Toda Mulher Tem Uma História de Horror Para Contar & O Santo Culto da Disciplina Estética. Parte I.

28 fev

Sempre tive a necessidade de discorrer sobre aceitação física, pois quando mais jovem (e ainda hoje) tive muitos problemas com isso. Costumo dizer que no patriarcado, mulher nenhuma tem o direito de se sentir bem consigo mesma.

Primeiro, nos jogam um padrão absolutamente inatingível, e dizem que aquilo deverá ser a prioridade da sua vida, caso contrário nunca será feliz. Depois botam um preço nele, que dificilmente você poderá pagar. E se conseguir, é claro que será chamada de imbecil-fútil. Mas eu já falei sobre isso naquele post, não foi?

E provavelmente falarei mais algumas vezes. Isso porque realmente, para mim, a aceitação física teve um peso grande na construção do meu caráter.

No meio feminista, é comum dizer que “toda mulher tem uma história de horror pra contar”. Uma das minhas piores, inclui uma tentativa de suicídio aos doze anos de idade.

Desde criança, eu nunca fui exatamente bonita. Não que houvesse realmente algo de errado comigo. Eu só não me adequava ao padrão de pequena Miss. Para as demais crianças, era bastante estranha (minha família era religiosa na época, e apesar de desde aquela idade eu já não acreditar em nenhuma baboseira dita nos templos sagrados, o cabelo comprido e cacheado combinado com as roupas folgadas, escolhidas pelos adultos, me renderam uns bons anos de bullying).

Nunca vi graça em ser ultra-feminina. Cresci sendo rotulada de “Maria-macho” por causa das roupas ou do comportamento, e ao longo dos anos, passei de crente-estranha para sapatão-satanista-que-ouve-metal.

Amigxs, namoradxs…quase todxs ao meu redor diziam o tempo todo o que eu deveria ou não deveria fazer comigo mesma. Era “escrachada” demais, boca suja demais, alta demais (era considerado vergonhoso ser mais alta do que todos os meninos da classe), delineada e delicada de menos. Que se fosse mais assim e menos assado seria melhor…

Pra completar, descobri que era traída pela pessoa com quem me relacionava na época.

Entrei numa depressão colossal. Quando estava acordada, só chorava. Mas dormia a maior parte do tempo.

Meu pai e irmã foram as pessoas que mais me apoiaram nesse período.

Minha irmã, a esquerda, e eu, na fase em que era motivo de piadas e chacotas diversas.

Mas nem com o apoio deles foi possível resistir. Em um domingo de fevereiro, aos doze anos de idade, eu me tranquei em um banheiro, com todos os remédios que haviam em casa (inclusive alguns veterinários), uma garrafa de água, e engoli um a um.

Lembro até hoje do som compulsivo do alumínio estralando. Plec, plec, plec. Pílulas de todas as cores e tamanhos. Mais um gole de água. Plec, plec, plec…Não sei quantas foram. Eram mais de trinta, com certeza.

Joguei as embalagens fora. Saí do banheiro.

Subi as escadas e fui me despedir do meu pai. Abracei-o, disse que estava com sono, e que iria deitar no quarto dele. Ele disse que me amava, e perguntou se eu estava bem. Afirmei positivamente com a cabeça.

Deitada, pensava na minha família. Nos meus cachorros. No quanto eu os amava. Repetia mentalmente que não valia a pena viver daquele jeito, e que tinha feito uma boa escolha. Eu nunca seria amada, e ser amada era tudo o que importava. Eu jamais seria bonita. Eu era horrível. Sempre fui, sempre seria. Ninguém nunca vai gostar de mim.

Taquicardia. Sonolência.

Meu pai. Minha irmã. Eu nunca contei para eles, mas foram as pessoas que me ocorreram naquele momento que me fez voltar atrás.

Com as pernas trêmulas e o coração disparado, levantei da cama e procurei o meu pai pela casa.

Ele estava revirando o lixo. Tinha achado as embalagens de alumínio. Quando eu comecei a dizer que tinha feito algo, ele já tinha me pego pela mão, perguntando o que eu estava sentindo, e se agüentaria o trajeto até o hospital.

Minha irmã quis me socar, falando que não me perdoaria.

