Misogyny is the new black(“lash”).

2 fev

Uma coisa que me perturba é essa onda massiva de adesão aos clubinhos masculinos virtuais.

No dia a dia, a maioria dos homens se declara bem-resolvida, a favor da independência feminina, “eu não sou machista tenho mãe, mulher e esposa” BLABLABLÁ.

Porém, é notório que a nova onda (mentira, não é nova coisa nenhuma, mas convenhamos que anda bem explícito) é esse backlash machista caricato.

Sem meias palavras, o orgulho misógino grita os clichês de todos os séculos que já passaram. “Lugar de mulher é na cozinha!” “Só presta se for gostosa!” “Meu negócio é buceta” (…é, buceta, e não mulher, já que qualquer traço de humanidade encontrado em uma fêmea humana será repudiado). E tudo isso é muito bacana, muito cool, muito saudável. Afinal, você que é uma puritana sem senso de humor. Incitar o ódio, a violência e a objetificação da classe que é oprimida a séculos não passa de uma brincadeira, uma piadinha inocente. Inocente? Sério?

E todas as mulheres assassinadas, estupradas e espancadas diariamente? E a secretária, que serve cafézinho na reunião de engravatados, como uma dona de casa disciplinada? E a empregada doméstica, que limpa sua privada? Todas exclusivamente mulheres. Todas ganhando menos que você, homem branco, de classe média, cristão, cidadão de bem e pagador de impostos.

Mas são apenas piadinhas, ora essa! Afirmar que lugar de mulher é servindo seu macho na área da copa é inofensivo. Ainda que de fato, algumas – e não são poucas – mulheres sejam espancadas porque a refeição que ela preparou para o seu dono não está boa o suficiente. Criar posts intitulados “sexta-feira de gostosas”, ilustrados pela exuberância plástica do ideal de beleza obrigatório, todas as semanas, por anos, reafirmando com punhos em riste qual padrão físico deve se encaixar a portadora de uma vagina, e qual são as posições que se permitem a ela ocupar na sociedade (inumano, inorgânico, para simples apreciação da horda fálica) não tem nada demais. Ainda que mulheres venham a óbito em mesas de cirurgia , ou por fome para atingir tais padrões. Ainda que percam horas se mutilando, se condenando e sofrendo por não serem a Miss que se espera delas. Por serem apenas humanas, com vontades, questionamentos e sentimentos. Porque sim, meu caro amigo, por mais que vocês odeiem profundamente, mulheres, todas elas, pensam e sentem. Sim, elas são humanas!

O buraco fica mais baixo ainda quando somos surpreendidas com outra constatação mais chocante ainda. Leitoras do sexo feminino, demonstrando seu mais profundo apóio a quem as chama de receptáculos imbecis de sêmen. Tiram fotos sensuais com frases ou símbolos que remetem aos blogs e portais misóginos, e enviando-as como forma de apóio de forma quase partidária. Com isto, levanta-se o mais alto que se pode a bandeira do “é tudo uma grande brincadeira, quem se importar com isso só pode ser um louco histérico, até as próprias mulheres apóiam!”.

Tal fenômeno chega a contar até mesmo com colunistas ou videologgers possuidoras de cromossomos XX que inflam a caixa toráxica para declararem-se machistas orgulhosas, que o feminismo é uma piada ultrapassada, e que brincar com a violência doméstica é ok.

Culpar estas mulheres pelo problema é ingenuidade. É como culpar os negros pelo racismo ou os homossexuais pela homofobia. Um indivíduo do gênero feminino que recusa afirmar-se como humano, possuidor de direitos e que deve ser levado a sério tanto quanto qualquer um, sofreu uma lavagem cerebral tão grande que se sente nesta obrigação. Todas nos sentimos afinal, em menor ou maior grau, obrigadas a sermos aceitas pelo público masculino, detentor da capacidade de nos aprovar ou desaprovar de acordo com seus próprios critérios imbecis e irreais. Foi isso que a família, a mídia, a televisão, as revistas de beleza, os vínculos empregatícios e os nossos relacionamentos nos ensinaram. E é só isso que estas mulheres buscam. Atingir tudo que se pede a elas: docilidade, beleza ultra-sensual/feminilizada e a capacidade de concordar com qualquer absurdo que seja dito a elas, pois não são uma classe, e não há uma luta a ser lutada, tudo isso já foi superado.

O jogo já está ganho para as mulheres. Agora fique quietinha, faça um regime, compre este sutiã que “valoriza” os seios e volte para o seu lugar, sua histérica.

Adendo!

Depois de escrever este primeiro texto, ainda sem a certeza de publicá-lo ou não, me deparei, não pela primeira vez, porém nesta prestando a devida atenção, com uma review do livro Female Chaunvinst Pigs, da Ariel Levy. Para resumir nas palavras da autora: “If Male Chauvinist Pigs were men who regarded women as pieces of meat, we would outdo them and be Female Chauvinist Pigs: women who make sex objects of other women and of ourselves.”

Numa tradução livre e ruinzinha: “Se Porcos Chauvinistas Machos eram homens que tratavam mulheres como pedaços de carne, nós os ultrapassaríamos e seríamos Porcos Chauvinistas Fêmeas: mulheres que transformam a si e a outras mulheres em objetos sexuais”.

Pois é, chata da Ariel, falou tudo o que eu tentei dizer, com palavras melhores (just kidding! Adorei a proposta e vou comprar o meu exemplar segunda-feira, talvez vejamos um review meu do livro em breve).

Anúncios

2 Respostas to “Misogyny is the new black(“lash”).”

  1. Caroline J. fevereiro 10, 2011 às 2:22 pm #

    Algumas coisas passaram pela minha mente enquanto eu lia esse post.

    Tipo #lingerieday e “90% das vaginas não são bonitas” do nosso querido Dr. Ray.

    Às vezes eu me acho uma chata. Amigos meus, gente q sigo no twitter etc e ocasionalmente (ou frequentemente) posta uma foto de uma gostosa, ou fala de peitos e bunda, ou qualquer porcaria assim, e eu sinto um arrepio na espinha e uma vontade de dar uma de feminista histérica e falar, porra, qual seu problema? E automaticamente eu ouço a voz contrária na minha cabeça, imaginária mas presente: pára de ser uma feminista histérica, todos vão te achar um saco. Q se não quiser olhar, não olha, dá unfollow. Clichês de justificativas: “homem gosta disso, que mal há em apreciar o q é bonito?” Como se eu fosse uma exagerada por me incomodar com essas coisas.
    Mas algo ainda me diz q não é exagero. O mundo é maluco mesmo.
    Essas coisas “pequenas”, como ficar babando em suicide girls, ou tirar foto de lingerie, ou postar foto de uma gostosa peituda, são fatias da coisa maior. Não faz sentido deixar isso passar batido e só se preocupar com o “problema maior”. Não existe diferença entre eles.

    Faz a gente se sentir meio impotente. Todo mundo vai rir e falar pra não encher o saco, não exagerar, q isso é coisa de mal comida, feminazi etc. Mas aí acho que no final das contas não me importo em ser vista assim. Melhor que ser conivente.

  2. bruna fevereiro 10, 2011 às 4:34 pm #

    Ótimo post, gata. E sobre a necessidade de agradar o homem, isso é infiltrado em nossa cabeça desde pequenas, aí crescemos achando que só seremos boas o bastante se os homens assim nos acharem. Me descobrir lésbica foi ótimo em relação a isso, também, porque eu percebi que não sou só um corpo e que se os homens me acharem sexy ou não, pra mim não fará a menor diferença. Abaixo a qualquer tipo de ditadura!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: