Violent Pornography (Can you say “brainwashing”?)

11 fev

“O que nós esquecemos quando falamos de pornografia é que estas não são fantasias criadas do nada, que caíram do céu, essas são fantasias criadas dentro de um mercado tipicamente capitalista. O que você vê na pornografia é uma necessidade para manter isso. Agora, o que aconteceu é que quanto mais os homens estão usando a pornografia, eles são cada vez mais entediados e insensíveis com ela, o que significa que eles querem o material mais e mais violento. E a pornografia, porque é o lucro, tem de satisfazer as suas necessidades. O que é interessante é que pornografia é na verdade uma bagunça porque eles não sabem mais o que fazer, os pornógrafos. Eles foram tão graves e tão cruéis quanto eles podiam. Eles fizeram de tudo com os corpos das mulheres, perto de matá-las. Então a questão é, o que eles podem fazer agora para manter um público cada vez mais insensível interessado?”

DINES, Gail, na entrevista que pode ser conferida aqui:

Quem me conhece pelo twitter, talvez já tenha me visto dizer que a pornografia atingiu um status de inquestionabilidade, e por isso, é um dos temas mais difíceis de serem trabalhados. Quem se posiciona contra só pode ser louco, paranóico, esquizofrênico, frígido ou anti-sexo. Isso ocorre especialmente porque para a sociedade em que vivemos, a pornografia É o sexo. Não há distinção entre o ato sexual de fato e um simulacro do mesmo, ainda que performatizado por seres humanos praticamente inorgânicos ou simples animações em desenhos no estilo anime, como é o caso do Hentai (ainda que a temática seja estupro, incesto, violação de cadáveres, pedofilia…).

Seria lógico considerar impossível debater a sexualidade moderna sem questionar a influência da pornografia, excessivamente reproduzida na mídia ao longo da nossa formação, e não só através dos meios explícitos, mas através da “pornoficação” visual – do gênero feminino em especial – em todos os tipos de propaganda ou expressão artística. É a pornografia quem dita as normas relativas ao comportamento sexual, para todos os gêneros. Para os rapazes, posturas de domínio, agressividade, pedofilia disfarçada por fetiches com moças de expressões físicas infantis, poder fálico, capacidade de inflingir dor e obter prazer simultaneamente. Para as mulheres, submissão extrema, violência física e sexual como estimulantes, ninfomania, e o tradicional “se ela disse não, quer dizer sim / se ela disser que está doendo, é porque está bom”, o gozo é falso, e a ejaculação masculina é objeto de devoção apaixonada. E olha que eu estou me restringindo a velha pornografia heteronormativa. Preciso mencionar as histórias em que lésbicas se “convertem” ao poder do pênis quando são apresentadas a um “macho de verdade”? (*pausa para vômito*) Ou que só se relacionam para impressionar o macho alfa do ambiente, que assiste tudo com aprovação? A pornografia homossexual masculina também desempenha um papel negativo de gênero, com direito a impor os mesmos valores de dominância em toda maldita prática sexual, como uma regra da qual não se pode fugir, sem contar com a violência, ainda muito presente.

É como se o intercurso se tratasse sempre de uma relação de dominador e dominado, e não do trânsito de prazer entre indivíduos. Quem nunca ouviu os conceitos de “quem está por cima domina, deixe-o nessa ou naquela posição, pois homens gostam de se sentir no controle”?