Meu velho foi comigo até a emergência, fazendo cafuné e falando que eu era linda, que cuidaria de mim.

O médico que me atendeu sentou na beira na minha maca, e conversava comigo, que me esforcei pra responder do melhor modo possível, já que um cano atravessava meu nariz até o meu estômago. Você está grávida? Não. Brigou com o namorado? Não. Foi abusada sexualmente? Não! Quer conversar? Não.

Eu me sentia uma merda. Tinha uma família ótima, uma vida inteira pela frente, era privilegiada de diversas maneiras, e não me sentia digna de respirar, simplesmente porque não era boa o bastante. Não era bonita. Não merecia.

Após algumas horas de lavagem estomacal e soro, recebi alta com um papel que me encaminhava ao psiquiatra, e uma advertência de que provavelmente meu estômago nunca seria o mesmo (minha gastrite e refluxo crônicos estão aí para provar que é verdade).

Confesso que a idéia do suicídio ainda me ocorreu muitas vezes pelo mesmo motivo. Eventualmente, era substituído pelo desejo de enriquecer para realizar infinitas cirurgias plásticas que finalmente me colocariam nos eixos. Antes de dormir, imaginava mentalmente meu corpo sendo modificado pelos procedimentos. Pesquisava sobre isso o dia inteiro. Sabia o custo, procedimento e risco de cada cirurgia, e estava completamente disposta a passar por tudo, pois acreditava em uma recompensa maior.

A brincadeira doentia ensaiada na mente de muitas mulheres: O jogo de somar e diminuir medidas.

Eventualmente, me aprofundei nos estudos feministas, e passei a encarar a questão de forma racional. A compreensão de que o problema não era eu, e sim a opressão patriarcalista, me empoderou, e me permitiu conhecer dezenas de mulheres que se sentiam exatamente da mesma forma. Sempre somos gordas ou magras demais. Nossos seios são muito pequenos, muito grandes, muito separados, muito caídos. Nosso cabelo é ruim (ruim para quem?). Nossa vagina é estranha. Somos ossudas ou nossa distribuição de gordura é “mal localizada”. Nosso cheiro, nossos pêlos, nossos fluídos vaginais, nossa menstruação…tudo é digno de vergonha. É preciso reformar. É preciso disciplinar.

Como não se sentir oprimida? Como vivenciar e experimentar a vida e o mundo, sendo que o seu veículo para isso, o seu corpo, é algo condenável?

Na segunda parte deste post (porque eu sei que não é fácil ficar horas lendo no PC), eu falo sobre disciplina e aceitação corporal.

Obrigada a todxs que lêem!

Comece uma revolução. Pare de odiar o seu corpo!

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13 Respostas to “Toda Mulher Tem Uma História de Horror Para Contar & O Santo Culto da Disciplina Estética. Parte I.”

  1. Jo fevereiro 28, 2011 às 7:55 pm #

    Por isso que eu digo pra nunca desanimar, o problema não é vc e sim as pessoas que julgam. Não vale a pena desperdiçar uma vida enquanto muitas outras sofrem das mesmas coisas, é preciso lutar contra isso, mesmo que seja o mínimo possível, ainda vale a pena.
    te amo mais do que tudo! você era e ainda é linda demais!! ❤

  2. Deborah fevereiro 28, 2011 às 8:02 pm #

    Força sempre, linda ♥

  3. Cely fevereiro 28, 2011 às 9:14 pm #

    To emocionada! Muito lindo o post…muita coragem sua também contar a história do suicídio! E toda vez que você se sentir mal, toda vez que essa pressão gigantesca do patriarcado demente chegar atpe você, lembre-se que eu estou aqui, e vou adorar te dar um longo abraço e dizer o quanto você é LINDA!

    Bjs

  4. Daniela março 1, 2011 às 12:00 am #

    Eu passei por sentimentos iguais aos descritos. Pensei em mil jeitos de me matar, naquela idade… Mas nunca concretizei. Descontava a frustração, a tristeza, em cortes superficiais – mas dolorosos – no interior das coxas (parte do corpo um tanto sexualizada, não?). Tenho marquinhas dos arranhões até hoje, 6 anos depois. E marcas dessa frustração, dessa exigência, também até hoje.

