Archive | fevereiro, 2011

Toda Mulher Tem Uma História de Horror Para Contar & O Santo Culto da Disciplina Estética. Parte I.

28 fev

Sempre tive a necessidade de discorrer sobre aceitação física, pois quando mais jovem (e ainda hoje) tive muitos problemas com isso. Costumo dizer que no patriarcado, mulher nenhuma tem o direito de se sentir bem consigo mesma.

Primeiro, nos jogam um padrão absolutamente inatingível, e dizem que aquilo deverá ser a prioridade da sua vida, caso contrário nunca será feliz. Depois botam um preço nele, que dificilmente você poderá pagar. E se conseguir, é claro que será chamada de imbecil-fútil. Mas eu já falei sobre isso naquele post, não foi?

E provavelmente falarei mais algumas vezes. Isso porque realmente, para mim, a aceitação física teve um peso grande na construção do meu caráter.

No meio feminista, é comum dizer que “toda mulher tem uma história de horror pra contar”. Uma das minhas piores, inclui uma tentativa de suicídio aos doze anos de idade.

Desde criança, eu nunca fui exatamente bonita. Não que houvesse realmente algo de errado comigo. Eu só não me adequava ao padrão de pequena Miss. Para as demais crianças, era bastante estranha (minha família era religiosa na época, e apesar de desde aquela idade eu já não acreditar em nenhuma baboseira dita nos templos sagrados, o cabelo comprido e cacheado combinado com as roupas folgadas, escolhidas pelos adultos, me renderam uns bons anos de bullying).

Nunca vi graça em ser ultra-feminina. Cresci sendo rotulada de “Maria-macho” por causa das roupas ou do comportamento, e ao longo dos anos, passei de crente-estranha para sapatão-satanista-que-ouve-metal.

Amigxs, namoradxs…quase todxs ao meu redor diziam o tempo todo o que eu deveria ou não deveria fazer comigo mesma. Era “escrachada” demais, boca suja demais, alta demais (era considerado vergonhoso ser mais alta do que todos os meninos da classe), delineada e delicada de menos. Que se fosse mais assim e menos assado seria melhor…

Pra completar, descobri que era traída pela pessoa com quem me relacionava na época.

Entrei numa depressão colossal. Quando estava acordada, só chorava. Mas dormia a maior parte do tempo.

Meu pai e irmã foram as pessoas que mais me apoiaram nesse período.

Minha irmã, a esquerda, e eu, na fase em que era motivo de piadas e chacotas diversas.

Mas nem com o apoio deles foi possível resistir. Em um domingo de fevereiro, aos doze anos de idade, eu me tranquei em um banheiro, com todos os remédios que haviam em casa (inclusive alguns veterinários), uma garrafa de água, e engoli um a um.

Lembro até hoje do som compulsivo do alumínio estralando. Plec, plec, plec. Pílulas de todas as cores e tamanhos. Mais um gole de água. Plec, plec, plec…Não sei quantas foram. Eram mais de trinta, com certeza.

Joguei as embalagens fora. Saí do banheiro.

Subi as escadas e fui me despedir do meu pai. Abracei-o, disse que estava com sono, e que iria deitar no quarto dele. Ele disse que me amava, e perguntou se eu estava bem. Afirmei positivamente com a cabeça.

Deitada, pensava na minha família. Nos meus cachorros. No quanto eu os amava. Repetia mentalmente que não valia a pena viver daquele jeito, e que tinha feito uma boa escolha. Eu nunca seria amada, e ser amada era tudo o que importava. Eu jamais seria bonita. Eu era horrível. Sempre fui, sempre seria. Ninguém nunca vai gostar de mim.

Taquicardia. Sonolência.

Meu pai. Minha irmã. Eu nunca contei para eles, mas foram as pessoas que me ocorreram naquele momento que me fez voltar atrás.

Com as pernas trêmulas e o coração disparado, levantei da cama e procurei o meu pai pela casa.

Ele estava revirando o lixo. Tinha achado as embalagens de alumínio. Quando eu comecei a dizer que tinha feito algo, ele já tinha me pego pela mão, perguntando o que eu estava sentindo, e se agüentaria o trajeto até o hospital.

Minha irmã quis me socar, falando que não me perdoaria.

Meu velho foi comigo até a emergência, fazendo cafuné e falando que eu era linda, que cuidaria de mim.

O médico que me atendeu sentou na beira na minha maca, e conversava comigo, que me esforcei pra responder do melhor modo possível, já que um cano atravessava meu nariz até o meu estômago. Você está grávida? Não. Brigou com o namorado? Não. Foi abusada sexualmente? Não! Quer conversar? Não.

Eu me sentia uma merda. Tinha uma família ótima, uma vida inteira pela frente, era privilegiada de diversas maneiras, e não me sentia digna de respirar, simplesmente porque não era boa o bastante. Não era bonita. Não merecia.

Após algumas horas de lavagem estomacal e soro, recebi alta com um papel que me encaminhava ao psiquiatra, e uma advertência de que provavelmente meu estômago nunca seria o mesmo (minha gastrite e refluxo crônicos estão aí para provar que é verdade).

Confesso que a idéia do suicídio ainda me ocorreu muitas vezes pelo mesmo motivo. Eventualmente, era substituído pelo desejo de enriquecer para realizar infinitas cirurgias plásticas que finalmente me colocariam nos eixos. Antes de dormir, imaginava mentalmente meu corpo sendo modificado pelos procedimentos. Pesquisava sobre isso o dia inteiro. Sabia o custo, procedimento e risco de cada cirurgia, e estava completamente disposta a passar por tudo, pois acreditava em uma recompensa maior.

A brincadeira doentia ensaiada na mente de muitas mulheres: O jogo de somar e diminuir medidas.

Eventualmente, me aprofundei nos estudos feministas, e passei a encarar a questão de forma racional. A compreensão de que o problema não era eu, e sim a opressão patriarcalista, me empoderou, e me permitiu conhecer dezenas de mulheres que se sentiam exatamente da mesma forma. Sempre somos gordas ou magras demais. Nossos seios são muito pequenos, muito grandes, muito separados, muito caídos. Nosso cabelo é ruim (ruim para quem?). Nossa vagina é estranha. Somos ossudas ou nossa distribuição de gordura é “mal localizada”. Nosso cheiro, nossos pêlos, nossos fluídos vaginais, nossa menstruação…tudo é digno de vergonha. É preciso reformar. É preciso disciplinar.

Como não se sentir oprimida? Como vivenciar e experimentar a vida e o mundo, sendo que o seu veículo para isso, o seu corpo, é algo condenável?

Na segunda parte deste post (porque eu sei que não é fácil ficar horas lendo no PC), eu falo sobre disciplina e aceitação corporal.

Obrigada a todxs que lêem!

Comece uma revolução. Pare de odiar o seu corpo!

Besouro Verde, absurdos que a gente assiste, lê e vive.

24 fev
Hoje foi um dia difícil, como os dias são às vezes, especialmente nas últimas semanas (por diversos motivos pessoais). Meu nível de stress estava nas alturas, minha imunidade foi pra manga, fiquei doente e minha vontade de escrever tinha sumido completamente, junto com a vontade de viver, acordar, etc.

Já que o fluxo no meu serviço estava tranquilo, resolvi ler para passar o tempo. E como acontece com certa frequência na minha vida, trombei com dois textos de dar arrepios. (aqui e aqui)

Um separa as mulheres entre putas, putas interesseiras, velhas-ressecadas, infanto-fetiches e etc. de forma a ajudar você, homem, a escolher qual a mais adequada, no melhor estilo self-service.

O outro, é uma carta escrita por uma mulher de bem, defensora da Família, Tradição & Propriedade, que culpa o feminismo pelo extermínio de tudo que há de bom no mundo, em especial o fim (?!) da família nuclear, uma geração de mulheres infelizes e mau-trepadas e “BLABLABLÁ os homens é que são vítimas, pobres deles, suas feminazis cruéis, por isso que eu sou feliz com meu marido, ahá” (sim, lésbicas do meu Brasil, a autora não sabe nem que vocês existem.  A única saída para a felicidade é viver realizando e defendendo um macho. E se ele te espancar, acredite que não tem nada a ver com o fato de você ter uma vagina).

Lembrem-se: admirar sempre! Questionar nunca!

Ambos recebendo cotas (absurdas) de aprovação entre o público leitor.

Você já deve ter concluído que meu dia estava foda de aguentar. E estava, deveras. Difícil também estava o dia do meu companheiro, que em outro canto da cidade, era sobrecarregado durante o seu expediente.

Normalmente, ele e eu saímos do serviço e vamos pra a academia -descarregar um pouco do ódio- para não perder totalmente o nosso ritmo de ex-alunos-de-kung-fu (ele, uma mistura doida de Punhos do Norte + Jeet Kune Do, eu, Wing Chun), já que não é mais possível treinar devido ao nosso confinamento em escritórios por 9 horas diárias (sem contar as horas no transporte público).

Normalmente.

Mas o nível de stress do dia pedia algo mais banal. Após algumas sugestões declinadas devido ao trânsito de São Paulo, – que requer horas para se deslocar até dentro da sua própria casa após às 18:00h – decidimos ver algo que já pretendíamos, e estava passando num cinema perto da minha casa:  Besouro Verde.

Pra quem não é familiarizado, aqui vão palavras da Wikipedia: “O Besouro Verde (The Green Hornet, no original) é um famoso herói fictício do rádio, cinema e televisão. Trata-se de Britt Reid, milionário dono do jornal O Sentinela Diária que se transforma num vingador encapotado no estilo do Sombra. Ele é ajudado por Kato, seu mordomo de origem oriental mestre em artes marciais.”

Mas o que mais me fez querer assistir O Besouro, é que, como eu mencionei ali atrás, eu era praticante de Wing Chun. Então, normalmente filmes que envolvem artes marciais me atraem. Também ajuda o fato de que Bruce Lee era quem interpretava o personagem Kato na série, em alguma parte dos anos 80. Some ainda que eu sempre curti HQ’s, e filmes com essa tendência também têm apelo sobre mim…

Nada mais justo do que assistí-lo!

Corremos e chegamos ao fim dos trailers.

Cerca de 20 minutos depois, eu suspirava, bufava, me desesperava, e cutucava meu querido alegando que queria demais ver o merda do Britt, personagem principal, O Besouro Verde, tomando a surra do século (e preferencialmente, entrar em óbito após o espancamento).

Britt é a caricatura do masculinista asqueroso que eu mencionei no meu primeiro post, aquele sobre os donos e entusiastas de blogs misóginos. Além de racista, ególatra, manipulador, porco-capitalista, mimado e a lista se extende…

Seth Rogen, o protagonista Britt, com sua máquina de poder.

Lenore. Objeto decorativo para um filme com um casting quase inteiramente masculino.

Existem pouquíssimas mulheres que sequer abram a boca (contei 4, incluindo a coadjuvante que aparece nos jornais da TV) no filme. A única que ganha “destaque” – e bota aspas nisso – é Lenore Case, personagem de Cameron Diaz.

Lenore é secretária de Britt, e apesar de ser infinitamente mais inteligente e capacitada do que o seu chefe se submete a tratamentos misóginos e inferiorizadores, como ser avaliada e classificada como gostosa desde o primeiro instante que surge na tela, interrompida praticamente toda vez que se manifesta, ser demitida sob a alegação de ser uma ‘meretriz’ que transou com o seu “parceiro” Kato, sofrer múltiplas tentativas forçadas de aproximação sexual por parte de seu chefe, e ainda assim, sempre estar disposta a fazer seu trabalho até altas horas da noite, já que ela é solteira e não tem nenhum dono esperando seu troféu em casa.

Kato, por sua vez, é o asiático-talento.

Jay Chou, conhecido por sua música, interpretando um serviçal multitarefas.

Todo o trabalho e ação são sempre realizados por ele, que também não fica tão atrás no quesito objetificação feminina. É subjugado e maltratado por seu chefe (relação que Britt mesmo faz questão de ressaltar algumas vezes – ele é seu chefe, seu dono, e não seu parceiro) durante 90% do filme. O que resulta inclusive numa cena de luta que causa pouca emoção entre os dois, que tem como fundamento decidir quem é o mais fodão (juro, assim mesmo). Ah, Kato também não obtêm um apelido divertido, tampouco é considerado parceiro do Besouro. Mas sua ingenuidade não o permite enraivecer por esses pormenores.

Frases e comportamentos do tipo “duvido que você tenha coragem, sua vadiazinha” e “eu sou mais macho/rico/branco/norte-americano que você” são repetidos durante o tempo inteiro, e a lição que se tem no final é que: mesmo que você seja um completo imbecil repulsivo, você ainda pode ser um herói.