E o mercado do alt-porn? Ah, que beleza! Não tenho mais do que reclamar sobre só existir uma ditadura de corpo na pornografia, certo? Olha só, tem mulheres gordas, magras, tatuadas, modificadas, carecas…e a mensagem é: venha, mulher inadequada! Nós também podemos te objetificar um pouquinho! Tem gosto pra tudo, sabe como é, você tem uma beleza exótica, nós gostamos, fap fap fap. A mensagem da pornografia (alt ou mainstream, caso você não tenha percebido que é tudo a mesma merda), mais uma vez, em mais um ambiente, como em todos, durante toda a nossa vida, é: seja sensual. Seja sexy. Seja dócil e ultrafeminina. Seja sensual sem ser vulgar (eu nunca entendi essa merda, quem souber o que isso significa me conta, por favor). Seja perfeitamente adequada ao que se pede do seu corpo. E claro, se você atingir tudo isso que exigimos, prepare-se: você vai ser oficialmente retratada como uma ameba, que é preferivelmente tida muda e mantida em cativeiro como escrava sexual. É extremamente comum o discurso do homem afirmando coisas desse nível: “eu adoraria ter uma gostosa dessas muda, surda e pelada dentro da minha casa o dia inteiro” porque sabe né, se uma perfeição dessas sair dali, ele vai ser automaticamente acusado de corno, e como lidar com a honra masculina ferida? E caso ela esboce algum pensamento ou sentimento será humana, e como eu já disse no outro post, não, eles não gostam de humanidade.

Dito isso, entro na etapa que mais ansiava discorrer neste post: os modelos que nós, mulheres, seguimos.

Quantas de nós, nossas amigas, mães, irmãs ou namoradas optariam por acordar no outro dia, por um passe de mágica e livre escolha, sendo a presidente do maior país da América latina, – porém, com uma aparência física “condenável” e “vergonhosa” de se possuir para o gênero feminino – versus. Possuir a aparência física da atriz pornô mais “quente” do momento, independente do emprego, situação financeira, QI ou empatia que possuíssemos?

Quantas de nós não nos olhamos no espelho e nos martirizamos, pois com alguns quilos e anos a menos, um silicone aqui, uma lipo acolá, e um megahair nos tornaríamos perfeitamente admiráveis, tanto quanto a última capa da Playboy?

Quantas mulheres já não estranharam, se envergonharam e até mesmo pagaram rios de dinheiros para mutilar seu próprio genital em mesas de cirurgia, pois ele não se parecia em nada com o dos filmes que o seu parceiro assiste? (segundo o famoso Dr. Rey, 90% das vaginas são naturalmente feias. Ele não entende porque “deus” as fez assim, mas garante que consegue te livrar desse tormento por uma quantia módica).

Nosso referencial de valorização é possuir e manter ao longo da eternidade o corpo das Vivid Girls. Claro, possuímos metas pessoais! Muitas querem ser advogadas renomadas, médicas, professoras, sociólogas, cabelereiras, escritoras de sucesso ou até presidentas do maior país da América latina…mas do que vai valer a pena todo esse conhecimento se tudo o que você vai ouvir é “legal que você corre atrás dos seus sonhos, mas precisava se cuidar mais hein? tá começando a aparecer uma ruguinha ali oh…nossa, e essa barriguinha aí? vamos parar de preguiça? a atriz x também teve filhos, e não está acabada assim…a cantora x também tem jornada tripla, mas tem tempo pra correr na orla todos os dias e manter o “corpinho de dar inveja”!”

Ouvimos isso o tempo todo. Nas conversas das ruas, na nossa família, nas revistas femininas, nos programas de TV, e direta ou indiretamente, muitas vezes, dos nossos parceiros (especialmente em relacionamentos heterossexuais).

E como eu já falei ali em cima e todo mundo já sabe, se você realmente fizer tudo o que pedem do seu corpo, você vai ser fútil-burra-superficialblablablá. Enfim, desista, tu nunca vai ganhar esse jogo.

Sabe o que é pior? Te convenceram de que além do seu corpo nunca ser bom o suficiente, ele só serve para atingir as expectativas de terceiros (em especial, você sabe, os homens). Porque você e eu sabemos que independente dos seus seios serem pequenos, caídos, separados, grandes, escuros ou claros: quem vai sentir (ou não) prazer naquela região é você, e a anatomia dos seus seios não tem NADA a ver com isso. O mesmo se aplica para a amamentação, que vai ocorrer naturalmente no seu corpo independente dos seus seios serem pra cima, pra baixo, pros lados…

Se a sua barriga é flácida (ou seja: normal. já que a condição NATURAL de uma barriga feminina humana nunca foi um tanque de pedra), ela continua sendo uma barriga. E servindo a todos os propósitos de uma barriga maior ou menor.

