais dos games, assim como fazem em revistas pornográficas, programas de tv, comerciais de cerveja e etc.  Lembro de algumas personagens como Tomb Raider (e o ridiculo cheat para ver seus peitos pixelados), Streetfighter (e o truque do pause para ver a calcinha),  Resident Evil (a estátua de Jill que tem uma vagina), Dead or Alive (garotas de peitos e bundas enormes em trajes minusculos), Bayonetta (e sua terrível apelação com peitos enormes, decotes, armas, saltos, poses e claro muita violência no estilo God of War), e poderia citar mais inúmeros jogos, partindo da década de 70 até os dias atuais, como referências para grandes contribuintes nesse hostil mundo dos games, dominado praticamente pelo machismo patriarcal.  Porque há tanta hostilidade contra mulheres nos games? Tanto personagens como jogadoras são marcadas como um simples selo de “garantia de uma boa foda”, “gostosas que jogam Wii  com bambolê”, “musas do game nuas em controles nos peitos”. A imagem da mulher nesse mundinho pixelado é apenas vista como objeto sexual, nada mais além disso ou incrementado de muitos tiros, fogo, monstros, sangue e é claro NÃO PODE PERDER A MAQUIAGEM OU CAIR DO SALTO, mas vale mostrar um peitinho de close.

Dead or Alive

Mas ainda assim a pergunta permanece: qual é o problema com o uso da sexualidade feminina como uma arma ou habilidade? Esta mecânica é apenas parte de um quadro maior. Um exemplo clássico disso no mundo gamístico, e que contribui para a idéia do apelo sexual da mulher para a obtenção de bens,  é o uso de  “truques” para garantir algo do seu parceiro ou inimigo dentro de um game (aquelas famosas cenas de Charming que distraem o inimigo para garantir algo). São inúmeras as ocasiões em que as mulheres ganham poder ou posses simplesmente através de sua capacidade de atração e não através de seu trabalho duro.  Ayla, no game Chronno Trigger,  é uma lutadora forte com habilidades que envolvem chutar e agarrar os inimigos, exceto por sua capacidade sexual um: Charme. Ayla’s Charm seduces an enemy to obtain an item, segundo a descrição.  Por outro lado, em qualquer game, um personagem masculino usaria apenas a habilidade Steal ou Intimidate para conseguir o que deseja, ou seja, demonstrando sua virilidade e masculinidade para afrontar seja o Dragão mais alto de 8 cabeças que for.  Já uma mulher, só é “capaz” de seduzir e atrair pela sua sexualidade.

Mas desse jeito parece que os games terão que passar por uma comissão evangelizadora e assim estampar saias até a canela nas personagens dos jogos, vai ficar um lixo ein?NOT Arnaldo! , não se trata disso, mas sim do por que há a necessidade de demonstrar litros de silicone em peitos descomunais? Fragilizar o feminino ao resgate da romântica princessa indefesa? Da prostituta serva do Deus da Guerra poderoso e viril?…

E não para por aí, na tentativa de  “igualar” as diferenças, a representação marginalizada de mulheres gordas, “feias”, modificadas e etc, sempre parte de um estereótipo caricato ou exótico.  Em quantos títulos vemos a

God of War e o "Sexy Game"

representaçãode uma uma mulher gorda, desengonçada, feitiçeira “mal comida”, uma modificada anti-social ? Cremos que mulheres gostariam de ser representadas como elas realmente são, livres dos estigmas cravados na sociedade como “mulheres ideais”, da marquinha do bikini ao cabelo alisahair.

Por que não criar um entreterimento livre de preconceitos? Já basta os que passamos no mundo real em que vivemos, o mundo virtual se torna palco de ínumeros atos que julgam como “ingênuos” mas que valem de uma real idéia formada e reforçada com os conceitos vigentes de um machismo heteronormativo cruel e incisivo.