Enfim, sobrevivemos a essa sessão de tortura. Enquanto caminhávamos para casa, eu contava para o meu companheiro sobre aquele texto que linkei aqui no começo desse post, da mulher afirmativa sobre já termos tudo, que o mundo pra nós é muito lindo, que somos privilegiadas, ganhamos mais que os homens e tal. Mas fui interrompida por uma cena que acontecia na calçada em que estávamos.

Um homem, visivelmente alterado, gritava com duas mulheres. A uma delas, apontou o dedo no rosto, bem próximo, e declarou em alto tom “Se eu descobrir que você está me traindo, eu te mato. Eu arrebento a sua cara inteira”. 

Ambas reagiram dizendo que ele não sabia do que estava falando. A gritaria prosseguiu enquanto diminuímos os passos para garantir que caso a ameaça prosseguisse, não fosse impune. Percebemos que diversas pessoas assistiam ao show, e alguns seguranças de um estabelecimento próximo já estavam de prontidão caso algo ocorresse.

Prosseguimos para casa. Naqueles dois ou três minutos, sabemos que aquela mulher não foi espancada ou morta. Porém enquanto estou escrevendo isso, não posso garantir que se manteve assim, até porque, a cada cinco minutos, duas mulheres são espancadas.

Reconheço meus privilégios por ser branca, por ser classe-média, por não estar na rua me prostituindo pois os meus filhos tem fome. Não me admiro por isso e tampouco julgo ser uma qualidade, mas compreendo que a minha vivência não é a mesma do que a da moça que vi sendo ameaçada horas atrás. É justamente por isso que alegar que o mundo para nós é lindo, em nome de todas as mulheres que fazem parte dele, seria de uma imbecilidade tamanha de quem o afirma, ou da parte de quem gasta milhões fazendo filmes que validam essa opressão. Assim como é por parte de qualquer indivíduo que não possua empatia (ou viva em uma bolha embaçada) suficiente para se ver que não, ser mulher não é agradável no patriarcado.

Violent Pornography (Can you say “brainwashing”?)

11 fev

“O que nós esquecemos quando falamos de pornografia é que estas não são fantasias criadas do nada, que caíram do céu, essas são fantasias criadas dentro de um mercado tipicamente capitalista. O que você vê na pornografia é uma necessidade para manter isso. Agora, o que aconteceu é que quanto mais os homens estão usando a pornografia, eles são cada vez mais entediados e insensíveis com ela, o que significa que eles querem o material mais e mais violento. E a pornografia, porque é o lucro, tem de satisfazer as suas necessidades. O que é interessante é que pornografia é na verdade uma bagunça porque eles não sabem mais o que fazer, os pornógrafos. Eles foram tão graves e tão cruéis quanto eles podiam. Eles fizeram de tudo com os corpos das mulheres, perto de matá-las. Então a questão é, o que eles podem fazer agora para manter um público cada vez mais insensível interessado?”

DINES, Gail, na entrevista que pode ser conferida aqui:

Quem me conhece pelo twitter, talvez já tenha me visto dizer que a pornografia atingiu um status de inquestionabilidade, e por isso, é um dos temas mais difíceis de serem trabalhados. Quem se posiciona contra só pode ser louco, paranóico, esquizofrênico, frígido ou anti-sexo. Isso ocorre especialmente porque para a sociedade em que vivemos, a pornografia É o sexo. Não há distinção entre o ato sexual de fato e um simulacro do mesmo, ainda que performatizado por seres humanos praticamente inorgânicos ou simples animações em desenhos no estilo anime, como é o caso do Hentai (ainda que a temática seja estupro, incesto, violação de cadáveres, pedofilia…).

Seria lógico considerar impossível debater a sexualidade moderna sem questionar a influência da pornografia, excessivamente reproduzida na mídia ao longo da nossa formação, e não só através dos meios explícitos, mas através da “pornoficação” visual – do gênero feminino em especial – em todos os tipos de propaganda ou expressão artística. É a pornografia quem dita as normas relativas ao comportamento sexual, para todos os gêneros. Para os rapazes, posturas de domínio, agressividade, pedofilia disfarçada por fetiches com moças de expressões físicas infantis, poder fálico, capacidade de inflingir dor e obter prazer simultaneamente. Para as mulheres, submissão extrema, violência física e sexual como estimulantes, ninfomania, e o tradicional “se ela disse não, quer dizer sim / se ela disser que está doendo, é porque está bom”, o gozo é falso, e a ejaculação masculina é objeto de devoção apaixonada. E olha que eu estou me restringindo a velha pornografia heteronormativa. Preciso mencionar as histórias em que lésbicas se “convertem” ao poder do pênis quando são apresentadas a um “macho de verdade”? (*pausa para vômito*) Ou que só se relacionam para impressionar o macho alfa do ambiente, que assiste tudo com aprovação? A pornografia homossexual masculina também desempenha um papel negativo de gênero, com direito a impor os mesmos valores de dominância em toda maldita prática sexual, como uma regra da qual não se pode fugir, sem contar com a violência, ainda muito presente.

É como se o intercurso se tratasse sempre de uma relação de dominador e dominado, e não do trânsito de prazer entre indivíduos. Quem nunca ouviu os conceitos de “quem está por cima domina, deixe-o nessa ou naquela posição, pois homens gostam de se sentir no controle”?

E o mercado do alt-porn? Ah, que beleza! Não tenho mais do que reclamar sobre só existir uma ditadura de corpo na pornografia, certo? Olha só, tem mulheres gordas, magras, tatuadas, modificadas, carecas…e a mensagem é: venha, mulher inadequada! Nós também podemos te objetificar um pouquinho! Tem gosto pra tudo, sabe como é, você tem uma beleza exótica, nós gostamos, fap fap fap. A mensagem da pornografia (alt ou mainstream, caso você não tenha percebido que é tudo a mesma merda), mais uma vez, em mais um ambiente, como em todos, durante toda a nossa vida, é: seja sensual. Seja sexy. Seja dócil e ultrafeminina. Seja sensual sem ser vulgar (eu nunca entendi essa merda, quem souber o que isso significa me conta, por favor). Seja perfeitamente adequada ao que se pede do seu corpo. E claro, se você atingir tudo isso que exigimos, prepare-se: você vai ser oficialmente retratada como uma ameba, que é preferivelmente tida muda e mantida em cativeiro como escrava sexual. É extremamente comum o discurso do homem afirmando coisas desse nível: “eu adoraria ter uma gostosa dessas muda, surda e pelada dentro da minha casa o dia inteiro” porque sabe né, se uma perfeição dessas sair dali, ele vai ser automaticamente acusado de corno, e como lidar com a honra masculina ferida? E caso ela esboce algum pensamento ou sentimento será humana, e como eu já disse no outro post, não, eles não gostam de humanidade.

Dito isso, entro na etapa que mais ansiava discorrer neste post: os modelos que nós, mulheres, seguimos.

Quantas de nós, nossas amigas, mães, irmãs ou namoradas optariam por acordar no outro dia, por um passe de mágica e livre escolha, sendo a presidente do maior país da América latina, – porém, com uma aparência física “condenável” e “vergonhosa” de se possuir para o gênero feminino – versus. Possuir a aparência física da atriz pornô mais “quente” do momento, independente do emprego, situação financeira, QI ou empatia que possuíssemos?

Quantas de nós não nos olhamos no espelho e nos martirizamos, pois com alguns quilos e anos a menos, um silicone aqui, uma lipo acolá, e um megahair nos tornaríamos perfeitamente admiráveis, tanto quanto a última capa da Playboy?

Quantas mulheres já não estranharam, se envergonharam e até mesmo pagaram rios de dinheiros para mutilar seu próprio genital em mesas de cirurgia, pois ele não se parecia em nada com o dos filmes que o seu parceiro assiste? (segundo o famoso Dr. Rey, 90% das vaginas são naturalmente feias. Ele não entende porque “deus” as fez assim, mas garante que consegue te livrar desse tormento por uma quantia módica).

Nosso referencial de valorização é possuir e manter ao longo da eternidade o corpo das Vivid Girls. Claro, possuímos metas pessoais! Muitas querem ser advogadas renomadas, médicas, professoras, sociólogas, cabelereiras, escritoras de sucesso ou até presidentas do maior país da América latina…mas do que vai valer a pena todo esse conhecimento se tudo o que você vai ouvir é “legal que você corre atrás dos seus sonhos, mas precisava se cuidar mais hein? tá começando a aparecer uma ruguinha ali oh…nossa, e essa barriguinha aí? vamos parar de preguiça? a atriz x também teve filhos, e não está acabada assim…a cantora x também tem jornada tripla, mas tem tempo pra correr na orla todos os dias e manter o “corpinho de dar inveja”!”

Ouvimos isso o tempo todo. Nas conversas das ruas, na nossa família, nas revistas femininas, nos programas de TV, e direta ou indiretamente, muitas vezes, dos nossos parceiros (especialmente em relacionamentos heterossexuais).

E como eu já falei ali em cima e todo mundo já sabe, se você realmente fizer tudo o que pedem do seu corpo, você vai ser fútil-burra-superficialblablablá. Enfim, desista, tu nunca vai ganhar esse jogo.

Sabe o que é pior? Te convenceram de que além do seu corpo nunca ser bom o suficiente, ele só serve para atingir as expectativas de terceiros (em especial, você sabe, os homens). Porque você e eu sabemos que independente dos seus seios serem pequenos, caídos, separados, grandes, escuros ou claros: quem vai sentir (ou não) prazer naquela região é você, e a anatomia dos seus seios não tem NADA a ver com isso. O mesmo se aplica para a amamentação, que vai ocorrer naturalmente no seu corpo independente dos seus seios serem pra cima, pra baixo, pros lados…

Se a sua barriga é flácida (ou seja: normal. já que a condição NATURAL de uma barriga feminina humana nunca foi um tanque de pedra), ela continua sendo uma barriga. E servindo a todos os propósitos de uma barriga maior ou menor.

Se a sua vagina é grande, pequena, larga, estreita, pigmentada, peluda ou depilada: acredite, quem vai sentir qualquer coisa naquela região, caso estimulada, é você. E não vai ser o fato dela ter lábios maiores que vai te impedir de sentir prazer.

Não vou nem mencionar estrias ou celulites, que além de não aumentarem nem diminuírem NADA no seu corpo, não tem e nunca vão ter impacto nenhum sobre a sua saúde física ou mental (são só risquinhos, ou furinhos, oh meu deus, que perturbador possuí-los!).

Então porque você se culpa tanto?

Por que você PRECISA tanto entrar naquele manequim?

Por que você tem TANTO medo de descobrirem que não, você não se parece com a capa da última Penthouse quanto tira o jeans que levanta, a cinta que comprime e o sutiã que junta?

Por que seu referencial de beleza pornográfico é a coisa mais essencial (e impossível) de ser atingida antes que você possa se admirar por completo?

E por que mesmo sabendo disso tudo, tanta gente jura de pé junto que o pornô é saudável, necessário e inofensivo?

Pra quem duvida (sei que é o que mais tem), jura de pé junto que isso é censura feminazista, e que sugerir que pornografia é mau (novamente, o pornô é visto como O sexo, e não um simulacro ofensivo) é castrar o prazer: você pode negar o quanto quiser. Acreditar que é inofensivo, e que é impossível viver sem. Você pode até negar os fatos que te incomodam e dormir tranquilo. Mas nunca mais, depois de ler essa merda, finja que você é inocente.

Misogyny is the new black(“lash”).

2 fev

Uma coisa que me perturba é essa onda massiva de adesão aos clubinhos masculinos virtuais.

No dia a dia, a maioria dos homens se declara bem-resolvida, a favor da independência feminina, “eu não sou machista tenho mãe, mulher e esposa” BLABLABLÁ.

Porém, é notório que a nova onda (mentira, não é nova coisa nenhuma, mas convenhamos que anda bem explícito) é esse backlash machista caricato.

Sem meias palavras, o orgulho misógino grita os clichês de todos os séculos que já passaram. “Lugar de mulher é na cozinha!” “Só presta se for gostosa!” “Meu negócio é buceta” (…é, buceta, e não mulher, já que qualquer traço de humanidade encontrado em uma fêmea humana será repudiado). E tudo isso é muito bacana, muito cool, muito saudável. Afinal, você que é uma puritana sem senso de humor. Incitar o ódio, a violência e a objetificação da classe que é oprimida a séculos não passa de uma brincadeira, uma piadinha inocente. Inocente? Sério?

E todas as mulheres assassinadas, estupradas e espancadas diariamente? E a secretária, que serve cafézinho na reunião de engravatados, como uma dona de casa disciplinada? E a empregada doméstica, que limpa sua privada? Todas exclusivamente mulheres. Todas ganhando menos que você, homem branco, de classe média, cristão, cidadão de bem e pagador de impostos.

Mas são apenas piadinhas, ora essa! Afirmar que lugar de mulher é servindo seu macho na área da copa é inofensivo. Ainda que de fato, algumas – e não são poucas – mulheres sejam espancadas porque a refeição que ela preparou para o seu dono não está boa o suficiente. Criar posts intitulados “sexta-feira de gostosas”, ilustrados pela exuberância plástica do ideal de beleza obrigatório, todas as semanas, por anos, reafirmando com punhos em riste qual padrão físico deve se encaixar a portadora de uma vagina, e qual são as posições que se permitem a ela ocupar na sociedade (inumano, inorgânico, para simples apreciação da horda fálica) não tem nada demais. Ainda que mulheres venham a óbito em mesas de cirurgia , ou por fome para atingir tais padrões. Ainda que percam horas se mutilando, se condenando e sofrendo por não serem a Miss que se espera delas. Por serem apenas humanas, com vontades, questionamentos e sentimentos. Porque sim, meu caro amigo, por mais que vocês odeiem profundamente, mulheres, todas elas, pensam e sentem. Sim, elas são humanas!

O buraco fica mais baixo ainda quando somos surpreendidas com outra constatação mais chocante ainda. Leitoras do sexo feminino, demonstrando seu mais profundo apóio a quem as chama de receptáculos imbecis de sêmen. Tiram fotos sensuais com frases ou símbolos que remetem aos blogs e portais misóginos, e enviando-as como forma de apóio de forma quase partidária. Com isto, levanta-se o mais alto que se pode a bandeira do “é tudo uma grande brincadeira, quem se importar com isso só pode ser um louco histérico, até as próprias mulheres apóiam!”.

Tal fenômeno chega a contar até mesmo com colunistas ou videologgers possuidoras de cromossomos XX que inflam a caixa toráxica para declararem-se machistas orgulhosas, que o feminismo é uma piada ultrapassada, e que brincar com a violência doméstica é ok.

Culpar estas mulheres pelo problema é ingenuidade. É como culpar os negros pelo racismo ou os homossexuais pela homofobia. Um indivíduo do gênero feminino que recusa afirmar-se como humano, possuidor de direitos e que deve ser levado a sério tanto quanto qualquer um, sofreu uma lavagem cerebral tão grande que se sente nesta obrigação. Todas nos sentimos afinal, em menor ou maior grau, obrigadas a sermos aceitas pelo público masculino, detentor da capacidade de nos aprovar ou desaprovar de acordo com seus próprios critérios imbecis e irreais. Foi isso que a família, a mídia, a televisão, as revistas de beleza, os vínculos empregatícios e os nossos relacionamentos nos ensinaram. E é só isso que estas mulheres buscam. Atingir tudo que se pede a elas: docilidade, beleza ultra-sensual/feminilizada e a capacidade de concordar com qualquer absurdo que seja dito a elas, pois não são uma classe, e não há uma luta a ser lutada, tudo isso já foi superado.

O jogo já está ganho para as mulheres. Agora fique quietinha, faça um regime, compre este sutiã que “valoriza” os seios e volte para o seu lugar, sua histérica.

Adendo!

Depois de escrever este primeiro texto, ainda sem a certeza de publicá-lo ou não, me deparei, não pela primeira vez, porém nesta prestando a devida atenção, com uma review do livro Female Chaunvinst Pigs, da Ariel Levy. Para resumir nas palavras da autora: “If Male Chauvinist Pigs were men who regarded women as pieces of meat, we would outdo them and be Female Chauvinist Pigs: women who make sex objects of other women and of ourselves.”

Numa tradução livre e ruinzinha: “Se Porcos Chauvinistas Machos eram homens que tratavam mulheres como pedaços de carne, nós os ultrapassaríamos e seríamos Porcos Chauvinistas Fêmeas: mulheres que transformam a si e a outras mulheres em objetos sexuais”.

Pois é, chata da Ariel, falou tudo o que eu tentei dizer, com palavras melhores (just kidding! Adorei a proposta e vou comprar o meu exemplar segunda-feira, talvez vejamos um review meu do livro em breve).