Se a sua vagina é grande, pequena, larga, estreita, pigmentada, peluda ou depilada: acredite, quem vai sentir qualquer coisa naquela região, caso estimulada, é você. E não vai ser o fato dela ter lábios maiores que vai te impedir de sentir prazer.

Não vou nem mencionar estrias ou celulites, que além de não aumentarem nem diminuírem NADA no seu corpo, não tem e nunca vão ter impacto nenhum sobre a sua saúde física ou mental (são só risquinhos, ou furinhos, oh meu deus, que perturbador possuí-los!).

Então porque você se culpa tanto?

Por que você PRECISA tanto entrar naquele manequim?

Por que você tem TANTO medo de descobrirem que não, você não se parece com a capa da última Penthouse quanto tira o jeans que levanta, a cinta que comprime e o sutiã que junta?

Por que seu referencial de beleza pornográfico é a coisa mais essencial (e impossível) de ser atingida antes que você possa se admirar por completo?

E por que mesmo sabendo disso tudo, tanta gente jura de pé junto que o pornô é saudável, necessário e inofensivo?

Pra quem duvida (sei que é o que mais tem), jura de pé junto que isso é censura feminazista, e que sugerir que pornografia é mau (novamente, o pornô é visto como O sexo, e não um simulacro ofensivo) é castrar o prazer: você pode negar o quanto quiser. Acreditar que é inofensivo, e que é impossível viver sem. Você pode até negar os fatos que te incomodam e dormir tranquilo. Mas nunca mais, depois de ler essa merda, finja que você é inocente.

Anúncios

14 Respostas to “Violent Pornography (Can you say “brainwashing”?)”

  1. cely fevereiro 11, 2011 às 5:21 pm #

    Finalmente fez um blog! Quanto mais, melhor, gatona =]

    Acho essencialmente importante denunciar a exaltação do alt-porn enquanto real alternativa, quando na verdade é pornografia das mais status quo com uma embalagem diferentinha! Pior ainda é esse clima de “você, garota gorda/negra/tatuada, também pode servir a gente bem gostoso”, retratando todas essas mulheres de uma forma caricata. Brutalizam o corpo das negras e das gordas, e vendem as mulheres de visual alternativo como alegorias do sexo, verdadeiras palhaças fantasiadas para diversificar a tara do macho.

    Não tenho paciência pra quem defende pornografia, sinceramente! É fácil fácil falar que respeita as mulheres e punhetar pra uma loira siliconada com as mãos amarradas fazendo cara de sofrimento.Não precisamos da consideração de gente assim.

  2. Luh março 25, 2011 às 8:11 am #

    Nossa, muito bom o texto, parabéns! Embora seja a verdade deixa a gente meio que sem esperança por esse mundo hein…
    tem twitter? fica mais fácil de acompanhar…
    thanx

    • krasis março 30, 2011 às 12:22 am #

      Muito obrigada! É ótimo saber que alguém se interessa sem os preconceitos que o “anti-porn” carrega.
      Tenho sim, é @Mexy_
      Vai ser um prazer te ver por lá. o/

  3. Felipe julho 20, 2011 às 6:01 am #

    Nossa, é só a gente pensar no “facial” que a gente percebe o quão a pornografia está moldando a visão de sexualidade das crianças.
    Eu cresci exposto a isso, uso Internet desde que tinha 11 anos e sei o quanto isso afetou minha auto-estima.

    É preciso ter cuidado com este demonho.