Chega da punhetação viril de ícones do macho ideal, Deuses da Guerra, Demônios, Campeões de fantasias falocráticas no qual idealizam apenas o pênis (Espada) como única salvação do universo.

Tá na hora de usar mais a criatividade e parar com o joguinho do “quem é mais macho”.

Segue alguns dos títulos no qual reforçam a idéia da sexualidade feminina como objeto de sensualidade e desejo.

God of War – Sexy Game (absurdamente não entendo a cena, chega um kra doidão destruindo tudo e as mulheres apenas nuas soltam um admirado “hmmmmmm” q poha é essa?)

Silent Hill 2 – Pyramid Head (esse é complicado, um homem masculo, ícone dos garotos de como “ser maligno destruidor de humanos” …esqueceram de mencionar o “incentivador ao estupro” também)

Dead of Alive Paradise (esse nem precisa dizer nada, apenas veja)

Bayonetta ( de freira ela vira “devassa” com saltos, maquiagem e diversos closes em bundas e peitos. dicotomia feminina de freira ou puta SEMPRE)

Top 10 Hottest Girl in Gaming (nem a apresentadora escapa aos padrões da beleza)

Feminismo Radical: Esse Movimento Frígido Anti-Orgasmo

30 mar

Vou contar uma coisa pra vocês:  às vezes, apesar da imensa correria, acontecem umas coisas na minha vida que me levam á necessidade urgente do desabafo. Do tipo: ou escrevo, ou morro de câncer/úlcera/vomitarei meu intestino.

Hoje foi mais um desses dias. Topei, através do twitter da querida @fadamariposa, com a seguinte “notícia”: Movimento feminista pede para mulheres não mais transarem ‘de quatro’.

Claro que diante de uma chamada dessa minha reação foi um claro “MAS QUE PORRA…?!”, mas né, já que vamos sofrer, vamos sofrer informadas. Resolvi ler a tal “notícia” da página entitulada Tramado por Mulheres (abreviado como TPM, aquele período onde as mulheres viram – um pouco mais – bestas demoníacas e irracionais descontroladas, oh nooes!). Aliás, tem um “Por Mulheres” no título da página, mas opa, o post foi escrito por um tal Fabio Flores, é isso mesmo Evaristo? Enfim, coerência não parece ser muito o forte de lá mesmo, então relevemos.

Nesta pérola, descobrimos que uma tal de Helena Ramirez (boa sorte pra saber quem é, nem Google foi capaz), suposta “líder do movimento feminista no Brasil” foi entrevistada (boa sorte pra achar provas disso também) no programa do Jô, na Rede Globo (datas? Também vamos ficar devendo, viu?), e nele “afirmou” uma série de loucuras, como: “‘homem que busca sexo anal em relação hétero está fazendo estágio pra virar veado”. Porque né, claro que homofobia e feminismo caminham lado a lado! Ah, o feminismo, esse movimento que luta pela legislação sexual rígida e padronizada…not.

Claro, nós feministas somos estritas defensoras da Família, Tradição e Propriedade. Nosso Presidente do movimento tem como sobrenome Bolsonaro né amiguës?

Pra quem ainda não sacou, esse post foi publicado vinculado a tag “Jornalismo Mentira”, e NENHUM dos fatos narrados aconteceu. Ou seja, um hoax, propagado na velocidade da luz graças ao incentivo de famosos e queridos blogs como o desprezível Testosterona e afins.

Se trata apenas da 563.746.687.637.654 piadinha anti-feminista feita desde que o movimento existe, e do 784.526.894 autor que se acha MUITO inovador e crítico por vomitar os mesmos gorfos que são vomitados há séculos por quem manja nequinhas flácidas do Movimento das Mulheres.

Troféu Bolsonaro da Criatividade Jornalística pra eles!

Explico: pra começar, o movimento feminista não é feito por/para líderes. Claro, temos muitas referências, muitas mesmo, mas o movimento é plural. Recomendo imploro que você leia o F.A.Q Feminista para entender melhor alguns desses aspectos.