    O incrível é olhar pra foto de vocês duas, novinhas (e hoje também, DIGA-SE DE PASSAGEM), e só vejo duas meninas/mulheres lindas de morrer.
    Vejo fotos minhas aos 11 anos e também vejo como eu era linda também. E olho no espelho percebendo como continuo sendo linda. Às vezes tentando me convencer disso…

    • krasis março 1, 2011 às 2:16 am #

      Eu também possuo cortes daquele período. É um comportamento recorrente para quem passou pelo que passamos. Uma forma de se punir lentamente por ser inadequada.
      Somos lindas sim, e estamos unidas e fortalecidas contra um inimigo em comum, pode ter certeza disso. (:

  5. Ághata março 1, 2011 às 11:20 pm #

    Força, Krasis!!
    Também achei sua foto daquele período linda!

  6. Natacha março 4, 2011 às 1:19 pm #

    Fiquei emocionadíssima com o seu relato… tive que dar uma disfarçada aqui porque estou no trabalho, lagriminha tímida contida. Que bom que você está aqui para contar essa história e que hoje você tem a oportunidade de compartilhar isso com a gente…

    Minha opinião: linda você na foto com a sua irmã, outra linda também. s2

    Beijos @natacha_o

  7. valquiria batista março 6, 2011 às 5:30 am #

    Você está de parabéns!Não a conheço e de certa forma me identifico totalmente com suas palavras.Toda mulher passa ou já passou por isso um dia e eu não fujo a regra!Vamos nos livrar dessas amarras que tanto nos torturam e nos impede de viver com liberdade, respeitar o corpo como ele é e ter amor próprio.
    e vc é linda!

  8. Caroline J. março 15, 2011 às 6:12 pm #

    É, também li no trabalho e tive que conter uma lagriminha.
    Que bom q vc está aqui pra contar tudo isso.
    Eu tbm fui mto triste quando pré/adolescente por causa disso. Era feia, esquisita, não era delicada. Tinha espinhas, cabelo armado, rosto largo. Meu sonho de criança era ser “loira de olhos azuis”. Na adolescência, convivi com bullying diário na escola por ter acne.
    Eu não me achava digna pra nada. Namorar, etc, estava fora de questão, era uma piada. Eu me escondia. Se por acaso alguém parecesse demonstrar algum interesse, achava q estavam caçoando (algumas vezes fizeram isso). Se riam, achava logo q era de mim.
    Depois, quando cresci um pouco mais, meu corpo, de que eu já não gostava mto, tornou-se um inimigo ainda maior. Eu nunca fui uma daquelas jovens bonitas. Nunca tive “aqueles 15 anos, aqueles 18 anos”, em que dizem que a gente tá no auge da beleza juvenil. Nunca “curti a adolescência”. As partes do meu corpo que deveriam ser belas e firmes e joviais, não correspondiam a essa expectativa. Eu já tinha celulite. Não ia na praia, morria de vergonha de botar biquini, ou de mostrar meu corpo em qualquer ocasião – ou seja, relacionamentos tbm estavam vetados. Quando os tive, foi assim, daquele jeito meio distante, com medo de q percebessem o quão imperfeita e não-atraente eu era.
    Fiquei uns anos me esforçando pra perder peso. Contava calorias, anotava na agenda oq tinha comido, e meu peso, diariamente. Tinha compulsão por comida, comia até não aguentar mais. Me arrependia todo dia. Prometia pra mim mesma q nao faria no dia seguinte. Voltava a fazer. Me sentia um fracasso. Eu tentei vomitar poucas vezes, mas era muito ruim. Eu preferia ter anorexia, e não ter interesse por comida, ao invés de ser compulsiva. Não admitia isso pra ninguém. Se muito, comentava qualquer coisa com minha mãe, fingindo indiferença. Não aceitava ajuda para depressão, me sentia humilhada. Negava. Queria apenas q todos se afastassem de mim, queria ignorar que tudo aquilo estivesse acontecendo, queria fugir pra um lugar seguro. Não tinha pra onde, não podia fugir do meu corpo, então simplesmente ficava apática. Às vezes eu chorava, mas às vezes chorar era tão desesperador, pq era admitir q eu realmente nao tinha saída, que eu me poupava disso e simplesmente apagava.
    Eu pensava em morrer, desaparecer, mas nunca considerei essa possibilidade de fato, pq tinha noção do sofrimento que deixaria pra trás, especialmente na minha mãe. Eu já me sentia culpada o suficiente por ser quem eu era, por não ser feliz. O próprio pensamento de causar tamanho sofrimento em quem eu amava já me enchia de culpa.