  4. PRECIOSA outubro 11, 2011 às 7:35 pm #

    Estou cansada de me sentir mal… Me sentir desvalorizada…Vou a shoppings com meu parceiro e o que percebo? Gays paquerando ele…Onde já se viu? Era pela ordem natural das coisas os homens paquerarem as mulheres…Ou tô ficando doida??? Vou a um restaurante com meu parceiro e percebo a mãe solteira querendo desesperadamente se dar bem…Como se eu a acompanhante não estivesse alí… As insinuações são claras e objetivas…Respeito??? Alguém conhece essa palavra??? O que significa??? Os homens estão adorando esse carnaval… Pornografia??? A coisa está pior do que imaginamos… Tudo está acontecendo ao vivo e em cores, celular…MSN…Nextel… Foda-se quem está do lado, se é criança, idoso… Agora, eu pergunto, o que fazer? Tenho um filho de 4 anos prá criar…

    • krasis outubro 11, 2011 às 8:23 pm #

      Querid@, é normal se sentir desvalorizada nesse mundo, uma vez que vivemos numa sociedade que visa mais os intere$$es do que o social, que privilegia mais homens do que mulheres, que apoia os preconceitos e não ao respeito.
      Sobre o lance de “gays paquerando seu companheiro”, desculpa mas não vejo problema em paqueras, sejam elas de qual orientação sexual for, não irá afetar o seu mundo ou destruir a sua vida. A tal “ordem natural” nunca existiu, se você fala que o fato de “o homem foi criado para mulher e vice-versa”, só é válida aos meios biológicos reprodutivos, mas como sabemos, a humanidade vai além do mero ato de se reproduzir, somos formados por uma construção social e dela surgem diversas ramificações, pensamentos, ideologias, sentimentos, orientações e etc. nós mesmos criamos o que nos faz bem!!…esse papo de “natural” é fraco demais para ser sustentado, pois se levar isso ao pé da letra, estuprar, assassinar, ferir, roubar, destruir também é natural, ou seja, se levarmos tudo ao natural…que começem as chacinas, abaixem o vel ético e moral e adotem o “olho por olho, dente por dente”.
      Sim, concordo que a pornografia tem um papel terrível na sociedade, uma vez que ela toma lugar e assume o papel de educador sexual da sociedade, tomando aquilo como normal e determinista (sexo tem q ser assim!)….por outro lado, objetifica as mulheres e banaliza o sexo ao ponto apenas do prazer objeto, formando partileiras de mercadoria.
      Bem, você cuida do seu filho do jeito que achar melhor, mas te digo uma coisa, sem a intenção de dar pitaco, deixe-o viver em plena liberdade de escolha…seja lá o que for.

  5. Lucas julho 7, 2012 às 5:17 pm #

    Achei mto interessante o site mostrando o outro lado do cinema pornô, realmente nunca tinha parado pra pensar.
    Sobre o Dr. Rey, acho ele mto radical em relação às cirurgias plásticas, mas é a profissão dele, ele acaba entrando no sistema e divulgando só o que é bom pra ele.
    Em relação auto-estima, considero que as mulheres sofram mais com isso, mas hoje tb temos a questão do metrossexual no lado masculino, a necessidade de se depilar e evitar o estigma Tony Ramos, o que eu acho ridículo.Além do sempre presente fato do tamanho do pênis.
    Mas não condeno a pornografia, pois numa sociedade onde o sexo ainda é tabu e cada vez mais religiosa, sendo a camisinha um mal na visão da Igreja, acho válido assistir filmes e gosar com eles.
    Pois é notório que eu nunca terei um corpo malhado (e nem quero) ou um pênis enorme, pois no fim cada um tem seu corpo e o importante é se divertir com ele.

    nota:não incentive somente as neuroses do seu público leitor … veja o lado bom das coisas tb e aprende com as ruíns.

    Abçs.

  6. nelson agosto 22, 2013 às 10:19 pm #

    Muito bom este artigo! Apresenta pontos interessantes para a reflexão! Gostaria de contribuir com os argumentos citando o trabalho do José Ângelo Gaiarsa que ressalta o papel revolucionário que a mulher pode ter no processo necessário e cada vez mais evidente que é a educação de homens e mulheres através da educação de suas filhas e filhos. Muito interessante essa posição do Gaiarsa. E penso também que não só as mulheres mas também os homens devem e precisam repensar a sua função educativa junto aos seus rebentos (sejam filhos, sobrinhos, enteados, etc.). Enfim, a educação que, em última análise, se dá na transmissão de valores de uma geração para outra, precisa ser repensada rapidamente ou não teremos oportunidade de construirmos uma sociedade em que homens se mulheres possam conviver como iguais usufruindo e explorando, para o contínuo crescimento de ambos, as suas diferenças intrínsecas.