Apesar do que todos insistem em acreditar, o feminismo também NÃO é um movimento frígido ou anti-sexo, apesar de muitas de nós sermos anti-PORNOGRAFIA (se você sabe ler, vai descobrir que isso não é ser anti-relações-sexuais). A maioria de nós gosta, e muito, de sexo. Algumas até são pró-porn se você quer saber, porque não, não há uma catraca com uma senhora falando “você é feminista o suficiente, pode passar”. Somos plurais, e podemos discordar umas das outras em alguns aspectos. Inclusive, acho pessoalmente um lixo esse conceito de que todxs temos que ser super sensuais e tesantes o tempo inteiro. Acho a assexualidade perfeitamente normal, mais até do que essa uber-pornificação. Mas isso sou eu, e enfim, voltemos ao feminismo.

Não há liberdade política se não há liberdade sexual.

O que nós queremos é que as mulheres possam gozar sim, e muito. Dando a elas a liberdade de se sentirem confortáveis nos próprios corpos, e que possam escolher suas/seus parceirxs sem restrições desnecessárias. Queremos o direito ao orgasmo livre de performances, de amarras normativas. Que usemos chinelos, pés descalços, saltos altos, água corrente ou blush azul em mousse: tudo quando e se nos der vontade. Apenas isso.

Você dificilmente (nunca?) verá uma feminista apontado para a cara das pessoas sobre o que elas devem ou não fazer na cama, com os corpos, com os cabelos, com o demônio que o parta: nós queremos liberdade. Para nós e para os homens, que também são sempre enlatados em estereótipos ultra-masculinos, sem oportunidade de vivências e práticas sexuais que podem ser interessantes para todos os envolvidos, que deixam de ser realizados em nome de uma masculinidade padrão.

Homens: o prazer anal os transformaria em homossexuais tanto quanto o sexo oral transformaria as mulheres em lésbicas. São apenas partes do seu corpo, creia-me. Viva, experimente, mande pro inferno todas as regras que foram postas ao longo da sua vida sobre o que você deve ou não fazer para te conduzir ao prazer.

Não há um número correto ou inadequado a ser estipulado para parceiros sexuais, e se estereótipos negativos foram criados acerca disso, posso te garantir com toda a certeza do mundo que não foi o feminismo que os criou.

Nosso foco nunca foi o castramento, o encarceramento do prazer. Lutamos precisa e massivamente para que isto seja natural e livre, que haja vontade de fato, que haja desejo genuíno. Se duvida do que digo, pode pesquisar qualquer obra literarária feminista e verá o quanto desta foi dedicado ao descobrimento e exploração do clitóris, por exemplo.

Ainda assim, existem autores com grande visibilidade que insistem em disseminar tantas “brincadeirinhas inocentes” e preconceitos explícitos sobre um assunto que desconhecem por absoluto, e, no entanto, insistem em massacrar de acordo com o que ouviram por aí, sem nunca terem se aprofundado na história, no movimento, na vivência…

"Mamãe, quando eu crescer eu quero ajudar a esmagar os paradigmas branco-racistas, homofóbicos e patriarcais de merda também!"

O feminismo, assim como o movimento anti-rascista e anti-homofóbico, não prega a supremacia das mulheres, dxs negrxs ou dxs homossexuais. É tão e somente CONTRA a opressão dos mesmos.

Aparentemente, dá muito mais ibope (vide o tanto de “curtir” no facebook que esse hoax nojento vem agregando) fingir notícias que exploram mais ainda um conceito absurdo de movimentos anti-violência e opressão, enquanto a ignorância é disseminada, porque isso pode te conferir o sagrado posto de “crítico” e “anti-politicamente-correto”.

