Você não está preso no trânsito, você é o trânsito!

4 mar

De manhã, papeávamos sobre a próxima bicicletada pelada. Entre um pão francês e outro, ríamos adoidadas, entre olhadas e alarmantes exclamações daqueles que ainda não compreendem a “organicidade” do bicicletar nu. Normal, até engraçado. Foi uma boa e quente manhã de pedal. No caminho, vi um rapaz descendo a Haddock Lobo de patins, mais rápido do que eu. Trocamos um sorriso de admiração recíproca.

Em minutos, a notícia. Uma de nós havia perdido a vida. Alguém a fechou com algumas toneladas, jogando os 60-e-poucos-kg em cima de outras toneladas, em mais avançada velocidade. Uma vida ceifada a troco de nada.

Abraçamo-nos em desespero, choro e choque. O mesmo caminho que eu, que ela, que tantas de nós. O mesmo destino possível com a maior porção de minhas amigas, amigos, amores e mesmo meu próprio pai.
Ali acabou uma vida, e não foi por uma fatalidade ou acidente. Foi por uma epidemia cada vez maior e escrota de pressa e auto-relevância. Só o que eu faço é importante, justo, necessário e urgente. O resto das pessoas são obstáculos, desagradáveis incidentes que atrapalham meu importante caminho.

Você não está preso no trânsito. Você É o trânsito.

A noite, quando caminhamos embaixo de o que pareceu ser um oceano suspenso, despencando em chuva e se fundindo a tantas lágrimas, comecei a ter noção de que perderia o chão. Empurrava a bicicleta com pesar. Ao meu lado, centenas que pensavam exatamente o mesmo. Grande parte das pessoas que eu amo estavam lá. Era impossível não abraçá-lxs e morrer um pouco por dentro. O frio maior não era do vento, era do estômago e da espinha. Mais do que nunca, foi preciso parar, gritar, sacudir, travar essa porra dessa avenida já travada todos os dias, e implorar por mais respeito.

Foi preciso olhar nos olhos de cada motorista do caminho e explicar o que acontecia. Tentar demonstrar que, se ele sair do mini-sofá em que está, também será pedestre e vulnerável. Que uma vida não pode ser avaliada em R$1.500,00 de fiança.

Até agora, organizar o pensamento está quase impossível. Fora de algumas mentes esclarecidas, ainda sou obrigada a ler que ela era culpada. Se tinha dinheiro, por que não comprou um carro? Morreu porque merecia, então!
A pior violência que me acomete ainda é a verbal. Da ignorância coletiva de quem se ensurdece como uma criança gritando “lalalalala-não-estou-te-ouvindo-o-motor-fala-mais-alto!”.

Uma certeza que tenho é que, mais do que nunca, agora é hora de luta. Cada pedalada é um silencioso protesto, que subverte, na simplicidade do giro, a lógica da pressa, da manutenção do status quo, do consumismo, da falsa liberdade vendida pelo capital e pela indústria petroleira.

Não estou só. Não vou aumentar a velocidade porque você está com pressa. Não vou para o parque, a calçada ou sumir ao som da sua buzina. Eu estou aqui, e vou para todos os locais que você julga cabíveis somente ao seu nível de egoísmo acelerado.
Lutemos contra quem multa trabalhadores pobres se eles não atingirem uma meta irreal de horários na afogada turba de ferro do asfalto. Lutemos pelo respeito, pelo compartilhamento, pela prioridade da vida, e não da urgência banal.

Mas você acha que a Avenida Paulista não é lugar de bike? Lê aqui. 

Hoje eu não quero falar sobre desafogar o trânsito para quem realmente precisa do carro. De liberar o transporte público pra quem vem de mais longe. Das lutas pela justiça e qualidade no transporte público. Dos motoristas bacanas que dão passagem. Da sempre eterna discussão sobre classismo, sexismo e outras doenças no cicloativismo. Hoje, eu só preciso chorar o nosso luto.

Faltam 43 Dias.

23 fev

No cansativo zapear da TV, observo um rapaz branco, no auge seus vinte e poucos anos.

Ele entra no escritório e, ao desembalar-se do terno que trouxe da rua, também desembrulha um picolé. Na primeira mordida, um teatral sol de cartolina nasce, e o chão do escritório se transforma na morna areia da praia. Uma música feliz incendeia o ambiente de trabalho, sob olhares de questionamento dos companheiros de classe.

O lema do que vi não deixa dúvidas, ao que anuncia o narrador: “clima de férias até no escritório”. Algo como “desfrute o prazer” também devia estar associado.

Fui dormir, porque no dia seguinte, o dever chamava.
Às vezes eu penso que escritório é o novo chão de fábrica. Telemarketing, é o novo lixeiro (estuda, senão vai virar atendente!). É pra esses lugares que todo mundo vai agora, saindo pelas manhãs que sobem no horizonte das cidades-dormitório, rumo ao que é importante na vida.

No trajeto, deslocando-me pelas propagandas estampadas no cinza da cidade (umas das poucas cores que nos permitem contemplar, claro, graças à função pedagogicamente consumista, e ao não-vandalismo incluído), mais uma vez, a tal mensagem do picolé aparece. Dessa vez, vendendo um capuccino em pó. Frondosas palmeiras e guarda-sóis estão representados na espuma da bebida vendida. Um momento de relaxamento em meio à enchente de caos, carros e gente.

Parei pra ver a cara de quem passava. Nas saídas dos metrôs, várias faces bronzeadas, de quem foi salgar o pé no mar durante os poucos dias sequenciais de descanso que terá no ano. Na mão, uma mala de viagem, cheia de amargura. Um rancor do patrão estampado na cara, que não há fitinha de nosso-senhor-do-Bonfim que desamarre.

Em São Paulo, capital, não tem mar, (você sabe), mas tem picolé e capuccino, pra lembrar que mesmo o mar sendo de graça (e ele é), o mais perto que você pode aproveitar dele agora é durante uma pausa na labuta: e pagando por isso.

Se ganhar na loteria, comemora. Se pisarem no seu pé, lá no busão socado, enfia a cotovelada no desgraçado. O carro da sua frente tá lento? Buzina, repreende o filho da puta. Não é seu companheiro se te atrasa pro trabalho, e pode te queimar com o patrão.

Se quiser reclamar por alguma coisa, que seja pela desclassificação da sua escola de samba. Mas não do progresso, essa benevolente entidade que te tirou o sol na cara, o mar no pé, a água de coco na mão, e te trouxe aqui, pra beijar o rosto da gerente, e xingar a garçonete do restaurante.
Feliz 23 de Fevereiro de 2012. Agora você já pode voltar a juntar moeda, pra comemorar a próxima seqüência de dias em que vai pagar pra fazer o que sua natureza realmente classifica como felicidade.

Esther Sá tem 19 anos, trabalha desde os 16, e desde lá não sabe o que é férias. Passou o feriado dando conta dos clientes incrivelmente ofensivos do telemarketing, que têm plena convicção de que todos os problemas do mundo são culpa dela e da raça escrota a qual ela pertence. Recentemente, desaprendeu a fingir que consegue sorrir ao patrão.

Menos o Krasis, que estava na suruba.

20 jan

IT’S ALIVE! O blog não morreu. Tampouco eu ou Jo deixamos de nos amar intensamente (own!).
O que há, pra variar, é que o capitalismo corporativo anda comendo nossos cus, de modo que quase não há tempo para nos dedicarmos a algo que senão ao trabalho.

Mas não vim só pra dar oi. É que hoje, sexta-feira, dia oficial de se empolgar com o oásis sexual do final de semana, mais uma polêmica chega até a interwebz. E aí, o tema que já martelava na minha cabeça por semanas, precisou se desenvolver em texto o quanto antes.

"Ah, mas no meu tempo não tinha dessas putaria não!". Aham, senta aqui.

Pelo que pude observar, uma moça participou de uma suruba. Coisa muito comum no reino animal, há mais tempo do que eu saberia precisar (abraços, literatura erótica dos séculos passados!). A novidade (?) é que as fotos do tal evento foram parar no Facebook. Não se sabe se por hackeio (bem mais provável) ou vontade própria.

Ah, mas aí é abuso demais! É contar com a sorte! Putaria já é pecado. Registrar tudo então? E a mina? Uma vagabunda! Puta! Vaca!
Obviamente, eu não entendo essa linha de raciocínio. Já dizia o velho meme: the internet is for porn.
Mesmo não gostando, ou militando contra, é difícil que alguém que nunca tenha parado pra ver (me refiro ao pornô, é claro). E se, por falta de interesse, vontade ou o que seja, você nunca contemplou conteúdo erótico/pornográfico, decerto, amigx, você é humano, e algumas vezes na sua vida, vai precisar ficar peladx.

Deixa eu te lembrar que você nasceu peladx, e, saindo de uma vagina. Não tem nada de muito etéreo nisso.
Depois, a descoberta da sexualidade, e você se tocando mesmo sem saber o que estava fazendo. A curiosidade com o próprio corpo e os alheios também não é nada incomum. Creio até que seja considerado um indicativo de saúde, mas, não vamos nos fixar ao normatismo.
Fato é que tendemos a ter contato (e muitas vezes, apreciar) a sexualidade: Não necessariamente a padrão, mas, sim, é comum que busquemos o gozo, de um jeito, ou de outro. Assexuados, suponho, provavelmente não sentirão-se contemplados no discurso, embora não haja nada de anormal nisto: estamos apenas generalizando o macro-caso.
E quanto ao caso de ficar pelado, é claro que não se trata de um ato sexualizado. É só natural, e óbvio. A nudez é o estado mais simplista da existência. Você está sem roupa, maquiagem, e não tem nem onde guardar dinheiro.

Mas, aí, se a situação – seja da nudez, ou do sexo – se torna pública, a coisa muda de figura.
O simples fato de ter uma foto sua com uma parte “pudica” exposta (pra quê pudor com algo que todxs temos em comum, é um mistério) já pode destruir toda uma vida.
Seus familiares, amigxs e chefes pensarão mil vezes antes de te levar a sério. Tal pessoa, disposta a se exTenha tanto sexo consensual quanto você estiver afim, porra!por de modo tão intenso em público, só pode ser louca, ou – na melhor das hipóteses – completamente indigna de confiança. Além, é claro, de um óbvio indício de promiscuidade: uma praga, um horror!
É possível ter a vida inteira destruída, se seus genitais forem expostos para alguém, senão seu/sua parcerix sexual, ou médico da família.

A cultura monogâmica, que soa tão absurda para a comunidade do Admirável Mundo Novo, de Huxley, parece ter enraizada em si o mesmo tipo de aversão crônica a qualquer subversão de seus princípios.

Plenamente convictos de nosso julgamento, vamos para as casas, camas, esquinas, ou computadores. Amando, ou comprando, quase todo mundo busca por sexo, indiferentemente da modalidade praticada.
A real, amigxs, é que ninguém consegue descrever o por que de tanto incômodo, e tanto julgamento, só se sabe que é errado, sujo, e vil, como um mantra que ecoa e dispara a qualquer fuga do socialmente-bem-visto.

O fato do ato sexual ser comum, não o torna menos criminalizado. A imagem de uma mulher, contemplando, gozando e se satisfazendo, tende a remeter ao ódio e a punição alheia, e veja: estamos há pelo menos algumas décadas falando sobre liberdade sexual e igualdade de gênero.
Haviam, pelo menos, mais dois ou três guris figurando a cena. Os amigos se orgulhariam. Ele meteu na mina, e isso é louvável.
Já a guria? Porra, taca bosta na Geni!

Recomendo: http://sexisnottheenemy.tumblr.com/

A Mão Que Afaga.

31 out

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Quando eu era pequena, falava que ia ser bióloga. Daí descobri que biólogo estuda muito, e como eu só queria “ajudar os bichinhos” resolvi que seria veterinária. Mais pra frente, descobri que seria quase inevitável fazer veterinária e não utilizar animais como cobaias (posso estar errada, mas foi a informação que tive), então desisti e voltei pra biologia.
Não curto essa ideia de que para ser alguém ou fazer algo eu precise entrar para a academia. Tenho infinitas críticas a este modelo de educação, sobre os quais pretendo dissertar eventualmente. Mas enfim, entrei.