  7. Augusto Santos agosto 23, 2013 às 6:39 pm #

    Olá,

    Para os homens, os filmes mostram que se você não tiver um pênis gigantesco, não conseguirá satisfazer uma mulher. Isso preocupa uma grande maioria dos garotos e causa alguns complexos momentâneos… mas vão sumindo conforme são adquiridas as experiências REAIS da vida. Tenho certeza que isso acontece em um grau muito maior com as mulheres, não só pela pornografia, mas sim por toda indústria do entretenimento que preza pela perfeição do externo e preserva o pensamento machista secular.

    Desde moleque, eu sempre me interessei por pornografia… no início pelas revistas do meu pai que encontrava escondidas num baú na casa dele. Depois com as fitas de vídeo e posteriormente com a internet. Independente disso, sempre tive bom senso em separar certas “fantasias” da realidade… Também SEMPRE respeitei toda e qualquer companheira com que fiquei. A pornografia não me tornou um crápula, e nem o Kama Sutra, que li quando era mais novo.

    Você está enxergando a pornografia apenas por um lado.

    Pornografia é fantasia, fetiche… E as fantasias são exatamente o que são, cada um tem a sua independente da educação que foi plantada pela sociedade – a proibição por proibição, seja por lei ou por algum bloqueio pessoal, não vai ajudar em nada no autoconhecimento que é essencial para todos.

    Existe uma indústria cheia de problemas? Com certeza! Como qualquer outra indústria.

    Muitas mulheres gostam de ser dominadas por uma fantasia pessoal, estar com dois homens, serem amarradas, etc. Eu sei disso porque conheço muitas mulheres assim e pra ser sincero, EU tenho uma preferência por ser dominado por mulheres, ser amarrado, velas quentes e tudo mais – não me sinto usado quando faço isso e sei que é um prazer mútuo.

    É bizarro pra você? Imagino que sim, mas as pessoas são diferentes e cada cabeça funciona de uma forma. Cumprindo sua “Verdadeira Vontade” e não ultrapassando o LIMITE DO PRÓXIMO, pra mim, é a única regra.

    Qualquer coisa que incentive a falta de respeito ao próximo é detestável, seja num filme (específico, veja bem), numa piada (específica, veja bem) ou na vida real.

    Esse assunto me lembra da culpa que recai sobre os games da violência das crianças.

    Como o caso da pornografia, não é apenas uma defesa de interesses de minha parte “eu quero continuar jogando, fodam-se os argumentos”. Não existe uma banalização da violência por parte dos games, como não existe por parte da pornografia – quem não consegue enxergar a diferença entre fantasia/realidade está fadado a cometer erros (com ou sem a ajuda da indústria do entretenimento) até aprender que a vida não funciona dessa forma.

    Peço por favor que encare meu comentário sem fanatismos e de mente aberta, existem muitos lados a serem abordados e constatados – o importante pra esse (e diversos outros assuntos) é o autoconhecimento, agindo verdadeiramente de acordo com sua essência… como disse o leitor Lucas, por favor não incentive a neurose ao invés da mente aberta.

    Abraços a todos.

    • krasis agosto 23, 2013 às 7:54 pm #

      Acho um pouco complicado colocar esse tipo de comparação do “games da violência das crianças”, pois são assuntos diferentes, situações diferentes e construções diferentes.

      O que é discutido no post é sobre como a Pornografia afeta em nossa construção social e sobre nossas relações afetivas com parceirxs. Uma lavagem cerebral que molda o status quo do patriarcado e faz com que não percebamos a amplitude disso, como vc mesmo diz que desde pequeno já consumia pornografia mas que isso “aparentemente” não o afetou.
      O que lhe garante essa certeza?
      O que lhe garante essa normalidade?
      Nós somos afetados por tudo que aprendemos desde pequenos, isso é parte de nossa construção social que caminha conosco até o fim da vida. Todas nossxs desejos podem ser expostos em um ato sexual justamente pela construção que tivemos ao consumir pornografia em algum momento da vida.
      Você já se perguntou de onde vem aquele desejo ao ver uma mulher esteticamente ideal em uma revista? Ou dos seus fetiches? sua vontades? suas fantasias?
      A industria pornô tem como papel principal a doutrinação de padrões sexuais, que agem como formador na construção de um indivíduo, o que nos faz pensar que a inocente “Fantasia” surge de alguma essência humana, o que é uma grande falácia.
      Mas claro que temos desejos e fantasias, somos seres dotados de farta imaginação, mas devemos desconstruir o que nos é enraizado pelo patriarcado e capitalismo, que nos transforma em objetos de puro consumo, apenas isso. Pois eu não vejo como normal a cobrança gigantesca que fazem com mulheres todos os dias sobre seu corpo, sua aparência, suas roupas, seu modo de falar/agir, seu modo de trepar e etc.

      Acho que vc enxergou o post com um escopo só ao dizer que “Você está enxergando a pornografia apenas por um lado.”
      Pois dá para se ampliar diversas discussões inseridas nele, como por exemplo: Estética da beleza, corpo, violência contra mulher, consumismo, patriarcado, capitalismo, slut shamming, estupro… e etc

      • Augusto Santos agosto 23, 2013 às 10:42 pm #

        Olá krasis,

        Na verdade, essa discussão pode ser ampliada pra uma porção de coisas.

        A proposta da pornografia é sim a “fantasia e o fetiche”…a necessidade de deixar a mulher parecida com um boneco é um mal do entretenimento de modo geral… seja na inocente revista infantil que deixa as princesas Disney peitudas, ou no programa do Faustão…

        Uma pergunta: E em relação aos vídeos caseiros que fazem bastante sucesso na internet? Aonde vemos um casal real transando, sem dominação/humilhação do homem ou da mulher… apenas o ato sexual, qual seria o problema social e de influência negativa para a pessoa?

        Você enxergou sim a pornografia por um lado apenas, pelo lado negativo. Isso é uma indústria complexa… assim como não existe somente Hollywood, ou cinema independente. O cinema amador também faz parte da indústria

        Sobre a pornografia na minha vida, depois que assistia um filme, via uma revista ou algo do tipo… eu continuava minha vida, relacionava com pessoas reais, trabalhava, etc. Sabia que aquilo era um exercício de fantasia. Nunca tive tendências à violência contra a mulher, se por um acaso eu visse um filme horrível sobre estupro, isso não me faria ou influenciaria a cometer tais atos…e é aí que se encaixam os GAMES e outros assuntos semelhantes.

        Vejo filmes com minha esposa (não por imposição minha, como você deve pré conceber) e ambos somos bem resolvidos, seja sexualmente como psicologicamente (pelo menos nesse assunto)… como você poderia afirmar que não somos, apenas baseado em sua conclusão / teoria? Me parece que você está querendo criar uma regra em algo que envolve o psicológico do ser humano.. que me desculpe, mas não é tão preto & branco do tipo: “você assiste pornografia, você é escroto e nem sabe”

        Somos, sem dúvida, afetados por tudo que recebemos em nossa vida, desde a infância… mas existe o bom senso e o AUTOCONHECIMENTO que nos faz soltar dessas amarras e procurar quem somos de verdade.

        Cresci com piadas machistas, com o pensamento estúpido de que “mulher não sabe dirigir” e mais um monte de coisas… foi só raciocinar um pouco pra ver que as coisas não são assim. Nós não somos apenas um amontoado de influência externa, existe algo maior e original… falo por mim, pela minha esposa e uma meia dúzia que convivo.

        Se ainda assim, prefere acreditar que sou “cego” de não ver a influência negativa da sociedade / pornografia em TODOS.. sinto muito, mas essa discussão será tão inútil quanto argumentar os direitos dos homossexuais com o Silas Malafaia.

        Grande abraço.