Não há do que ter orgulho no seu preconceito homofóbico / sexista / racista de merda, e tampouco há nada de crítico ou inovador nisso. Desde tempos que eu mal consigo datar o homem branco, cristão e heterossexual oprime desde os animais até os seus semelhantes. Então por favor, pense um pouquinho antes de cuspir por aí todos os vômitos que já foram expurgados antes de você, por pessoas igualmente desinformadas. A internet ta aí, amigxs, é só pesquisar um pouquinho, dói menos do que depilação com cera.

Pula Catraca! – 9º Ato Contra o Aumento da Passagem de São Paulo

18 mar

Desde o dia 5 de janeiro, passageiros do transporte público de São Paulo são obrigados a pagar R$ 3,00 por um serviço que há muito (sempre?) nos deixa na mão.

Apesar do valor da passagem – que aumentou 11,11% – ser quase o dobro da inflação medida pelo índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA), – que fechou o ano em torno de 5,9%-, aparentemente para a Secretaria de Transporte ainda é uma tarifa justa a ser paga por um serviço extremamente superlotado, com intervalos enormes, e percorrendo trajetos que em dias de chuva ou muito trânsito (ou seja, todo dia) podem chegar a duas, três horas ou mais por condução. Sempre lembrando: não foi adicionado nem um ônibus sequer na frota, e nenhuma melhoria nas condições do serviço foi posta em prática.

Quem mora em São Paulo já é habituado a sair de casa com uma antecedência de no mínimo duas horas, ainda que não vá para tão longe assim. A periferia como sempre é a mais prejudicada, com poucas linhas, sempre com pessoas caindo pelas portas, e muitas vezes, servida principalmente por micro-ônibus, que transbordam aos montes em viagens longas, por ruas esburacadas e repletas de curvas fechadas.

Isso sem mencionar pessoas com deficiência física, obesos e idosos, que são praticamente vetados nos horários mais concorridos, especialmente por não serem “ágeis” o suficiente para conseguir embarcar entre a multidão.

Quanto ao metrô, alternativa para quem mora perto de alguma estação (pra quem não é da cidade, já deixo claro que regiões da periferia não são atendidas por este serviço) subiu 263% desde 1996, considerando o aumento da passagem para R$ 2,90. Nos últimos 15 anos, a inflação medida pelo IPCA da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) foi de 131%.

Ou seja: se em 1996, a tarifa era de R$ 0,80, e a inflação fosse seguida, o preço hoje estaria em R$ 1,84.

Vale lembrar também que viagens pelo metrô em horário de pico são praticamente um teste de resistência, onde  vence –  entra no trem – o mais forte – quem mais acotovelar e empurrar os demais passageiros. Desmaios e escoriações são frequentes devido à falta de circulação de ar nos vagões (existe alguma palavra “maior” que “cheio?”) claustrofóbicos e empurrões.

Mas enfim, pra quem anda de carro do ano com gasolina paga pelo Estado, nada disso é problema, e tudo parece muito justo.

No dia 12 de fevereiro, após uma série de Atos reunindo estudantes e trabalhadores, membros do Movimento Passe Livre conseguiram uma Audiência Pública com o secretário de Transportes, Marcelo Cardinale Branco, que abandonou a mesma três horas depois de não conseguir apresentar nenhum argumento válido para o aumento, e sob a justificativa de “desordem”

na Câmara Municipal por parte dos manifestantes.

(...)

O MPL seguiu em luta, e organizou nesta quinta-feira, (17) o 9º Ato Contra o Aumento da Passagem, lutando pelo direito de um transporte justo e livre.

Este, assim como já ocorreu em outros atos, terminou marcado pela violência e repressão pesada do braço armado do Estado.

Foto do sétimo ato. A história se repete.

Após o Ato percorrer e ocupar pontos estratégicos, como o Terminal Bandeira – onde houve depredação, de fato do local, por parte de poucos membros, e com desaprovação da maioria – e a região do Anhangabaú, alguns manifestantes comunicaram a intenção de, em um ato simbólico, pular-se as catracas do metrô, retornando em seguida (não pular e se dirigir aos trens, assim como vem sendo noticiado na grande mídia).

Muitos discordaram da ação do grupo dada a evidência do conflito com a segurança do local, porém a grande maioria correu para dentro da estação.

Alguns amigos meus chegaram antes de mim e do Jorge, que estávamos entre o meio e as portas da estação. O que foi narrado para nós nas regiões da catraca, provavelmente não é o que vocês irão ouvir nos noticiários.

Dois rapazes pularam catracas do metrô, e em incentivo aos demais, deram poucos passos para frente. O óbvio aconteceu. Apesar de “A Prefeitura de São Paulo sempre manter canais abertos de diálogo com a sociedade (…)” o que se viu mais uma vez, foi despreparo e truculência.

Canais abertos de diálogo, quebrar narizes, etc.

Em protesto, os manifestantes que estavam no local quebraram lâmpadas, e reagiram contra a situação. Neste momento, Jo e eu percebemos que policiais e funcionários fechavam as portas da estação, de modo a impedir que os manifestantes conseguissem escapar de um iminente massacre. Nós e mais algumas pessoas gritávamos e bloqueávamos um dos portões ainda abertos, para que não trancassem a todos lá dentro. Poucos segundos se passaram e houve o estouro de uma bomba de efeito moral, dentro da estação. Correria e pânico generalizados, em especial por parte de passageiros alheios a situação. Vimos senhoras idosas e crianças chorando, sem saber pra onde fugir. Os manifestantes se defendiam dos seguranças e da PM, que caçavam quem podiam sem distinção.

Portas já quase totalmente fechadas, manifestantes expulsos na porrada.

Alguns amigos nossos se feriram, e soubemos de gente que ficou muito pior graças aos estilhaços de bomba e ofensivas policiais.

Nós ficamos pela região do metrô, acompanhando a situação. Soubemos de manifestantes que foram acuados e perseguidos no Terminal Bandeira.

Algum tempo depois, o grupo se reuniu (com alguns membros faltantes) e se dirigiu novamente ao Theatro Municipal, onde havia começado o Ato, onde foi divulgado o local para a próxima manifestação e repudiado o despreparo, mais uma vez presente, da Polícia.

O meu desgosto é uma tríade: Primeiro, pelo reduzido número de participantes, que vem caindo a cada manifestação. Não nego, é difícil perder aula, ou chegar a tempo do trabalho para participar, porém a visibilidade e a força caem visivelmente em relação a um ato como o 7º por exemplo, que tomou completamente ruas e avenidas.

Segundo, pela repetição do uso da repressão por parte do Braço Armado do Estado, que parece ser composto por zumbis armados, visto que atacam como um instinto primitivo, sem distinguir atos simbólicos de violentos e por aí vai.

Manifestante ferido por estilhaço de bomba de efeito moral.

Terceiro, pelo esforço que é preciso fazer para possuir algum tipo de visibilidade no movimento. E ainda assim, ver que as únicas notícias a respeito são defendendo os policiais e repreendendo os manifestantes, como se houvesse violência gratuita por parte dos mesmos. Quem estava lá, sabe que não foi esse o motivo pelo qual tanta gente saiu sangrando de um ato que busca ser pacífico.

Não sou a favor de atos de depredação gratuitos, pois só angariam má visibilidade para os manifestantes e não resolvem nada de fato. Porém, nossos gritos e nossas marchas não despertam interesse nem do Estado, nem da mídia (que seria uma grande aliada para convocar mais participantes se estivesse do lado correto). No fim, começo a me perguntar qual será a saída.

Se gritarmos e invadirmos avenidas, atrapalhamos o trânsito de quem tenta voltar para casa. Se ameaçarmos algum local público (ainda que sem violência nenhuma, como o ato de pular e voltar de uma catraca, ou permanecer em frente ao prédio da prefeitura) já é uma ofensa mortal, pelo visto. Se nos calamos, definitivamente, nada muda.

O que fazer? Seguir em luta. Silenciar nunca fez revolução alguma.