E me fodi, é claro.

Mas claro, há quem se foda muito mais.

Pra começo de conversa, assim como a esmagadora maioria dos meus coleguinhas de classe, eu não consegui passar na USP (nem na Unesp, nem nada que exija esses conhecimentos que eu não tive na escola).
Daí finalmente chegando na universidade particular, descobri que mesmo lá, o diploma superior, o discurso acadêmico ou científico tem todos aquele status que eu tanto desprezo de superioridade.
Ah, o templo do conhecimento! Acessível somente para aqueles que tiveram acesso a uma educação de qualidade durante a vida, ou que podem pagar por uma alternativa. Que lindo!
Me deparei com quem ache que ensinar evolução nas escolas seja um crime, mas também conheci – e em quantidade incrivelmente maior – quem ache que a ciência legitime tudo.
Aliás, minto, nem tudo: alguns são contra aborto ou violação de alguns direitos humanos.
Mas com animais não-humanos a história fica bem diferente.

Vale a pena, sempre vale a pena, né?

Meu ponto não é dizer que zoólogos e componentes de comitês de bioética sejam, de forma geral, carniceiros especistas inescrupulosos.
Na realidade, o único termo acima que realmente parece se aplicar a todos os que conheci até o momento seja “apenas” especista.
Muita gente já tinha me dito que eu teria que lidar com isso, que se trata de um status quo científico, mas por algum motivo – ingenuidade? esperança? – eu não acreditei.
Infelizmente, o que se observa é de fato isso: os componentes de comitês de ética e experimentação animal são, comumente, veterinários, biólogos e profissionais dos quais se espera algum entendimento entomológico. De quem se supõe algum respeito pelas vidas das quais eles são os juízes de decisão.
A realidade, entretanto, é que a mão que afaga é a mesma que apedreja.

Matar dez para salvar vinte. Mutilar cem para “ter uma média de resultados”. Torturar, enclausurar e utilizar de diversos modos de contenção estressantes e desgastantes: tudo se justifica em prol do avanço científico.
A pior parte, é que quando se tenta debater entre alunos ou mesmo com os tais profissionais sobre a questionabilidade ética desdes procedimentos, é que a impressão que os mesmos tem sobre o assunto é a de que um grupo resistente e sofredor de cientistas se degladia diariamente para produzir conhecimento e curas mirabolantes, se esgueirando das “duras punições” do movimento ambiental.

Movimento? Somos uns poucos gatos pingados. Tomamos surras diárias com diversas desculpas: progresso científico, econômico e humano.
Aqueles pelos quais lutamos não tem voz. São capturados e utilizados da forma que melhor nos convir. Aqueles que mais conhecem seu funcionamento – capacidades, potencialidades, desejos, instintos e que, esperava-se, fossem seus defensores, são os que legitimam sua tortura com um vocabulário rebuscado cujo objetivo é um só: ajudar sua própria espécie. Quando muito isso.
Sem mencionar xs que militam por diversos outros movimentos, mas acreditam no utilitarismo animal e no especismo como verdades inquestionáveis.

Ainda tento digerir o enjôo que me causa notar o quanto o conhecimento acadêmico e o progresso científico legitimam interesses egoístas.
Dia a dia acredito que não há limites para a traição humana.


Trabalho Abstrato: O Caminho, A Verdade e a Vida.

24 out

Não é novidade nenhuma.

Meu pai, moleque de tudo, devia ter cerca de doze ou treze anos quando ouviu do ricasso – cliente do clube pro qual ele trampava – que o garçom (meu pai) era um animal por ter servido o pedaço de melancia sem garfos.
Isso foi no mínimo a uns 30 anos atrás. Mas não é novidade que ainda hoje esse tipo de comportamento é padrão entre a alta escala empresarial.

Perdi meu emprego. Encontrei uma ocupação.

Quando eu escrevi o Alguém na Vida, vomitei meio que aos soluços os sustos que ainda hoje tomo com o mercado de trabalho.