      • krasis agosto 23, 2013 às 11:26 pm #

        Pelo visto acho que você nao entendeu nem a resposta e muito menos o post, mas vamos lá.

        Vou utilizar de uma fonte externa e anônima pra responder isso, que talvez sanaria suas indagações. (aliás, eu nao pré-julguei nada ou supôs que vc faz X ou Y, pouco me importa oq vc faz na real.)

        “bem, queria começar alertando que esse não é um texto contra o sexo, talvez seja um texto contra um sexo esteriotipado, fixo, normativo e normalizante. acredito que a pornografia tem papel essencial na normatização de nossos desejos, penso que, tanto quanto uma novela, um filme qualquer, ela não é isenta de ideologia e mostra um sexo permeado por noções de hierarquia, dominação, consumo. muitas pessoas já me fizeram a pergunta: “mas de que pornografia você está falando?” e minha resposta normalmente é “da pornografia tradicional…” mas hoje minha resposta é diferente: “que tipo de pornografia você pensa que foge (e que realmente foge, ok?) desse modelo?” . eu acredito que há poucas, e realmente queria conhecê-las, porque até hoje não tive contato com elas…

        Querendo determinar melhor o que chamo de pornografia, vou incluir sob esse nome aquelas representações do sexo que partem de, ou geram, uma relação comercial; ou seja, aquele vídeo que você filmou com seu/sua parceir* não serve aqui, ok? talvez essa representação do sexo seja melhor, mais próxima da realidade, mais apelativa pra mim (e pra quem mais sente-se sub-representada pela pornografia tradicional), porém ela não está dentro do que eu chamaria “pornografia”; isso porque acredito que a lógica com a qual a pornografia funciona é uma lógica capitalista, por excelência, ou se não, uma que reforça e corrobora o ciclo de dominação do capital. é bom lembrar que em nossa sociedade ocidental e capitalista, os corpos femininos – como fonte do trabalho exclusivamente feminino de produção/manutenção de mão de obra – são alienados (assim como o trabalho de um operário, na terminologia de marx); as mulheres não só não tem o poder sobre seus corpos – que é delegado aos homens – como também são elas mesmas moeda para troca entre eles. não tendo controle sobre seus corpos a sexualidade feminina passa a ser vista em função do prazer masculino e parece que é justamente isso que a pornografia reforça;

        voltando então para o meu problema com a pornografia: um dos principais problemas é a faceta “educadora” da pornografia; muitas pessoas, muitas feministas, inclusive, elogiam essa face da pornografia, mas eu acredito que ela é particularmente problemática. sendo uma das poucas formas de termos acesso ao que é sexo, como funciona, etc (pra muitas pessoas é a única fonte de informação), a pornografia conforma o sexo real no que eu chamaria de “forma tradicional de se fazer/entender o sexo”. é uma forma não só estereotipada, mas hierárquica, onde o prazer feminino é representado de uma forma muito complicada: a mulher “goza” de um jeito estranho (na verdade seria melhor dizer apenas que ela geme) a maior parte do tempo, sem muitas preliminares, sem muitos cuidados; é bom lembrar que cada filme é cuidadosamente feito e só as partes “interessantes”, para aquele que compra, é que são mostradas, isso significa que a maior parte do filme estará centrada na penetração; mostrar a penetração cruamente, com closes e etc, não é esse o problema aqui, o problema é que o filme mostra que é tudo bem simples, é “chegar chegando”, sem cuidados com lubrificação, nem nada.