O que estamos fazendo é defender um direito nosso, nada além disso. Se o Estado opta por não nos escutar, e a mídia faz a nossa caveira em prol de quem nos espanca gratuitamente, a nossa melhor resposta, queridxs, é que: AMANHÃ VAI SER MAIOR.

Compareça no 10º Grande Ato Contra o Aumento da Passagem.

Quinta-feira, 24 de março, a partir das 17:00 – dá tempo de chegar mais tarde e ainda encontrar o movimento. Concentração na Pça Oswaldo Cruz, Metrô Brigadeiro (em frente ao shopping paulista).

Toda Mulher Tem Uma História de Horror Para Contar & O Santo Culto da Disciplina Estética. Parte II.

15 mar

Antes de começar, eu queria pedir desculpas a qualquer um(x) que acompanhe isto aqui.

Minha vida anda misto de caos e correria, e tenho tido pouquissimo tempo para escrever. Quanto mais para escrever de forma concisa ou interessante. Ainda assim, jogo a segunda parte do post de forma quase crua, pois em verdade, este blog é muito mais sobre eu me expressar do que agradar a quem lê.

Obrigada!

A receita é simples (é?): disciplina, um alto investimento financeiro e muita força de vontade!

Disciplina na bunda.

Você, especialmente se for mulher, com certeza já ouviu esse discurso infinitas vezes.

Tudo o que você precisa na vida é de uma dedicação sobre-humana (independente do seu dia ter sido uma completa desgraça e seu estado emocional estar em frangalhos), e muita disciplina. Pronto! Será uma mulher esculpida nos moldes da realização pessoal promovidas nas revistas femininas.

Se qualquer característica física ou comportamental sua não for cuidadosamente planejada, queira acreditar que você é um desastre ambulante.

Seu cabelo está no sentido vertical quando você acorda? Dome-o!

As roupas dos seus doze anos de idade não passam mais nos seus quadris? Tome as rédeas da sua vida, mulher!

Aquilo ali na sua coxa é uma celulite, sua gorda preguiçosa?

Beth Ditto (AQUELA LINDA ♥) e eu: ligando sooo much para celuliteZZZzzzZZZzz

Não sabe como erradicar esta praga danosa do seu sistema vital? Venha conosco, temos produtos químicos e procedimentos cirúrgicos invasivos que resolvem todos esses seus pecados! Risco de alergias ou até mesmo óbito? Tem, é claro. Mas antes morrer do que viver com essa barriga, não é? Hm…nem é.

Vendem para nós o conceito de que tudo que fugir das rédeas da padronização corporal estatizada pelo patriarcalismo, deverá ser punido. E cabe a nós essa patrulha.

Não importa a circunstância, você jamais deve ultrapassar sua meta calórica do dia (sim, sua comida não deve ser medida pela sua fome ou pelos benefícios de cada alimento. Seu prato deve ser um amontoado de números). Ultrapassou? Escolha suas alternativas: Morrer de Culpa; Passar Fome Pelo Resto do Dia ; Esgotar o Resto do Dia na Academia ; Bulimia.

Simplesmente vivenciar a vida com o corpo que você possui não é uma opção. Afinal, você não pode ser feliz se for gorda, “assimétrica”, ou indisciplinada.

“Eu sou a favor de cirurgia plástica quando a mulher não se sente bem consigo (porque né, se sentir bem com TODO mundo falando que você é horrível por causa do seu nariz é super fácil!) Só sou a favor se for mesmo muito reta (no quesito seios) ou muito gorda e exercício não resolver (os exercícios já te deixariam saudável, mas “saudável” jamais será bom o bastante, né? e qual é a dos peitos, gente, sério? tamanho e formato de seio determina sucesso na vida?).”

Disciplina na bunda, parte dois. Provando que eu, você, Beth Ditto e todas as outras mulheres somos muito erradas, ok.