Não sou de me prender em valores familiares (do modo com o qual elas são concebidas), mas me orgulho muito dos meus pais por serem quem são. Também não costumo me prender a origens, mas, genealogicamente falando, venho de uma longa linhagem de gente pobre e fodida, que aos poucos tem ascendido na nova classe média. Agora temos computadores e vamos em manifestações promovidas pelo Facebook.
Alguns de nós já até estamos conquistando diplomas universitários (parabéns, mãe!).
Talvez esse tipo de “ascendência” econômica seja o responsável pela minha ilusão. Acreditando que os padrões atingidos por uma grande parcela social tenha subido, acabo me surpreendendo com a falta de ética daqueles que eu acreditava serem os responsáveis por essa inclusão: as diretorias.

Recentemente, migrei por entre restaurantes com filosofia zen e naturalista, cujo renomado chef grita, esperneia, empurra com violência e solicita serviço através de gritos: “Vai rápido, corre e entrega tudo sem derrubar nada, porra!” para os garçons.
E acredite: eu bem que gostaria de estar sendo metafórica.
Também transitei por pequenas mídias alienatórias, onde eventuais expedientes eram salpicados de berros esbravejantes da sala da presidência. O motivo? As vendas não estavam satisfatórias.
Alguns vendedores precisavam sustentar filhos pequenos, outros possuiam dívidas enormes. A marmita, preparada com esforço, sacolejava por muitos quilômetros dentro do transporte público.

A presidência? BMW e Hayabusa na garagem.
Pausa para ir ao banheiro era um privilégio constantemente reafirmado como um ato supremo de benevolência, apesar dos funcionários passarem praticamente dez horas trancados na caixa cinzenta.
Ainda assim, a equipe é constantemente humilhada por não encher os bolsos da alta direção da forma esperada.

Já faz quase 30 anos que meu pai foi chamado de animal por não levar garfos para um engravatado sorver seu pedaço de melancia. Entretanto, há cerca de três dias atrás ouvi um discurso que quase me fez procurar por talheres em meus bolsos para fornecê-los a minha senhoria. O fato de não enviar relatórios acerca de todos os meus movimentos (se possível incluir os fisiológicos – atualizados de 3 em 3 minutos) me fez entender que ainda hoje, mesmo nos trabalhos mais abstratos, somos obrigadxs a desempenhar funções vazias de sentido, ignorar nossos ímpetos mais básicos de entretenimento mental e felicidade simples.
Durante este tempo, abandonei a escrita. Meus textos, minhxs amigxs, leituras e músicas. Mesmo meus estudos universitários e minhas horas de sono foram considerados luxos aos quais não pude prestar atenção.

O que mais me entristece é notar que nivelemos tudo por baixo. “Meu emprego é ruim, mas pelo menos paga em dia”. “Meu patrão me oprime, mas pelo menos não me assedia sexualmente”. “Saio mais tarde todo dia e não vejo meus filhos acordados, pelo menos recebo hora extra”.
É nivelando por baixo que nos mantemos escravos do trabalho abstrato e do vício empregatício em explorar toda a força produtiva que nos resta. Tenho grandes dificuldades em imaginar a mudança acontecendo inserida neste contexto de medo, com o qual ainda me identifico.
Eu mesma tenho medo de passar fome, quem dirá aqueles que com muito menos precisam fazer muito mais.

Mas ai de mim! Ousando discordar do fato de que pessoas que moram a mais de 25 km de distância do emprego e chegam até ele através da superlotação dos trens e ônibus paulistanos, talvez, quem sabe, só supondo, não merecessem esporros e advertências pelos cinco minutos de atraso.
Talvez o Krasis volte a ser atualizado com maior frequência…E também estou aceitando o e-mail de RH’s para envio de curriculuns vitae.
E apesar de eu soar classe-média-sofrista, esse vídeo explica muito melhor tudo o que poderia ser dito sobre o assunto.

Alguém na vida.

9 set

Daí que o salário é um ticket para ser xingado e aguentar caladx. Quanto menor o nível herárquico, maior o decibel utilizado: ninguém grita com o engravatado.
Posse inorgânica: pago seu aluguel, te dou o que comer, sou seu dono.

Te ensinaram a idolatrar o cheiro imundo da exploração.

O descanso é o stand by da escravidão.

A gente sempre vende a alma pro patrão.

<Modo: hiatus por tempo indeterminado>

Rascunhos Sobre a Lucidez

22 ago

Abiguinhxs, vida tá conturbada. Aguardem posts com detalhes sobre desemprego e tretas na faculdde bem-estarista. Por enquanto, fica o rascunho sobre um universo que só tive coragem de adentrar agora.

Idéias inesperadas são aquelas que mais me incomodam. Quando toda a ordem ideológica está estabelecida, e nada parece questionável, aquela maldita dúvida surge e corrói até o limite.

Atualmente, alguns pensamentos me atingiram, e por mais que eu tentasse relutar, aquilo já tinha me afetado.

Quando entrei na adolescência, aceitei a tarefa que foi designada para mim: sociabilizar. Já que fui uma criança fracassada, me certifiquei de não desperdiçar as chances apresentadas na juventude.
Onde xs coleguinhas fossem, eu deveria ir. O que eles fizessem eu deveria fazer. O que eles ouvissem eu deveria ouvir. E principalmente: o que eles bebessem, eu deveria beber.

Então, quando eu estava no ensino médio comecei a sair pra beber, e de dose em dose, descobri uma das minhas poucas habilidades na vida: encher a cara. Sim amigos, eu sou – sem a menor modéstia – a bêbada perfeita.
Por muito tempo enchi a boca pra dizer o quanto era capaz de beber quase uma garrafa de vodka inteira sem perder a consciência. E passei mal apenas uma única vez, devido a um combo infalível de momento fisiológico ruim + má combinação de elementos entorpecentes e etílicos.

Foi assim que eu conquistei uns colegas (eventualmente, perdi o contato com praticamente todos) e dei algumas risadas. Bêbada.
Em retrospectiva, me pergunto se realmente tais eventos eram tão divertidos assim, ou se minha sanidade diluída em álcool inseriu esse sentimento em minhas memórias sem se basear em nada além da embriaguez.
Por exemplo, o ato de sentar-se um bancos plásticos e ingerir uma variedade de líquidos cujo paladar sequer seja interessante (falarei sobre paladar mais adiante) apenas para garantir que sua consciência se dissipe é mesmo tão divertido? Ao mesmo tempo, conversar enquanto se toma um suco tem carga moral “careta” e “antiquada”. Por quê?
Experimente afirmar para um cidadão comum que você não consume álcool. Possivelmente, será questionado:
A) Você é crente?
B) Você é louco?

Ousaria dizer que nem água potável é tão idolatrada pela publicidade.

A bebida é a grande válvula de escape e o maior instrumento de socialização ao qual fui apresentada. Jovens ou adultos se reúnem com maior ou menor freqüência sempre sob a presença sagrada da alteração etílica. Festas, almoços, reuniões, encontros, baladas: Tudo é sempre pretexto para se intoxicar, e isso é o natural, o divertido, o são a ser feito.

O mais engraçado é como isso se tornou natural e inquestionável entre nós, que sempre engolimos a “loira gelada” sem ousar duvidar de seu delicioso sabor refrescante. Quase todxs xs consumidorxs de cerveja que conheço precisaram se adaptar ao sabor da bebida em um período introdutório. Mulheres tendem a assumir sua preferência e optam pelas mais doces (e sim, eu sei que existem exceções). Para os homens, seria uma ofensa a sua masculinidade, portanto engolem a mais forte e amarga das bebidas evitando demonstrar uma repulsão natural por tal sabor.

Exceções existem, e estou ciente delas. O fato principal no entanto é pouco variante: muda-se o teor alcóolico e a intensidade do sabor, mas o consumo sempre deverá existir para todxs.

Lembram do traço físico característico que se segue ao “virar” uma dose de destilado? Careta. Repulsão involuntária. Então olhamos para os lados e nos certificamos de dizer algo como “Essa sim é das boas!”, e todos comemoram nossa admirável habilidade.

Assim, temos o álcool como parte fundamental da essência do indivíduo. Não desejá-lo é absurdo, inconcebível. É como se houvesse um instinto incontrolável que busca a felicidade e o bem-estar, que só poderão ser garantidos com goles de um amargo e nocivo líquido.

 “Mas eu gosto de verdade de cerveja!”, alguém deverá responder, ou então “Não vivo sem minha caipirinha sabor pêrauvamaçãsaladamista”. Certo, isso é sua opinião. A minha, é que por mais gostosa (ou por mais que tenham nos convencido que o tal sabor é bom) seja uma cerveja, ou uma caipirinha, ela jamais será tão saborosa quanto um suco de fruta natural, por exemplo. O gostoso das caipirinhas são as frutas e os açúcares. Os drinks são incrementados para se tornarem mais palatáveis, e mesmo as cervejas são elaboradas para garantir o mínimo de aceitação palativa.
Observo que grande parte dxs jovens opta por consumir bebidas com gosto das quais se pode assimilar algum sabor e ainda assim receber a dormência do álcool, como as “não-másculas” e altamente ridicularizada por machos alfa: Ices e bebidinhas doces.
Não conheço ninguém que ateste com convicção que o sabor de álcool puro seja uma delícia a não ser aqueles que de tão viciados sequer fazem esse tipo de distinção.

Logo, devemos assumir que o principal motivo pelo qual consumimos álcool não é por seu sabor: é por seu efeito entorpecente e seu status. Caso contrário, as cervejas sem álcool e sucos de uva fermentados seriam um grande hit de vendas, e não é isso que vejo nas propagandas do horário nobre.

Trampo do Iggy, que me fez repensar o que e por que eu andava engolindo essas paradas por aí.

Confesso que o entorpecimento foi o principal motivo que me levou a descontinuar a promoção de enriquecimento destas indústrias.
Quando ouço a alegação de que Viver sem beber não dá, como eu vou passar a sexta-feira sem aquela geladinha?” percebo a que ponto de dependência a/o mais típicx dx cidadã(o) chegou. Trabalhadores, estudantes, desempregados, pobres, classe-média, ricos: grandes parcelas de todas as classes sociais bebem, o que se altera são no máximo os preços das garrafas e os locais de consumo.

Beber aos finais de expediente, por exemplo, é uma maravilhosa tática de anular o descontentamento com a exploração diária e se divertir com o entorpecimento da atividade. Afinal, se sempre há um momento onde suas preocupações não existempois você sequer consegue estar consciente delas pra quê se preocupar? Pra quê lutar? Logo passa, logo esquecemos.

Existem muitos aspectos a serem explorados, desde como isso afeta grupos de acordo com a classe social (assunto que prefiro não me estender, mas pesquisas são feitas, e recomendo que caso haja interesse, você as busque) ou até o recorte de gênero existente. E por falar em gênero, aliás, me sinto na obrigação de dissertar sobre o status.

Sexismo e álcool, dupla inseparável e caso de sucesso publicitário.

A publicidade nos dá infinitos exemplos de como a equação álcool + mulher dentro dos padrões convencionais de beleza = sucesso. Um homem que não bebe será sempre taxado de “frouxo”, pois não cumpre seu papel (cambalear e ser inconveniente?) no ambiente.

Mulheres também são encorajadas a beber (mulher que não bebe é fresca, conservadora ou pouco divertida), porém em quantidades módicas, apenas o suficiente para rirem e dançarem, já que uma das utilidades do consumo alcoólico é se portar de forma que ignore as amarras sociais que nos condicionam.
Os conceitos apresentados são todos bastante heteronormativos, é claro, bem como o é a publicidade do álcool, que define e estimula novos compradores o tempo todo, e vende não apenas uma bebidinha relaxante, mas um conceito.

Desassociar o álcool e demais formas de entorpecimento toxicológico da diversão é tarefa árdua, tamanha sua construção enraizada socialmente.

Porém, sustentar um ideal de consumo intoxicante apenas para vender uma imagem moderna e descolada entre grupinhos de indivíduos não me parece mais uma perspectiva atraente.

Obrigada a todxs que participaram no processo de me descobrir lúcida, e que me abriram os olhos para o fato de que as lutas que defendo são demasiadamente intensas para serem travadas enquanto mal consigo ficar de pé.

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