    Eu passei mto tempo negando meu corpo, meu jeito, meus sentimentos, quem eu era. Deveria ser algo diferente. Eu estava “com defeito”.
    Em algum momento, não faz mto tempo, decidi abraçar esse meu lado renegado. Decidi me tornar inteira. Decidi assumir meu corpo, imperfeito do jeito que era. Vi que com isso, encontrei muitas semelhantes. Admitindo ser eu mesma, vi que não era a única. Vi que não era tão especialmente horrível. Pra minha surpresa, até numa época em que eu realmente me achava horrível, e ainda não gosto de ver em fotos, muita gente me fazia elogios.

    Uma coisa que me ajudou nisso foram… os animais. De repente eu passei a observá-los de um jeito q me fez ver como eles eram satisfeitos consigo mesmos. Eles não se importavam. Eles eram perfeitos e nunca questionavam isso. Eles brincam, dormem, caçam, comem, rolam, pulam, descansam, dormem. Simplesmente são. Não se importam se estão sendo bobos demais enquanto brincam, ou se estão deitados de maneira mto escrachada… sei lá, eu comecei a me inspirar nisto. Pq não posso ser assim, simplesmente ser, ao invés de ficar questionando quem sou? Apenas ser viva, ser meu corpo, ser com prazer, pq não há outra alternativa para estar viva. Não há imperfeição. Isso se aplica a toda natureza.

    Apesar de sempre ter tido tendências feministas, só “descobri” mesmo o feminismo muito recentemente. Tipo, coisa de 1 ano. Aí sim, tudo começou a fazer sentido mesmo…

    (vc é linda pra caralho, e inspiradora. e olhando essa foto sua em q vc diz q era motivo de chacotas, não consigo imaginar pq. vc era linda, eu invejaria vc!)

    • krasis março 15, 2011 às 6:27 pm #

      Mariposeenha! Não tenho como expressar o quanto me identifico com você cada dia mais.
      Esse sentimento de “não se sentir digna”, estar quebrada, não boa o bastante…foi uma constante que eu imaginei nunca me livrar na vida.
      Também me identifico e uso os animais como base para vivência, e com certeza, a partir do momento que me abracei por completo, adquiri muitas companheiras de luta e sentimentos.
      Enfim, não vou conseguir responder como gostaria isto aqui, mas resumo dizendo que você é lindíssima, e que eu te admiro muuuuuuuuuito. Não só por ser linda e foda, mas também porque é incrível em tudo que faz.
      Beijobeijobeijo. ❤

  9. Paula Sposito maio 6, 2011 às 10:19 pm #

    Mexy,
    Sua coragem de contar tudo isso é extremamente altruísta, ao tentar mostrar os efeitos que a opressão da nossa sociedade nos causa, principalmente nas mulheres.
    Seu blog, e todo esse trabalho é digno dos melhores elogios e das maiores gratificações. Você está sendo a voz de muitas e muitas mulheres, se não todas.
    Você é linda por fora. Mas muito mais linda por dentro.
    Continue com essa força e com essa superação maravilhosa, vai ajudar muita gente e essa voz vai crescer, e um dia será a voz de todas as mulheres.

    Você é linda, linda, linda. Não consigo acreditar, ou melhor, entender.

    Beijo!!!

    • Fabiana Gomes julho 9, 2012 às 3:15 am #

      A minha história de horror foi sofrer a inveja da minha mãe e a sabotagem do meu pai. Sim eu pertencia aos padrões e minha família não e por isso fui tratada pior que cachorro. Minha família me rejeitava e quase cometi suicídio por isso. Voltar para casa sempre foi um pesadelo. O mais importante é ter uma família que te ama.

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