Perceba, querida, que ninguém perguntou como vão os níveis de colesterol do seu sangue, ou se aquela sua anemia de infância foi resolvida. Sua saúde só será um argumento somado aos montes de ofensas contra as suas abomináveis únicas e singulares particularidades físicas pessoais.

Pessoas magras também podem ter colesterol alto, anemia, diabetes, falta de ar, e…bom, tudo que uma pessoa gorda pode ter.

Mas ainda assim, ninguém nunca se preocupa em apontar na cara de uma pessoa magra e adequada pra falar que ela vai morrer doente em cima de uma cama. Mas a real é que todxs podemos.

Atividade física e alimentação correta são essenciais sim para o bem estar de forma geral. Porém, ter um corpo são não significa vestir manequim x ou y. Mas não é do interesse midiático passar este tipo de informação. Não importa que você esteja perfeitamente saudável. Importa que você seja magra – na barriga, braços e rosto -, obesa – nos seios, coxas e glúteos, PORÉM, com uma definição muscular digna de um eqüino -.

Disciplina no cabelo. NO CABELO, GENTE.

Não importa se você se sente bem ou mau. Se ganha pouco ou muito. Se tem tempo, prazer ou interesse em suar com os exercícios da revista feminina do mês. Não interessa se você pariu ontem, vá direto para a mesa de lipoescultura se não quiser ouvir repetidamente que famosas saem “ilesas” do pós-parto, ao contrário de você, sua porca. Resumindo: VOCÊ não interessa. Interessa o quanto você vai gastar – e se desgastar – problematizando seu único e melhor veículo para vivência: seu próprio corpo.

Ele é seu. As marcas que carrega são conseqüências da sua história. E se ninguém nunca tivesse apontado para você enumerando o porque isso ou aquilo estão errados, você jamais consideraria ferir a si mesma com fome e procedimentos cirúrgicos para finalmente ser reconhecida como bela para quem só te conhece e julga por fora.

Quer uma rotina que exige muita disciplina e esforço, mas que vai te deixar linda? HÁ!

Mas antes, mais uma dica dos nossos patrocinadores! "Lixe sua pele inteira e comece do zero!"

Exercite sua auto-estima. Olhe-se no espelho e se valorize  – sem emagrecer 7kg antes de poder fazer isso, porra -. Parece clichê, mas ninguém nunca nos ensinou a olhar no espelho com a intenção de admirar, e não brincar de jogo dos “mil” erros.

Preocupe-se com o seu corpo sim. Com a sua capacidade de se defender sozinha, por exemplo. Sabia que existe uma arte marcial focada especialmente nisso, e grupos de mulheres que a ensinam pelo mundo – e país – inteiro? Ou adquirir força o suficiente para trocar um pneu sozinha. Se sua saúde está bem e se seu corpo está bem nutrido. Não se surpreenda se mesmo em perfeita saúde e capacidade física, você não se pareça nada com as garotas dos comerciais de cerveja…

Revide quando alguém te ofender ou subjugar. Abaixar a cabeça nunca fez revolução nenhuma. Reveja os seus conceitos. Muitas vezes somos condicionadas a acreditar em um padrão único de beleza, mas admiramos diferentes características física em outros humanos. Por que não em nós mesmxs?

O que há de realmente tão errado com o seu corpo que precisa ser corrigido de forma tão feroz, se sua saúde está bem? O que há para ser tão culpado e exigido de você, sendo que nada disso atrapalha verdadeiramente o que você é, ou como age?

Não se culpe se mesmo ciente disso tudo, você ainda se sentir mal, cobrada e inadequada. É preciso muito mais força para levantar a cabeça e nos orgulharmos de nós mesmas, de nossa luta, de nossa história e de nossos corpos, do que para seguirmos em fila neste abatedouro alienador de mulheres.
Disciplina? LUGAR DE MULHER É NA REVOLUÇÃO!

Seu corpo é um campo de batalha. A luta de uma, é a luta de todas, e seguiremos unidas.