        vendo um filme desses bem idiotas, de sessão da tarde, chamado “porn n´chicken” achei um bom exemplo do que quero dizer: entrevistando uma atriz pornô *s protagonistas do filme (que, aliás pensam estar fundando um movimento revolucionário, por montarem um grupo de pessoas que assistem pornografia e comem frango frito as quintas a noite) perguntam se ela gosta/se orgulha de seu trabalho e ela diz que é uma felicidade dar dicas de como obter mais prazer, ou de como fazer um sexo mais seguro, etc. e dá um exemplo de suas dicas: “nunca usem lubrificante, apenas cuspe!” – é claro que o exemplo aqui é bem forçado, porque faz parte do tom irônico do filme, mas é assim que aparentemente funciona. a pornografia ensina o quê e para quem? essas são perguntas importantíssimas. porque parece que ela ensina coisas que para mim se enquadram ainda na mentalidade de sexo para o prazer masculino única e exclusivamente, porque a mulher que goza o tempo inteiro, porque para o homem é excitante ouvir seus gemidos – sejam eles de dor ou de prazer.
        voltando ao outro problema central que é a questão do capital:a indústria da pornografia está preocupada não em promover bem-estar, em educar melhor as pessoas para o sexo, ou qualquer outra dessas coisas. ela está preocupada com o que vende e o que não vende. e, como na indústria cinematográfica, o que vende é o que está devidamente conformado às formas tradicionais de pensar e agir; é o que faz relaxar, entretem, diverte e promove um relativo esquecimento dos problemas e pressões da vida. assim é com o filme pornográfico;

        A pornografia não representa uma quebra com os valores tradicionais. apesar de muit*s acharem que a simples representação do sexo já é revolucionária, é bom lembrar que sexo é quase um supra-tema em nossa sociedade. não é a simples explicitação do sexo que poderia tornar a pornografia revolucionária, senão a novela da globo seria de esquerda (hehehe). precisa muito mais pra ser tida como revolucionária: precisa pelo menos ser uma representação que desmanche as marcações de gênero fortemente delimitadas… tem que ser pelo menos uma representação que questione os papéis de gênero, ou as próprias categorias, ou as práticas tradicionais. ou que pelo menos tenha corpos não inseridos no padrão de beleza sacramentado. se bem que isso também é complicado; acho problemático a forma que corpos totalmente fora do padrão são sexualizados, tidos como “bizarros”, passam a fazer parte de um desejo estranho; ou como mulheres consideradas fora do padrão são ultra-sexualizadas e isso se torna mais um lugar de opressão; estou pensando aqui em como os meninos de classe média costumam iniciar-se sexualmente com suas empregadas, que eles mesmos consideram feias (porque não-brancas, porque não-magras, poque não-louras) mas como que numa herança do escravismo, servem para saciar-lhes o desejo.

        Não consigo ver a pornografia como desligada das formas tradicionais muito arraigadas de ver/pensar/fazer sexo. gostaria de poder dizer que a pornografia funciona como transformadora dessa realidade, mas, ao contrário, vejo ela funcionando como mantenedora das estruturas de dominação capitalistas e masculinistas sobre as mulheres.”

        Também deixo uma ressalva com essa onda de vídeos caseiros postados pela internet. Se eles forem de alguma maneira, para contestar e ir contra toda industria da pornografia, tudo ótimo, mas se for para meramente reproduzir o que filmes pornos fazem (que tem o homem como protagonista herói e a mulher como submissa do prazer) aí é um tiro no pé. Já vi muitos casos desses vídeos que homens soltam pela internet e a repercussão caem 99% em cima da mulher, como sendo a vagabunda, safada e puta que deixou ser filmada. E claro, o homem como herói de tal proeza.
        Temos que tomar cuidado com essas coisas, imaginando que estamos indo contra o capital e patriarcado, mas fazendo justamente o que ele implantou em nossas cabeças com sua lavagem cerebral.

      • krasis agosto 23, 2013 às 11:49 pm #

        e para complementar mais ainda a discussão, deixo aqui mais dois textos ótimos!

        http://aqueladeborah.wordpress.com/2012/11/10/esta-ouvindo-os-gemidos-sao-da-engrenagem/

        http://whothehelliscely.wordpress.com/2009/08/06/o-meu-brainstorm-da-pornografia/

Trackbacks/Pingbacks

  1. A violência e a pornografia | O PORNÓGRAFO - agosto 27, 2013

    […] Este assunto me tem feito pensar nos últimos dias/meses. E aqui vai um interessante artigo neste sentido, que nos faz repensar um pouco esta pornografia tão evidente na nossa internet. O link para o artigo completo, aqui: […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: